«Não há greves ilegais, há greves mal sucedidas», reza uma velha máxima do sindicalismo estado-unidense que, um século depois, se mantém prenhe de actualidade. Na Virgínia Ocidental, não a de há um século mas a de 2018, fazer greve é crime. E apesar da expressa ilegalidade e de todas as ameaças, mais de 30 mil professores terminaram esta terça-feira uma greve de 13 dias, a mais longa da história do Estado, arrancando ao governador um aumento salarial de cinco por cento não só para os educadores mas para todos os trabalhadores do Estado.
A verdadeira expressão da vitória alcançada pelos professores não é, contudo, um aumento salarial para todos os trabalhadores em funções públicas. Uma semana antes, o governador Jim Justice fechou um acordo com os dois sindicatos que declararam a greve, a Associação de Educação da Virgínia Ocidental e a Federação Americana de Professores na Virgínia Ocidental, prometendo um aumento salarial de cinco por cento. A armadilha estava à vista de todos: Jim Justice pretendia pôr fim à greve com uma promessa que, mais tarde, o senado estadual poderia confortavelmente destruir. Ambos os sindicatos, fortemente influenciados pelo Partido Democrata, desconvocaram a greve, mas no dia seguinte os professores não foram trabalhar outra vez. Não dez, nem cem, nem mil, mas trinta mil professores em greve. A situação complicou-se ainda mais quando, no sábado, o senado aprovou um aumento, não de cinco, mas de quatro por cento. Então, na segunda-feira, os professores voltaram a fazer greve espontânea. Terça-feira, senado e governador cederam finalmente. Para além do aumento salarial, os professores conseguiram o congelamento, por 16 meses, da componente dos seguros de saúde paga pelos trabalhadores.
Se qualquer greve é um gesto heróico, esta tem detalhes de coragem e generosidade que merecem apontamento. Sem aumentos salariais desde 2014, quase 40 por cento dos professores da Virgínia Ocidental precisam de manter um segundo emprego para conseguir pagar as despesas correntes, enquanto outros 10 por cento têm de equilibrar três ou mais trabalhos para sobreviver. Conscientes de que num Estado em que mais de 20 por cento da população vivem na miséria as escolas públicas servem a única refeição que milhares de crianças comem todos os dias, os professores montaram cantinas improvisadas nos piquetes de greve para evitar que alguns alunos passassem fome.
Sentido de dever e de poder
Mas o aspecto mais relevante da luta dos professores é o efeito que está a produzir noutros trabalhadores. Inspirados pelo êxito da greve, mais de 1400 trabalhadores da empresa de telecomunicações Frontier, no mesmo Estado, entraram em greve, exigindo aumentos salariais e um contrato colectivo de trabalho. Simultaneamente, outros professores, no Oklahoma e no Kentucky, ponderam levar a cabo greves semelhantes às dos seus colegas da Virgínia Ocidental.
«A greve da Virgínia Ocidental deu-nos um sentido de dever e de poder», disse à PBS Alicia Priest, presidente da Associação de Educação do Oklahoma. «O objectivo é o financiamento da educação pública e dos nossos serviços básicos. Se for preciso fechar as escolas para consegui-lo, estamos dispostos e estamos preparados», garantiu.