O que devemos a Marx

MAR­XISMO Quem foi Karl Marx? Quando e onde nasceu, viveu, lutou, in­ves­tigou e fa­leceu aquele que foi o maior in­te­lec­tual e re­vo­lu­ci­o­nário do seu tempo e nos deixou uma he­rança po­lí­tica e ide­o­ló­gica que não só re­sistiu à vo­ragem do tempo como con­tinua a ins­pirar e a ilu­minar a luta li­ber­ta­dora da classe ope­rária e dos tra­ba­lha­dores e povos ex­plo­rados e opri­midos de todo o mundo? Como se tornou Marx, um jovem ide­a­lista he­ge­liano de es­querda mas pro­fun­da­mente atento aos pro­blemas do seu povo e do seu tempo, no cri­ador do ma­te­ri­a­lismo di­a­léc­tico e his­tó­rico e do so­ci­a­lismo ci­en­tí­fico e no di­ri­gente re­vo­lu­ci­o­nário fun­dador do mo­vi­mento co­mu­nista e re­vo­lu­ci­o­nário in­ter­na­ci­onal?

Marx nunca su­bes­timou a com­ple­xi­dade do pro­cesso re­vo­lu­ci­o­nário

O en­ri­que­ci­mento cul­tural e a for­mação ide­o­ló­gica de todo o tra­ba­lhador com cons­ci­ência de classe e a sua con­fi­ança na sua luta pelos seus di­reitos ga­nham mui­tís­simo com a res­posta a estas e ou­tras per­guntas sobre a vida e a obra de Karl Marx. A sua fas­ci­nante bi­o­grafia não cabe neste ar­tigo. Para a co­nhecer nos seus traços fun­da­men­tais e para com­pre­ender como é que Marx se tornou mar­xista existe ampla bi­bli­o­grafia. O li­vrinho de di­vul­gação Karl Marx, Pe­quena Bi­o­grafia, edi­tado pelas Edi­ções Avante! no âm­bito das co­me­mo­ra­ções do II Cen­te­nário do nas­ci­mento de Marx pro­mo­vidas pelo PCP, é um ex­ce­lente ponto de par­tida que vi­va­mente se acon­selha.

Uma vida ímpar

Marx nasceu em 5 de Maio de 1818 em Trier, na pro­víncia re­nana da Prússia. Aos 17 anos, ter­mi­nado o liceu, cursa Di­reito na Uni­ver­si­dade de Berlim e em 1841 a Uni­ver­si­dade de Iena con­fere-lhe o tí­tulo de doutor em fi­lo­sofia. De­sen­volve in­tensa ac­ti­vi­dade como jor­na­lista tor­nando-se di­rector da pro­gres­sista Ga­zeta Re­nana. Per­se­guido pelas suas op­ções so­ciais e po­lí­ticas parte para Paris em 1843 pouco tempo de­pois de se casar com Jenny von Westphalen, sua com­pa­nheira de sempre e mãe das suas de­vo­tadas fi­lhas Jenny, Laura e Ele­anor. Viveu a maior parte da sua vida fora do seu país natal, em Paris, Bru­xelas e fi­nal­mente Lon­dres, onde morre em 14 de Março de 1883, sendo se­pul­tado no ce­mi­tério lon­drino de High­gate.

