Duas tardes aqui relatadas, passadas no Auditório 1.º de Maio, nesta Festa do Avante! de 2018. Daí se dizer que tardámos, que foi a tarde que nos acolheu, com esse acrescento de arrecadar, para referir agora o ganho dessas horas de ouvir e ver músicas e o invólucro delas, variadas e, por vezes, deslumbrantes. Porém, sempre com uma qualidade sem mácula, garante-se aqui, logo abrindo olhos e ouvidos para um Concerto para Bebés, sob a batuta de Paulo Lameiro, não é possível!, 40 minutos com dezenas de crianças cativadas por melopeias que iam ter a Mozart, Bach e Monteverdi, palminhas, coros, ia-pa-pa-pas repetidos que conduziam às tais melodias clássicas anunciadas e, imagine-se, um ou dois choros de berço, naturais e pouco duradouros, que o resto era e foi adesão, boa nota essa, certeira na conquista de um público difícil.
Ok. Vira o disco, dá-se tempo às crianças e progenitores a procurar outros aconchegos e ainda bem, que aí vinham os Kumpania Algazarra com músicas de um mundo de ritmo e de fácil acesso, com muito pessoal a gostar e a curtir, o espaço a ficar repleto, gente a dar de si, sorrindo e meneando e toma lá: ocupa o palco o Mário Franco «Rush» Quinteto, o Mário Franco a mostrar «Rush», seu novo álbum, música menos popular mas de público fiel. Seguindo a sessão com acrescento de público e de aplausos, para agrado de Mário Franco e da sua proposta, muito bem, vem agora o Janita Salomé – grande show e boa música, a plateia a gostar e com razão – que nos disse: «este é um espaço de liberdade. O modo como se está na Festa do Avante! devia ser objecto de estudo. Aqui ficamos animados de outra vontade, da vontade de viver num mundo ideal, solidário.»
Encanto e profissionalismo
Depois, no domingo, a tarde começou chinesa, com o Grupo de Artistas da Província de Shanxi, competentes malabaristas, dançarinos, músicos e cantores, com sonoridades longínquas e cativantes, senhores (e senhoras) de um profissionalismo irrepreensível, aplaudidos por um público rendido a um encanto diferente, sendo isto antes dos Navegante, com Zé Barros ao leme, grande música, popular e portuguesa, excelentes executantes, boas vozes, acrescidas do coro dos Alentejanos da Damaia e com um final de actuação arrebatador, ou não fossem os Tocá Rufar os protagonistas. Toda a gente agradada, pronta a receber a Luanda Cozetti a imperar nos Couple Coffee, linda essa abordagem à obra de Fausto Bordalo Dias, antes de entrar em cena Carlos Barreto Lokomotiv Trio, Carlos Barreto a empunhar o contrabaixo e a desvendar o projecto «Gnosis». Boa música.