Lições da (segunda) agressão ao Iraque
O imperialismo ficou de «mãos livres» para intervir à escala global
«Não em nosso nome» foi a palavra de ordem que mobilizou milhões de pessoas em manifestações contra a segunda agressão imperialista ao Iraque, incluindo em Lisboa, a 15 de Fevereiro de 2003. A consigna conserva actualidade quando o sistema capitalista, imerso em insanáveis contradições e crises, procura, através da guerra, mitigar o seu inexorável declínio. Importa por isso, 15 anos depois do início dos bombardeamentos sobre Bagdad, iniciados a 20 de Março de 2003, extrair algumas lições.
A primeira é que, como o PCP sempre insistiu, mesmo tendo que enfrentar a calúnia e a deturpação, o triunfo da contra-revolução no campo socialista representou retrocessos telúricos para a humanidade. O imperialismo ficou de «mãos livres» para intervir à escala global e os explorados e oprimidos, que durante mais de sete décadas encontraram na URSS o apoio à sua emancipação social e nacional, ficaram sobre-vulneráveis.
A chamada Guerra do Golfo, em Janeiro de 1991, já havia inaugurado uma nova era de imposição pela força de uma ordem mundial hegemónica dos monopólios transnacionais, mas a agressão e desmembramento da Jugoslávia pela NATO, em 1999, e a segunda agressão imperialista ao Iraque foram corolários da brutalidade sem antagonismo duma Rússia acabrunhada nos bastidores da sua própria ruína.
A segunda é que a violação da legislação nacional e internacional, a mentira e criação de falsos e até grotescos pretextos, a intoxicação da opinião pública, a manipulação das massas e a promoção da sua paralisia face à violência mais cruel, ascenderam a patamares superiores.
Em 2003, o então secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, andou de tubinho e croquis em riste, incluindo no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a vender a patranha da detenção pelo Iraque de um arsenal de armas de destruição massiva.
Posteriormente, altos quadros do aparato imperialista admitiram que o Iraque foi apenas o primeiro numa lista de países com intervenções agendadas, casos da Líbia, Irão, Líbano ou Síria. Neste último, terroristas são hoje apresentados como «rebeldes» e sustentados pelas potências ocidentais e estados vassalos da região, embora degolem e esfolem seres humanos, usem armas químicas contra civis e civis como escudos e objectos de propaganda de guerra, entre outras atrocidades.
O terceiro aspecto a reter é a impunidade de que gozam e com que prosseguem os velhos e novos carrascos. Durão Barroso, mordomo na Base das Lages a 16 de Março de 2003, transitou para a chefia da União Europeia a título de pagamento pelos bons serviços. George W. Bush, J.M Aznar e Tony Blair, protagonistas da Cimeira da Guerra, nos Açores, bem como outros serventuários do imperialismo, ocupam bons lugares e passeiam palestras nos salões. Blair acabou por ter de admitir que ordenou que se «apimentasse» o relatório que justificou o envolvimento da Grã-Bretanha na guerra, facto então denunciado pelo cientista militar David Kelly, falecido em circunstâncias suspeitas. O «tempero» também motivou à época a renúncia do ministro dos Negócios Estrangeiros de Londres, Robin Cook, que por coincidência, certamente, sofreu um colapso cardíaco dias depois de escrever um artigo (em 2005) em que denunciava que a al-Qaeda foi criada pela CIA para ser um instrumento do imperialismo na implosão das fronteiras do Médio Oriente, em chamas desde a segunda guerra contra o Iraque.