A evo­lução do pen­sa­mento de Marx e em par­ti­cular na­quilo que nele é es­sen­cial, a te­oria do so­ci­a­lismo ci­en­tí­fico, as­senta na sua li­gação es­treita com o mo­vi­mento ope­rário, por um lado, e por outro lado no es­tudo do que me­lhor o co­nhe­ci­mento hu­mano na sua época tinha pro­du­zido nos do­mí­nios fi­lo­só­fico, eco­nó­mico e po­lí­tico-so­cial.
Marx par­ti­cipa ac­ti­va­mente nas re­vo­lu­ções de 1848/​49 em França, e na Ale­manha – re­vo­lu­ções
que aba­laram também ou­tros países da Eu­ropa e que pas­saram à His­tória como a Pri­ma­vera dos Povos – e na Co­muna de Paris de 1871, acom­panha e in­tervém nos grandes mo­vi­mentos
de­mo­crá­ticos, pa­trió­ticos e an­ti­co­lo­niais, re­dige (com En­gels) em 1848 o his­tó­rico Ma­ni­festo do Par­tido Co­mu­nista, pro­grama da Liga dos Co­mu­nistas, o pri­meiro par­tido in­ter­na­ci­onal do pro­le­ta­riado e em 1864 é fun­dador e di­ri­gente do Con­selho Geral da As­so­ci­ação In­ter­na­ci­onal dos Tra­ba­lha­dores (I In­ter­na­ci­onal) que viria a de­sem­pe­nhar um papel fun­da­mental na di­fusão do mar­xismo no mo­vi­mento ope­rário. Em 1867 é pu­bli­cado o Livro I de O Ca­pital, a obra eco­nó­mica fun­da­mental de Marx que ex­plica o fun­ci­o­na­mento do modo de pro­dução ca­pi­ta­lista, des­venda o me­ca­nismo de ex­plo­ração do tra­balho as­sa­la­riado (a te­oria da mais valia), dá pleno fun­da­mento ci­en­tí­fico à missão his­tó­rica da classe ope­rária como co­veira do ca­pi­ta­lismo e cri­a­dora da nova so­ci­e­dade sem classes. O Ca­pital, esse fas­ci­nante e imortal ser­viço pres­tado à causa li­ber­ta­dora dos tra­ba­lha­dores e dos povos que o pró­prio Marx con­si­derou o «mais ter­rível míssil que até hoje foi lan­çado à ca­beça dos bur­gueses».

Im­pos­sível falar de Marx sem lem­brar a pro­funda ami­zade, iden­ti­dade de ideias e fe­cunda co­la­bo­ração com Fri­e­drich En­gels, so­bre­tudo a partir do seu en­contro de Agosto de 1844 em Paris. Houve muita ela­bo­ração con­junta, a co­meçar com A Sa­grada Fa­mília, e mesmo nu­me­rosos ar­tigos e tra­ba­lhos que um re­digiu e as­sinou em nome do outro, como na co­la­bo­ração no jornal pro­gres­sista norte-ame­ri­cano New-York Daily Tri­bune. Sem a de­di­cação, mo­déstia e pro­fundo res­peito de En­gels pelo génio de Marx, não te­ríamos tido o II e o III Li­vros de O Ca­pital pu­bli­cados de­pois do fa­le­ci­mento de Marx, com base nos ma­nus­critos que Marx deixou, e após anos de pa­ci­ente tra­balho do «se­gundo vi­o­lino» como a si mesmo se cha­mava En­gels.

Uma te­oria re­vo­lu­ci­o­nária

Ce­le­bramos o II Cen­te­nário do nas­ci­mento de Karl Marx com a cons­ci­ência do muito que o Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês deve a este gi­gante do pen­sa­mento e da acção re­vo­lu­ci­o­nária e do muito que po­demos con­ti­nuar a aprender com um me­lhor co­nhe­ci­mento da sua vida e da sua obra. Uma vida de homem e de co­mu­nista a muitos tí­tulos exem­plar, e uma obra em que te­oria e prá­tica se en­con­tram in­dis­so­lu­vel­mente li­gados.

Sim, de­vemos muito a Marx.

