A Revolução de Outubro e a Juventude – o direito a ser feliz
SOCIALISMO Criado logo em 1918, no Congresso das Uniões da Juventude Operária e Camponesa, o Komsomol, tendo como objectivo assegurar a ligação do Partido às mais amplas camadas juvenis, constituiu-se num importante instrumento da sua defesa e aprofundamento.
O capitalismo deixa sempre atrás de si o rasto da exploração e da miséria
«Todo o mundo fala em liquidar o analfabetismo. Como sabeis, num país de analfabetos é impossível edificar a sociedade comunista. Não basta que o poder dos Sovietes dê uma ordem, ou que o Partido lance uma palavra de ordem, ou que determinado contingente dos melhores militantes se consagre a esta tarefa. É preciso que a jovem geração comunista deite ela mesma mãos à obra. O comunismo consiste em que a juventude, os rapazes e as raparigas pertencentes à União da Juventude digam: isto é a nossa missão, unir-nos-emos e marcharemos para as aldeias a fim de liquidarmos o analfabetismo...».
Neste excerto do discurso pronunciado a 2 de Outubro de 1920, menos de três anos depois da vitoriosa Revolução de Outubro, perante os 600 delegados do III Congresso do Komsomol – União da Juventude Comunista da Rússia –, Lénine, o genial dirigente do Partido Bolchevique, revela elementos centrais do pensamento da Revolução, relativamente à Juventude, que hoje aqui afloramos: sejam as tarefas da Revolução, sinalizadas na liquidação do analfabetismo, mas em que se incluem muitas outras, seja o papel que a Revolução esperava das jovens gerações e particularmente da Juventude Comunista, seja ainda a importância da organização dos jovens comunistas.
Note-se que em 1917 metade da população da Rússia tinha menos de trinta anos. Havia portanto mais de 50 milhões de jovens na grande Rússia. Não será de estranhar, pois, que encontremos entre os principais dirigentes da Revolução homens e mulheres muito jovens, saídos das fileiras do Exército, forjados na luta contra a exploração da crescente industrialização do país, letrados nas universidades, apesar da sua imensa elitização, ou tisnados pelo trabalho de sol a sol dos campos, onde campeava a miséria.
Basta ler os relatos de Jonh Reed para sentir o vigor juvenil nas palavras de algum «jovem soldado, de rosto magro e olhos brilhantes, saltando para a tribuna», de entre os muitos participantes no Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia.
Leia-se «A Mãe», de Máximo Gorki, e aí se encontrará Pável, o jovem operário empenhado na luta pelos seus direitos e dos seus companheiros, ou Natacha Vassilievna, a jovem revolucionária, sua controleira que vai da cidade para dinamizar a luta da classe operária, na região industrializada.
A juventude deu, efectivamente, um importante contributo à vitória da Revolução.
Lénine sabia bem da importância de uma «disciplina consciente dos operários e camponeses, que unem ao seu ódio contra a velha sociedade a decisão, a capacidade e o desejo de unir e organizar as suas forças para esta luta, a fim de criar, com milhões e dezenas de milhões de vontades dispersas, isoladas, fraccionadas e desperdiçadas pela imensa extensão do nosso país uma vontade única, já que sem ela seremos inevitavelmente vencidos», como referiu no já citado Congresso.
Dezenas de milhares de membros do Konsomol assumiram, desde logo, a defesa da Revolução face à Guerra Civil promovida pelas classes derrotadas pelos bolcheviques, e apoiada pelas potências imperialistas França e Grã-Bretanha, tendo a organização sido condecorada por isso, em 1928, com a Ordem da Bandeira Vermelha.
À organização da Juventude Comunista foi ainda atribuída a Ordem da Bandeira Vermelha do Trabalho, pela participação na reconstrução da economia destruída pela Guerra; por três vezes a Ordem de Lénine, no seu 30.º aniversário, pelos seus feitos na 2.ª Guerra Mundial e pela participação de mais de 350 mil jovens comunistas em acções para desenvolver a agricultura; e a Ordem da Revolução de Outubro para assinalar os 50 anos de vida da Organização Juvenil, em homenagem à participação de sucessivas gerações de jovens comunistas no processo pioneiro de construção, pela primeira vez na história da humanidade, do socialismo.
Seria injusto não referir, expressamente, a forma dedicada, empenhada, fraterna e solidária com que milhões de jovens soviéticos, animados pelos valores socialistas da sua pátria em construção, deram o melhor de si, muitos dos quais a própria vida, para vencer a besta nazi-fascista, feito que ficou assinalado a letras de oiro nos sete mil membros do Komsomol que, nos quatro anos em que durou a Grande Guerra Pátria, foram agraciados com a mais alta condecoração do País, o título de «Herói da União Soviética».
Heróis que podem ser simbolizados no exemplo de Valentin Kotick, morto em combate aos 14 anos, e que foi mesmo o mais jovem cidadão soviético a receber essa condecoração.
Do sonho à realidade
Mas se a Juventude deu muito à União Soviética, sendo, nas suas características heterogéneas, uma força social suporte da Revolução, a Revolução, a União Soviética e a construção do Socialismo deram tudo à Juventude!
