«Nós somos super-heróis de Chicago. Andamos suspensos por uma corda no 110.º andar, a 180 metros do chão. No Inverno as nossas mãos congelam com a chuva e com a neve. No Verão as janelas dos arranha-céus aquecem tanto o equipamento de segurança derrete. Não temos medo de ventos de 40 quilómetros por hora. Achas que temos medo de patrões?» Quem fala assim é Efraim Guzman, lavador das janelas dos arranha-céus de Chicago que, por via telefónica, me explicou como uma greve de quatro semanas terminou com os trabalhadores disfarçados de super-heróis e um aumento salarial de 27 por cento, o maior da história do sindicato.
A greve, convocada pelo Service Employees International Union Local 1 (SEIU), teve início no dia 2 de Julho, imediatamente depois do contrato colectivo ter caducado. «Era um dos piores contratos a nível nacional», explicou-me Efraim Guzman, «A base salarial era 11 dólares por hora, a partir de 65 mil dólares em despesas médicas anuais, a entidade patronal não pagava um cêntimo. Num hospital americano, 65 mil dólares não é nada: este ano um colega entalou a mão num acidente de trabalho e a factura ficou em 35 mil dólares. Lembra-te de que neste país vais a um hospital público e na sala de espera tens uma caixinha em que podes enfiar um papel com os teus dados para, através de um protocolo com uma agência funerária, te habilitares a ganhar uma campa gratuita».
No primeiro dia de greve, Neal Zucker, presidente executivo da Corporate Cleaning Services, a principal empresa do sector, recusou-se sequer a ouvir os trabalhadores. No terceiro dia, classificou a exigência de aumento salarial de 37 por cento de «irrealista». No final da primeira semana, ameaçou recorrer a trabalhadores não sindicalizados para substituir os grevistas. «O pior foi ter de enfrentar crostas [scab, termo inglês para fura-greves], mas quando os piquetes lhes cortaram o passo também foi para protegê-los: nos últimos 25 anos morreram 71 lavadores de janelas: só um deles é que era sindicalizado. O sindicato exige segurança, formação, certificados e direitos. Os crostas não são lavadores de janelas, são trapezistas».
Ser herói da classe operária é ser qualquer coisa
A pressão, contudo, continuou a avolumar-se. Houve ameaças de despedimento e intimidação da polícia. Na segunda semana, mais de 200 lavadores de janelas e as suas famílias cortaram o trânsito na intersecção da Avenida Michigan com a Randolph e manifestaram-se no Millenium Park. «As nossas famílias sabem que somos super-heróis. Arriscamos as nossas vidas diariamente para lhes dar uma vida melhor. Só os patrões é que não vêem isso». Foi para fazê-los ver que os grevistas escalaram vários arranha-céus de Chicago vestidos de Homem-aranha, Batman e outras personagens da cultura popular estado-unidense. Mas só ao final de um mês de greve é que o patronato cedeu, quando os arranha-céus perderam o brilho, as janelas deixaram de espelhar as nuvens, os vidros se tornaram baços e os escritórios escuros.
O salário base aumentou 27 por cento, o seguro de vida duplicou para 100 000 dólares e o seguro de saúde perdeu o tecto máximo. Para o SEIU, trata-se de um exemplo a seguir: «Esta histórica vitória dos lavadores de janelas de Chicago demonstra o poder da negociação colectiva (...) na luta pela melhoria das condições de vida de todos os trabalhadores», fez saber a direcção.
Mas, garante Guzman, não foi só o salário que mudou com a greve. «Quando estamos a lavar as janelas da Torre Willis ou da Torre Trump e olhamos para dentro dos escritórios dos milionários, comentamos que agora até se vê melhor lá para dentro. Não por as janelas estarem mais limpas, mas por nós vermos melhor».