De­vemos desde logo a pró­pria razão de ser e a exis­tência do PCP com as ca­rac­te­rís­ticas que fazem dele um grande e pres­ti­giado par­tido co­mu­nista – a sua na­tu­reza de classe, a sua ide­o­logia ma­te­ri­a­lista e di­a­léc­tica mar­xista-le­ni­nista, o seu pro­jecto de so­ci­a­lismo e co­mu­nismo para Por­tugal, a sua or­ga­ni­zação de­mo­crá­tica, a sua linha de massas, a sua na­tu­reza pa­trió­tica e in­ter­na­ci­o­na­lista. Estas ca­rac­te­rís­ticas que como o O Par­tido com Pa­redes de Vidro do ca­ma­rada Álvaro Cu­nhal en­sina a va­lo­rizar e pre­servar como a me­nina dos nossos olhos, são o re­sul­tado da nossa pró­pria tra­jec­tória re­vo­lu­ci­o­nária, do his­tó­rico en­rai­za­mento do Par­tido na classe ope­rária e no povo por­tu­guês, mas são também fruto do de­sen­vol­vi­mento cri­a­tivo na época do im­pe­ri­a­lismo, do pen­sa­mento de Marx por Lé­nine (no­me­a­da­mente quanto ao con­ceito de «par­tido de novo tipo») e do im­pacto in­ter­na­ci­onal da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mas o seu ADN está em Marx, na te­oria do so­ci­a­lismo ci­en­tí­fico por ele ela­bo­rada e desde logo de­mons­trando o ca­rácter tran­si­tório do ca­pi­ta­lismo e a exi­gência da sua su­pe­ração re­vo­lu­ci­o­nária e evi­den­ci­ando o papel di­ri­gente da classe ope­rária na re­vo­lução so­ci­a­lista. Foi com Marx e o Ma­ni­festo, «esse pe­queno li­vrinho que – no dizer de Lé­nine – vale por mil Tomos», que nasceu essa força re­vo­lu­ci­o­nária po­de­rosa que já co­meçou a abater o velho mundo e a cons­truir um mundo novo, o mo­vi­mento co­mu­nista e re­vo­lu­ci­o­nário mun­dial de que o PCP é digna com­po­nente.

De­vemos a Marx os ins­tru­mentos de aná­lise e a bús­sola se­gura que guia a nossa acção re­vo­lu­ci­o­nária, o ma­te­ri­a­lismo di­a­lé­tico e his­tó­rico, o mar­xismo, con­cepção do mundo em que te­oria e prá­tica são in­se­pa­rá­veis, que ex­plica o mundo e in­dica como trans­formá-lo, uma te­oria anti-dog­má­tica na sua es­sência que se de­sen­volve e en­ri­quece em função dos novos fe­nó­menos, novos co­nhe­ci­mentos e novas ex­pe­ri­ên­cias.

A pró­pria obra de Marx é fruto elo­quente dos re­sul­tados da in­ves­ti­gação ci­en­tí­fica – no­me­a­da­mente no campo da his­tória uni­versal e do me­ca­nismo de fun­ci­o­na­mento do ca­pi­ta­lismo – e do seu con­tacto e in­ter­venção di­recta na luta so­cial e po­lí­tica do seu tempo, e em pri­meiro lugar no mo­vi­mento ope­rário. A pre­tensão de opor o Marx «jovem» de A Sa­grada fa­mília ao Marx «ma­duro» de O Ca­pital, não fazem qual­quer sen­tido. Como não o fazem as re­cor­rentes ten­ta­tivas de opor Marx a Lé­nine que, pelo con­trário, de­sen­vol­vendo cri­a­ti­va­mente o mar­xismo na época do im­pe­ri­a­lismo e da pri­meira re­vo­lução pro­le­tária vi­to­riosa, o que fez foi pôr em evi­dência a vi­ta­li­dade in­trín­seca do pen­sa­mento de Marx, não como um sis­tema de con­ceitos da­tados e pe­tri­fi­cados, mas como um fe­cundo guia para a aná­lise con­creta da si­tu­ação con­creta que pre­ci­sa­mente Lé­nine con­si­derou a «alma do mar­xismo». Uma tão va­liosa con­tri­buição as­so­ciou jus­ta­mente o nome de Lé­nine ao de Marx no con­ceito de mar­xismo-le­ni­nismo, e a vida já mos­trou, com trá­gicas con­sequên­cias para o mo­vi­mento co­mu­nista in­ter­na­ci­onal, que quem aban­dona Lé­nine aban­dona Marx, aban­dona o ma­te­ri­a­lismo di­a­lé­tico e his­tó­rico, aban­dona o so­ci­a­lismo ci­en­tí­fico.

