Alfredo Caldeira: viver e morrer como um revolucionário

Gustavo Carneiro

Alfredo Caldeira foi um dos 32 antifascistas assassinados no Tarrafal

«Verá que sei morrer como um revolucionário.» Foram estas as últimas palavras que o comunista Alfredo Caldeira dirigiu ao director do Campo de Concentração do Tarrafal, João da Silva, quando este o visitou no seu leito de morte achando que o ia encontrar quebrado e vencido. Enganou-se. O jovem comunista, que tinha apenas 30 anos quando morreu, dias depois, enfrentou-o com a mesma coragem de que sempre deu provas ao longo da sua destacada e empenhada militância revolucionária. O fascismo matou-o, sim, mas não o vergou.

Alfredo Caldeira foi a décima de 32 mortes registadas no Campo de Concentração do Tarrafal, que ficou conhecido por Campo da Morte Lenta. Os seus últimos dias, registados num diário escrito por um companheiro, revelam quão justo era este epíteto: na entrada relativa ao dia 18 de Novembro de 1938 realçava-se que «caiu pela segunda vez com uma biliosa o camarada Alfredo Caldeira»; a 23 não parava de piorar e no dia seguinte encontrava-se já «à morte». Finalmente, a 1 de Dezembro lia-se: «Morreu Alfredo Caldeira. Após longos dias de sofrimento finou-se hoje, mantendo até bem pouco antes da sua morte uma extraordinária lucidez de espírito e uma coragem moral invulgar. Mais uma vítima deste regime desumano de prisão.»

A Colónia Penal do Tarrafal (era este o nome oficial) entrou em funcionamento em Outubro de 1936, com a chegada do primeiro grupo de 152 prisioneiros, entre os quais se encontrava Alfredo Caldeira. Criado à imagem dos campos de concentração nazi-fascistas, já então em funcionamento na Alemanha e que em breve se espalhariam por quase toda a Europa, o campo do Tarrafal visava a eliminação física e moral dos presos.

Castigos físicos, trabalhos forçados, estadias prolongadas na «frigideira» eram recorrentes e as condições insalubres do campo, a água contaminada e falta de assistência médica fizeram o resto. Para além dos 32 antifascistas assassinados no Tarrafal, muitos saíram dali para morrer em casa, com a saúde irreversivelmente arrasada.

Resistir sempre!
Nascido em Lisboa a 11 de Julho de 1908, Alfredo Caldeira aderiu ao PCP aos 23 anos. Nesse início da década de 30, o Partido reorganizava-se, sob a direcção de Bento Gonçalves, para resistir na clandestinidade imposta pelo fascismo. Em 1932, Alfredo Caldeira integrava o Comité Regional de Lisboa e nesse mesmo ano entra para o Comité Central.

Entre outras importantes responsabilidades partidárias, contava-se a ligação à Organização Revolucionária da Armada/ORA, que em breve seria uma das mais poderosas organizações do PCP, e ao sul do País. É precisamente quando se encontrava no Algarve a restabelecer contactos com os comunistas da região que é preso pela polícia política.

Enviado para a Penitenciária de Lisboa, é transferido para o Forte de Peniche e logo em seguida deportado para Angra do Heroísmo. É aqui, na Fortaleza de São João Baptista, que é feito o simulacro de julgamento: o Tribunal Militar Especial condena-o a 690 dias de «prisão correccional que, descontados 295 dias, fica reduzido a 395 dias de prisão correccional e perda de direitos políticos por cinco anos». Quando morreu, esta pena encontrava-se cumprida há muito.

Na prisão, a luta não cessa. Em Dezembro de 1934, participa activamente na luta dos presos contra as péssimas condições prisionais. Entre 1937 e 1938, já no Campo da Morte Lenta, integra o Secretariado da Organização Comunista Prisional do Tarrafal.

 



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