O desvio
Segundo havia sido anunciado na imprensa (que decerto não inventara a informação) o tema a abordar pelo «Prós e Contras» da passada segunda-feira seria «O valor do salário». Era um assunto apetitoso, digamos assim, e porque se estaria na véspera do Dia do Trabalhador fazia sentido. Talvez a reforçar expectativas, no início do programa surgiu nos ecrãs o que parecia ser o seu título, «Os Salários», pelo que tudo parecia encaminhado para que os telespectadores fossem assistir a uma abordagem esclarecida, desejavelmente corajosa e obviamente plural, do tristíssimo facto social e económico que é o baixo nível das remunerações do trabalho no nosso País.
Bem sabemos como o assunto permite, ou melhor, impõe abordagens múltiplas e todas elas de grande interesse nacional. Porém, logo a seguir apareceu a pergunta dirigida aos telespectadores e que, o exemplo do acontecido nas anteriores emissões do programa, de algum modo condensaria o que seria tido como essencial; e a pergunta era: «Em Portugal existe igualdade salarial entre homens e mulheres?». Estava tudo estragado, isto é, o programa desviava-se do tema que havia sido anunciado, digamos que descarrilava ou que, no mínimo, fugia da linha principal optando por um desvio de tão menor interesse que até já era conhecida de todos a resposta à pergunta formulada: não!, não existe essa igualdade, até era escusado perguntar!
Uma pergunta inútil
Evitando-se um tom dramático, não se dirá que a expectativa suscitada pelo título inicialmente anunciado foi atraiçoada: afinal aquilo é a RTP, não podemos exigir-lhe muito. Mas decerto que a alteração de rumo esvaziava o programa do que poderia ser o seu grande motivo de interesse: o reconhecimento de um país de salários baixos com todas as consequências decorrentes desse facto, designadamente a existência de cerca de dois milhões de cidadãos «tecnicamente» (e factualmente) pobres, entre os quais se encontram muitos trabalhadores com emprego mas sem remuneração suficiente para saírem da situação de pobreza.
Tentando uma correção do (mau) caminho, Arménio Carlos ainda trouxe ao debate, com a veemência e também o rigor que o caracterizam, elementos e documentação visando repor o programa no caminho certo e útil. António Saraiva, da CIP, respondeu-lhe mal; foi pena e nem é o seu estilo. Sara Falcão Casaca, professora do ISEG, veio lembrar entre outros dados que 40 por cento dos trabalhadores levam para casa ao fim de cada mês menos de 600 euros. Mas o desvio do tema do debate já em larga medida comprometera o seu interesse e o seu êxito.
No final, veio a resposta do telepúblico à interrogação de facto ociosa que lhe havia sido feita: uma esmagadora percentagem respondia, naturalmente, que salários de homens e mulheres não são iguais. Comprovava-se assim que a pergunta tinha sido inútil. Alguns dirão talvez que foi coisa pior.