Foi, não como um dogma mas como um guia para a acção, so­bre­tudo com a re­or­ga­ni­zação le­ni­nista de 1929 di­ri­gida por Bento Gon­çalves e de­pois com a re­or­ga­ni­zação de 1940/​41, que o PCP en­carou o mar­xismo-le­ni­nismo e foi assim que, no VI Con­gresso em 1965 o PCP aprovou o seu Pro­grama para a Re­vo­lução De­mo­crá­tica e Na­ci­onal que teve o mé­rito his­tó­rico de ser con­fir­mado nas suas li­nhas fun­da­men­tais pela Re­vo­lução de Abril. Uma ci­tação de Álvaro Cu­nhal de 1947 é bem ilus­tra­tiva do modo como de há muito o Par­tido com­pre­ende a te­oria mar­xista: «o mar­xismo-le­ni­nismo é uma ci­ência li­gada à vida e às con­di­ções de lugar e de tempo, uma ci­ência que se en­ri­quece com novas ex­pe­ri­ên­cias e novos co­nhe­ci­mentos. Os mes­tres do co­mu­nismo dão-nos os prin­cí­pios teó­ricos, a ori­en­tação geral e ricas ex­pe­ri­ên­cias para re­sol­vermos os pro­blemas teó­ricos que de­fron­tamos no nosso País. Mas não nos dão re­ceitas para cada si­tu­ação di­fícil. E daí a ne­ces­si­dade de que o es­tudo dos teó­ricos do mar­xismo seja acom­pa­nhado pelo es­tudo da re­a­li­dade por­tu­guesa, dos pro­blemas na­ci­o­nais, com a pre­o­cu­pação cons­tante da ta­refa que os co­mu­nistas por­tu­gueses têm di­ante de si».

In­ter­pretar o mundo para o trans­formar

Foi Marx que ao pôr em evi­dência a base em que as­senta todo o edi­fício so­cial – a pro­dução dos meios de sub­sis­tência – des­vendou as leis fun­da­men­tais do mo­vi­mento da so­ci­e­dade e mos­trou que o sen­tido da His­tória é o sen­tido da li­ber­tação da Hu­ma­ni­dade de todas as formas de ex­plo­ração e opressão, é o sen­tido da li­ber­dade, do pro­gresso so­cial, do so­ci­a­lismo e do co­mu­nismo.

Com base no es­tudo apro­fun­dado do sis­tema ca­pi­ta­lista a partir do país mais in­dus­tri­a­li­zado do seu tempo, a In­gla­terra, Marx con­cluiu que o ca­pi­ta­lismo, cada vez mais po­la­ri­zado entre duas classes so­ciais an­ta­gó­nicas, a bur­guesia e o pro­le­ta­riado, à se­me­lhança dos que o pre­ce­deram, é um modo de pro­dução ei­vado de in­sa­ná­veis con­tra­di­ções – a co­meçar pela con­tra­dição entre o ca­rácter so­cial da pro­dução e a forma pri­vada da apro­pri­ação – que con­du­zirão, pela in­ter­venção re­vo­lu­ci­o­nária das massas po­pu­lares, à li­qui­dação do ca­pi­ta­lismo e à sua subs­ti­tuição por uma nova for­mação so­cial, o co­mu­nismo, de que o so­ci­a­lismo é um pe­ríodo de tran­sição.

Pondo em evi­dência a di­visão da so­ci­e­dade em classes e con­si­de­rando que a «luta de classes é o motor da re­vo­lução», Marx mo­des­ta­mente afirma que não foi ele que des­co­briu nem a exis­tência de classes so­ciais, nem a luta entre si. «O que eu fiz de novo foi: 1. de­mons­trar que a exis­tência das classes está apenas li­gada a de­ter­mi­nadas fases de de­sen­vol­vi­mento his­tó­rico da pro­dução; 2. que a luta das classes conduz ne­ces­sa­ri­a­mente à di­ta­dura do pro­le­ta­riado; 3, que esta mesma di­ta­dura só cons­titui a tran­sição para a su­pe­ração de todas as classes e para uma so­ci­e­dade sem classes» (K.M., carta a Wey­de­meyer, 1852).

