- Nº 2337 (2018/09/13)

Tardámos e arrecadámos no Auditório 1.º de Maio

Festa do Avante!

Duas tardes aqui relatadas, passadas no Auditório 1.º de Maio, nesta Festa do Avante! de 2018. Daí se dizer que tardámos, que foi a tarde que nos acolheu, com esse acrescento de arrecadar, para referir agora o ganho dessas horas de ouvir e ver músicas e o invólucro delas, variadas e, por vezes, deslumbrantes. Porém, sempre com uma qualidade sem mácula, garante-se aqui, logo abrindo olhos e ouvidos para um Concerto para Bebés, sob a batuta de Paulo Lameiro, não é possível!, 40 minutos com dezenas de crianças cativadas por melopeias que iam ter a Mozart, Bach e Monteverdi, palminhas, coros, ia-pa-pa-pas repetidos que conduziam às tais melodias clássicas anunciadas e, imagine-se, um ou dois choros de berço, naturais e pouco duradouros, que o resto era e foi adesão, boa nota essa, certeira na conquista de um público difícil.

Ok. Vira o disco, dá-se tempo às crianças e progenitores a procurar outros aconchegos e ainda bem, que aí vinham os Kumpania Algazarra com músicas de um mundo de ritmo e de fácil acesso, com muito pessoal a gostar e a curtir, o espaço a ficar repleto, gente a dar de si, sorrindo e meneando e toma lá: ocupa o palco o Mário Franco «Rush» Quinteto, o Mário Franco a mostrar «Rush», seu novo álbum, música menos popular mas de público fiel. Seguindo a sessão com acrescento de público e de aplausos, para agrado de Mário Franco e da sua proposta, muito bem, vem agora o Janita Salomé – grande show e boa música, a plateia a gostar e com razão – que nos disse: «este é um espaço de liberdade. O modo como se está na Festa do Avante! devia ser objecto de estudo. Aqui ficamos animados de outra vontade, da vontade de viver num mundo ideal, solidário.»

 

Encanto e profissionalismo

Depois, no domingo, a tarde começou chinesa, com o Grupo de Artistas da Província de Shanxi, competentes malabaristas, dançarinos, músicos e cantores, com sonoridades longínquas e cativantes, senhores (e senhoras) de um profissionalismo irrepreensível, aplaudidos por um público rendido a um encanto diferente, sendo isto antes dos Navegante, com Zé Barros ao leme, grande música, popular e portuguesa, excelentes executantes, boas vozes, acrescidas do coro dos Alentejanos da Damaia e com um final de actuação arrebatador, ou não fossem os Tocá Rufar os protagonistas. Toda a gente agradada, pronta a receber a Luanda Cozetti a imperar nos Couple Coffee, linda essa abordagem à obra de Fausto Bordalo Dias, antes de entrar em cena Carlos Barreto Lokomotiv Trio, Carlos Barreto a empunhar o contrabaixo e a desvendar o projecto «Gnosis». Boa música.

Nuno Gomes dos Santos