José Saramago, o inventor de utopias – nos 20 anos do Nobel
LITERATURA Aquando do banquete realizado em Estocolmo, a 10 de Dezembro de 1998, comemorativo do Nobel da Literatura entregue a José Saramago, o autor de Levantado do Chão não se coibiu de afirmar perante um auditório pouco habituado a discursos que defendessem, de modo claro e frontal, os valores humanistas consignados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujos 50 anos, por rara e feliz coincidência, se cumpriam nesse dia.
A escrita de Saramago critica e questiona «o estado do mundo»
«A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante. Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia.»
Saramago, pelo novo que a sua escrita transporta, pelos conteúdos que habilmente criticam e questionam «o estado do mundo» e as grandes questões da humanidade, não é autor de fácil abordagem, nem particularmente acarinhado pelo conservadorismo dos poderes instalados, que sempre encontraram pretextos para limitar a divulgação, interna e externamente, da sua obra. Basta-nos recordar o episódio patético, triste e mesquinho do então subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara, que «vetou», a pretexto duma qualquer pacóvia moral, o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, acto exemplar de postura persecutória e em tudo lesiva dos interesses culturais do País. Estranho é que 20 anos após a conquista do Nobel, o incómodo de alguns sectores ligados ao establishment perante a obra de Saramago, ainda se manifeste nas entrelinhas dos cínicos relatos a que a circunstância obriga.
Obra difícil será, como tudo que é inovador e raro, que o digam os inúmeros ensaístas de renome, nacionais e estrangeiros, que produziram sobre a escrita de Saramago importantes pistas de abordagem e interrogação, que se meteram em trabalhos sobre os códigos de uma escrita que reconstrói genialmente os modos de abordagem romanesca, ao mesmo tempo que reinventa a estrutura gramatical, a própria linguagem em que esses códigos se plasmam, criando um fecundo território imagético, sensorial e lúcido, em que o jocoso, o épico, o real e o fantástico se entrelaçam de modo conceptualmente modelar. A partir de Levantado do Chão, Saramago transporta para a nossa narrativa contemporânea envolventes semânticas de estranheza e sedução inusitadas.
A obra romanesca de José Saramago, a que podemos considerar dentro de um universo temático que inventaria e reflecte esse estranho e equívoco desígnio do ser português, ou seja, da singularidade histórica, cultural e idiossincrática das gentes que, desde o século XII, habitam o rectângulo ibérico, que na diversidade temporal que a obra de Saramago abarca, inclui títulos tão diversos como Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra e História do Cerco de Lisboa e esse perturbador romance que é A Caverna – recorrência a que Saramago só voltará, com esfuziante ironia, num dos seus brilhantes títulos finais: A Viagem do Elefante, ciclo que inclui Clarabóia, esse magnífico romance póstumo. Considerando-se assim, em definição conjuntural, a sua obra que se prospectiva inquiridora do real e do histórico, textos que na sua singularidade configuram os métodos de abordagem analítica, de agilização linguística, essa perspectiva lúcida e assertiva sobre uma certa realidade portuguesa, o percurso das componentes sincrónicas, hipodiegéticas e intertextuais que estruturam o modo literário, como lhe chamou Maria Alzira Seixo, ou seja, as plurais dominantes estéticas que configuram o discurso ficcional saramaguiano e a sua marca ontológica.
Logo nesse estranho, e incompreendido, objecto literário que é Manual de Pintura e Caligrafia, José Saramago encena a utópica ambição, que todo o criador de génio persegue, de explicar, de tornar menos absurdo, o volátil existencial, esse magma que nos cola, mente e vísceras, a este cósmico chão – a necessidade de tornar, através da arte, da pintura ou das palavras, perene o que é efémero e dar algum sentido ao caos.
A arte narrativa de Saramago transporta esse semental de ideias, de que nos fala Luís Rebelo de Sousa, em processos narrativos que percorrem, com subtileza estilística, alguns dos formulários do noveau roman, o tempo denso da reflexão existencial, enxuto e imanente; brilhante exercício que é sobre a linguagem, o discurso da lucidez misturando-se com os referentes históricos, trágicos e visionários da sua concepção do mundo, a desnudar-se num rarefeito processo autodiegético, num tempo ainda de incertezas mas já de balanço, fim de uma jornada e recomeço de algo ainda indefinido – o rigor e os domínios formais que Manual inaugura e se prolongará, com uma fabulosa caracterização do espaço, do tempo histórico e das personagens, numa obra politicamente empenhada, de competência ideológica, como refere Philipe Hamon, que é Levantado do Chão, livro que já contém os sinais de uma escrita poderosa, pessoalíssima, de reconhecida identidade.
Desconstruindo os signos linguísticos e narrativos, como em Memorial do Convento, trazendo de novo para a ribalta ficcional protagonistas populares (Baltazar e Blimunda), ou descrevendo, céptico, a usura e a abjecção, como em Ensaio sobre a Cegueira, ou Ensaio sobre a Lucidez, Saramago atinge, pela sua prodigiosa arte narrativa, pelo humanismo da sua visão do mundo, o patamar mais largo da literatura universal.
Inventor de utopias lhe chamou Ana Paula Arnaut, síntese feliz de uma obra e de um escritor cuja matriz traz as palavras levantadas, os cardos, o telúrico, os húmus e os enigmas que fecundam a vida, essa comunhão de perceptividade, afectos e emoções, sem as quais a nossa humanidade se perderá num vazio que se atrela à barbárie.