E na cé­lebre 11.ª tese sobre Feur­bach Marx aponta o ca­minho da luta: «Os fi­ló­sofos têm apenas in­ter­pre­tado o mundo de ma­neiras di­fe­rentes; a questão, porém, é trans­formá-lo».

Sim, é re­al­mente a missão his­tó­rica da classe ope­rária, a sua trans­for­mação em classe do­mi­nante com a con­quista do poder, o seu papel como cons­tru­tora da nova so­ci­e­dade em que, li­ber­tando-se, a classe ope­rária li­berta a so­ci­e­dade de todas as formas de ex­plo­ração e opressão, que é o prin­cipal na te­oria de Marx. E é por isso mesmo aquilo que a bur­guesia mais abo­mina em Marx, atri­buindo à noção de «di­ta­dura do pro­le­ta­riado» um sig­ni­fi­cado pre­ci­sa­mente con­trário ao seu real sig­ni­fi­cado na ter­mi­no­logia mar­xista, que é o da mais ampla e pro­funda de­mo­cracia, pois o novo Es­tado so­ci­a­lista está ao ser­viço dos tra­ba­lha­dores e da es­ma­ga­dora mai­oria da po­pu­lação.

O papel his­tó­rico da classe ope­rária

A Marx de­vemos a na­tu­reza de classe do PCP. É assim que o PCP se de­fine no pri­meiro ar­tigo dos seus Es­ta­tutos como o «par­tido po­lí­tico do pro­le­ta­riado» e «van­guarda da classe ope­rária de todos os tra­ba­lha­dores por­tu­gueses». Mas uma coisa é afirmar-se «van­guarda», outra é re­al­mente sê-lo e isso im­plica que a na­tu­reza de classe do PCP viva per­ma­nen­te­mente na sua linha po­lí­tica e ide­o­ló­gica mar­xista-le­ni­nista, na sua acção quo­ti­diana ori­en­tada para a de­fesa dos in­te­resses do mundo do tra­balho e pri­o­ri­ta­ri­a­mente di­ri­gida para a or­ga­ni­zação e a luta nas em­presas e lo­cais de tra­balho, para lá onde o tra­balho e o ca­pital se con­frontam mais di­rec­ta­mente e onde, com a acção das cé­lulas do Par­tido, se forja a cons­ci­ência de classe e se eleva a cons­ci­ência re­vo­lu­ci­o­nária dos tra­ba­lha­dores.

A con­fi­ança no papel trans­for­mador da classe ope­rária e das massas tra­ba­lha­doras está sempre pre­sente na obra de Marx. O modo como Marx acom­panha, in­tervém e ana­lisa as grandes lutas po­pu­lares e as re­vo­lu­ções do seu tempo contém en­si­na­mentos va­li­o­sís­simos quanto aos seus ri­go­rosos cri­té­rios de ca­rac­te­ri­zação e ava­li­ação das forças de classe em pre­sença e par­ti­cu­lar­mente sobre a tác­tica e es­tra­tégia re­vo­lu­ci­o­nária.

Toda a sua obra re­la­tiva às re­vo­lu­ções de 1848/​49 na Eu­ropa e par­ti­cu­lar­mente em França e na Ale­manha são pri­mo­rosas na aná­lise con­creta da si­tu­ação con­creta, na re­jeição de con­clu­sões apri­o­rís­ticas, de ho­nes­ti­dade e mo­déstia pe­rante a re­a­li­dade dos factos que im­põem por vezes con­clu­sões di­fe­rentes das es­pe­radas e pre­vi­sí­veis. A ideia de que o mar­xismo é um guia para a com­pre­ensão e para a trans­for­mação da re­a­li­dade tem uma ex­pressão par­ti­cu­lar­mente fas­ci­nante em obras como A Luta de Classes em França, Re­vo­lução e Contra-re­vo­lução na Ale­manha, O 18 de Bru­mário de Luis Bo­na­parte. A co­nhe­cida as­serção de Lé­nine a «aná­lise con­creta da si­tu­ação con­creta é a alma do mar­xismo», tem nelas uma va­liosa con­fir­mação.

O mesmo acon­tece em re­lação à Co­muna de Paris, re­vo­lução em que Marx e a As­so­ci­ação In­ter­na­ci­onal dos Tra­ba­lha­dores in­ter­vi­eram apai­xo­na­da­mente. As aná­lises e li­ções ex­traídas por Marx são de um imenso valor, no­me­a­da­mente quanto à im­por­tância do par­tido re­vo­lu­ci­o­nário, à po­lí­tica de ali­anças do pro­le­ta­riado, à questão do Es­tado, questão cen­tral que co­nheceu novos apro­fun­da­mentos (mais tarde re­to­mados por Lé­nine em O Es­tado e a Re­vo­lução), com a con­so­li­dação da tese de que não basta tomar o apa­relho de Es­tado bur­guês, é pre­ciso des­truí-lo. A Guerra Civíl em França,re­di­gida como men­sagem do Con­selho Geral da I In­ter­na­ci­onal, cons­titui um au­tên­tico mo­nu­mento de aná­lise mar­xista.


O Co­mu­nismo, fu­turo da hu­ma­ni­dade

A Marx de­vemos a cer­teza, porque ci­en­ti­fi­ca­mente fun­da­men­tada, de que nós co­mu­nistas es­tamos do lado certo da His­tória, a cer­teza de que, sejam quais forem as voltas e re­vi­ra­voltas da evo­lução mun­dial e por mai­ores que sejam as di­fi­cul­dades da luta, o pro­jecto de so­ci­e­dade so­ci­a­lista e co­mu­nista que cons­titui o ob­jec­tivo su­premo do PCP aca­bará por triunfar.

Os 200 anos pas­sados sobre o nas­ci­mento de Marx con­fir­maram que aquela bela imagem de que «o co­mu­nismo é a ju­ven­tude do mundo» tem in­teira razão de ser.

Através de duras ba­ta­lhas de classe os co­mu­nistas con­fir­maram que as se­cu­lares as­pi­ra­ções de jus­tiça so­cial ti­nham fi­nal­mente en­con­trado na acção cons­ci­ente e or­ga­ni­zada da classe ope­rária com o seu par­tido de van­guarda pos­si­bi­li­dade de re­a­li­zação. A he­róica ten­ta­tiva da Co­muna de Paris foi der­ro­tada e afo­gada em sangue numa das mais cruéis vin­ganças de classe que a his­tória re­gista. Mas isso não im­pediu o pros­se­gui­mento da luta, o triunfo da Re­vo­lução de Ou­tubro e a pri­meira ex­pe­ri­ência de cons­trução de uma nova so­ci­e­dade, a ex­tra­or­di­nária pro­jeção do mar­xismo-le­ni­nismo por todo o mundo.

As der­rotas do so­ci­a­lismo na vi­ragem dos anos no­venta do sé­culo pas­sado, com o de­sa­pa­re­ci­mento da União So­vié­tica, sig­ni­fi­caram um grande salto atrás no pro­cesso de li­ber­tação, mas isso nem apaga as re­a­li­za­ções e con­quistas al­can­çadas pelo poder so­ci­a­lista, nem al­tera a re­a­li­dade de que os grandes avanços re­vo­lu­ci­o­ná­rios do sé­culo XX – as con­quistas da classe ope­rária dos países ca­pi­ta­listas, o po­de­roso mo­vi­mento de li­ber­tação na­ci­onal que varreu o co­lo­ni­a­lismo de África, Ásia e Amé­rica La­tina, a der­rota do nazi-fas­cismo, a ex­pansão mun­dial do so­ci­a­lismo que chegou a abarcar um terço da Hu­ma­ni­dade – têm a marca da acção ab­ne­gada dos par­tidos co­mu­nistas.

Ao con­trário do que apre­goam as forças da re­acção e da so­cial-de­mo­cracia, o sé­culo XX não foi, como su­bli­nhou Álvaro Cu­nhal, o sé­culo da morte do co­mu­nismo mas o sé­culo em que o co­mu­nismo nasceu como em­pre­en­di­mento de cons­trução de uma nova so­ci­e­dade sem ex­plo­ra­dores nem ex­plo­rados.

Marx nunca su­bes­timou a com­ple­xi­dade do pro­cesso re­vo­lu­ci­o­nário. A sua pró­pria ex­pe­ri­ência mos­trou como é ir­re­gular e aci­den­tado o ca­minho da li­ber­tação. Mesmo pe­rante se­veras der­rotas das forças pro­gres­sistas e re­vo­lu­ci­o­ná­rias, como no caso da in­sur­reição de Junho de 1848 dos ope­rá­rios de Paris ou da Co­muna de Paris em 1871, nunca va­cilou quanto aos li­mites his­tó­ricos e à ine­vi­ta­bi­li­dade da morte do ca­pi­ta­lismo por se tratar de uma exi­gência do pró­prio pro­cesso ob­jec­tivo de de­sen­vol­vi­mento so­cial, ins­crito nas suas con­tra­di­ções.

O pró­prio pro­cesso re­vo­lu­ci­o­nário já mos­trou que o ca­minho da li­ber­dade, do pro­gresso so­cial e da so­be­rania na­ci­onal é o ca­minho do so­ci­a­lismo. Tal é o exemplo da Re­vo­lução do 25 de Abril em que a li­qui­dação do poder dos mo­no­pó­lios que sus­ten­tavam o fas­cismo, abriu a Por­tugal a real pers­pec­tiva de evo­lução para o so­ci­a­lismo. Des­truindo trans­for­ma­ções como a na­ci­o­na­li­zação dos sec­tores-chave da eco­nomia e a re­forma agrária, a contra-re­vo­lução fe­chou tem­po­ra­ri­a­mente as portas a essa pos­si­bi­li­dade. mas ela con­ti­nuou ins­crita na re­a­li­dade e na von­tade do povo por­tu­guês. A etapa ac­tual da re­vo­lução no nosso País é, como a de­fine o Pro­grama do PCP a de «Uma de­mo­cracia avan­çada, os va­lores de Abril no fu­turo de Por­tugal» que é ela mesmo parte in­te­grante in­se­pa­rável do so­ci­a­lismo.

«Pro­le­tá­rios de todos os países, uni-vos!»

A Marx de­vemos a chave ci­en­tí­fica para a ex­pli­cação e com­pre­ensão do mundo e de­vemos si­mul­ta­ne­a­mente a cri­ação dos ins­tru­mentos teó­ricos para ori­entar a prá­tica da sua trans­for­mação.

Marx não se li­mitou, o que já seria mui­tís­simo, a es­cla­recer o papel do pro­le­ta­riado como co­veiro do ca­pi­ta­lismo. Em­pe­nhou-se na sua or­ga­ni­zação e mo­bi­li­zação. Com En­gels criou a pri­meira or­ga­ni­zação in­ter­na­ci­onal do pro­le­ta­riado e dotou-a, com o Ma­ni­festo do seu pró­prio pro­grama.

Da Liga dos Justos ( «todos os ho­mens são ir­mãos») à Liga dos Co­mu­nistas («pro­le­tá­rios de todos os países uni-vos!»), da As­so­ci­ação In­ter­na­ci­onal dos Tra­ba­lha­dores fun­dada em 1864 ao es­tí­mulo à cri­ação e en­rai­za­mento nas massas de fortes par­tidos co­mu­nistas em cada país (como acon­teceu ainda du­rante a sua vida com a fun­dação do Par­tido So­cial De­mo­crata Alemão), Marx em­pe­nhou-se na or­ga­ni­zação da classe ope­rária como força au­tó­noma agindo in­de­pen­den­te­mente da bur­guesia e contra ela, pra­ti­cando uma po­lí­tica de ali­anças contra o ad­ver­sário prin­cipal mas afir­mando com in­de­pen­dência as suas rei­vin­di­ca­ções e o seu pró­prio pro­grama. E re­co­nhe­cendo em­bora o con­tri­buto his­to­ri­ca­mente pro­gres­sista e a va­lentia de muitos dos seus pro­ta­go­nistas, Marx com­bateu com fir­meza as con­cep­ções do so­ci­a­lismo utó­pico, do re­for­mismo con­ci­li­ador de classes, do anar­quismo e do blan­quismo que não com­pre­en­diam ou su­bes­ti­mavam o papel re­vo­lu­ci­o­nário de­ci­sivo das massas.

Muito tempo passou sobre a fun­dação da Liga dos Co­mu­nistas e da I In­ter­na­ci­onal mas o ca­minho aberto por Marx à co­o­pe­ração e so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­o­nais dos co­mu­nistas apon­tada pela pa­lavra de ordem com que ter­mina o Ma­ni­festo, «pro­le­tá­rios de todos os países uni-vos!», com­porta ex­pe­ri­ên­cias de grande valor e ins­pi­ração para a ac­tu­a­li­dade.

A di­a­lé­tica do na­ci­onal e do in­ter­na­ci­onal na luta re­vo­lu­ci­o­nária ad­quire com a glo­ba­li­zação im­pe­ri­a­lista e a con­cer­tação das classes do­mi­nantes contra os tra­ba­lha­dores e contra os povos, uma im­por­tância prá­tica ainda maior que no tempo de Marx, e mesmo maior que no tempo em que Lé­nine, em 1919, rom­pendo com os di­ri­gentes opor­tu­nistas da II In­ter­na­ci­onal (que En­gels fun­dara em 1889) criou a In­ter­na­ci­onal Co­mu­nista. As formas de ar­ti­cu­lação e co­o­pe­ração in­ter­na­ci­onal dos par­tidos co­mu­nistas evo­luíram em função das novas re­a­li­dades, mas a sua subs­tância de classe in­ter­na­ci­o­na­lista mantém-se. Ou me­lhor, é ne­ces­sário que se man­tenha, e que o in­ter­na­ci­o­na­lismo pro­le­tário con­tinue a cons­ti­tuir o nú­cleo de uma so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­o­na­lista que se tornou mais ampla como re­sul­tado do es­trei­ta­mento da base so­cial de apoio do ca­pi­ta­lismo e da di­ver­si­fi­cação das forças ob­jec­ti­va­mente an­ti­mo­no­po­listas, anti-im­pe­ri­a­listas e an­ti­ca­pi­ta­listas.

Par­tido pa­trió­tico e in­ter­na­ci­o­na­lista, o PCP ao mesmo tempo que con­si­dera o re­forço da sua in­fluência no ter­reno na­ci­onal o seu pri­meiro dever in­ter­na­ci­o­na­lista, con­si­dera da maior im­por­tância o for­ta­le­ci­mento do mo­vi­mento co­mu­nista e re­vo­lu­ci­o­nário in­ter­na­ci­onal e con­ti­nuará a agir, no res­peito pela na­tural di­fe­rença de si­tu­a­ções e opi­niões, para for­ta­lecer a uni­dade na acção dos par­tidos co­mu­nistas contra a ex­plo­ração ca­pi­ta­lista, a po­lí­tica de in­ge­rên­cias e agres­sões im­pe­ri­a­lista, o fas­cismo e a guerra, pela causa da de­mo­cracia, do pro­gresso so­cial, da paz e do so­ci­a­lismo.

Co­me­morar o II Cen­te­nário de K. Marx

Co­me­mo­ramos a data his­tó­rica do nas­ci­mento de Marx, e con­nosco toda a hu­ma­ni­dade pro­gres­sista, hon­rando a me­mória de al­guém que foi um gi­gante do pen­sa­mento ci­en­tí­fico e re­vo­lu­ci­o­nário, como dever de me­mória e gra­tidão pela sua in­su­pe­rável con­tri­buição para a causa li­ber­ta­dora dos tra­ba­lha­dores e dos povos, e para re­tirar da pe­re­ni­dade do seu le­gado os en­si­na­mentos e ele­mentos de ins­pi­ração que com­porta para a nossa luta ac­tual. Esse o me­lhor tri­buto que po­demos prestar a Marx no II Cen­te­nário do seu nas­ci­mento.