Tendo estabelecido desde a primeira hora a necessidade de erradicar o analfabetismo, que ultrapassava os 70% no início do século XX, o novo poder soviético, em pouco mais de duas décadas atingiu o objectivo proposto. Milhões de jovens, cuja única expectativa, em 1917, era a da mais profunda ignorância, tiveram direito, como antes só tinham os filhos da nobreza e da burguesia, à educação. Foram milhões, muitos milhões que tiveram acesso não apenas à escolaridade básica, mas aos mais elevados graus de ensino, que fizeram da União Soviética o país com o maior número de licenciados do mundo.
Direito a que se associam o direito ao desporto, e não apenas ao desporto de alta competição, em que os atletas soviéticos assumiram particular destaque, designadamente nas participações olímpicas, mas no desporto de massas garantido a partir da escola, e o direito à cultura, generalizado na Pátria do Socialismo a todos os jovens e assegurado por uma gigantesca rede de bibliotecas, a partir de um plano elaborado logo em 1917 por incumbência de Lénine, de teatros e cinemas, a custos muito reduzidos ou mesmo gratuitos.
A par disso, a Revolução de Outubro proibiu o trabalho infantil e assegurou direitos laborais a todos os trabalhadores. Acabou com o desemprego e consagrou o direito ao trabalho como direito humano. Assegurou salários dignos e o direito a férias pagas. Estabeleceu o horário diário máximo de trabalho de 8 horas. Direitos pelos quais o jovem e crescente operariado russo lutava mas via apenas como utopia ou sonho.
Este factos contrastam com a realidade capitalista em que vivemos e lutamos, em que 17% da população mundial é analfabeta, 122 milhões dos quais jovens, sendo que 60,7% destes são raparigas, e em que 67,4 milhões de crianças não frequentam a escola. Em que mais de 168 milhões de crianças são vítimas de trabalho infantil, de acordo com os dados do PNUD, e 74 milhões de jovens estão desempregados, constituindo o maior nível de sempre, segundo a Organização Internacional do Trabalho, ao passo que cerca de 56% dos empregos criados entre 1997 e 2013 eram precários, segundo a OCDE.
Exemplo para o mundo
Direitos que, já se sabe, tiveram impactos não apenas nos jovens trabalhadores e estudantes da União Soviética, mas que se projectaram para todo o mundo, a partir do seu luminoso exemplo e do seu apoio solidário às organizações juvenis progressistas de todo o mundo.
A constituição, em 1945, da Federação Mundial da Juventude Democrática, no seguimento da vitória sobre o nazi-fascismo, com dezenas de organizações de todo o planeta, a que se seguiu a realização, em 1947, do 1.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, cujas 19 edições envolveram centenas de milhares de jovens de todos os países do mundo, ambas para celebrar o direito à Paz que os Sovietes fundadores tinham inscrito na matriz da Revolução Socialista, ao decidirem ter, como primeiro decreto da Revolução, o Decreto da Paz, referenciado na edição da passada semana do Avante!, e a ampla unidade anti-imperialista alcançada na luta contra o fascismo, ela mesma propósito dos comunistas para a concretização dos objectivos de luta imediatos e futuros, dão a dimensão da importância que se atribui à organização, luta e intervenção da juventude.
Também na Revolução de Abril, jovens eram os militares que levaram a cabo o levantamento militar, assim como jovens eram milhares dos que lutaram contra a Guerra Colonial, participaram nas campanhas de alfabetização e de dinamização cultural, de dirigentes da Reforma Agrária, das empresas sob controlo operário, do Movimento Sindical, das Comissões de Trabalhadores e das Comissões de Moradores, que participaram em inúmeras jornadas de trabalho voluntário e na dinamização de amplas iniciativas de carácter cultural, de convívio e desportivas, que no quadro do processo revolucionário fizeram o País avançar e, posteriormente, se levantaram e entorpeceram o passo à contra-revolução.
Juventude com voz activa
A Revolução de Outubro deu ainda à Juventude o direito à habitação, que contrasta com os milhões de sem abrigo criados pelo capitalismo; à saúde, direito cada vez mais posto em causa, em função dos interesses económicos; a uma sexualidade informada, feliz e realizada, hoje questionada; o direito às raparigas à igualdade na escola, no trabalho, na lei e na vida, agora subjugados aos interesses do lucro e do mercado.
Mas deu-lhe, acima de tudo, o direito a participar na construção de um mundo melhor.
Na concretização dos planos quinquenais da planificação socialista para dinamizar a economia ou na construção de milhares de quilómetros de via férrea para ligar as mais remotas regiões; na direcção de Cooperativas Agrícolas para alimentar o seu povo ou na afirmação da arte soviética como plena concretização da liberdade de criar; nos Sábados Comunistas de trabalho voluntário ou no alcançar do sonho de colocar o primeiro homem e a primeira mulher do mundo no Espaço, os jovens Iuri Gagarin e Valentina Tereskova; os jovens soviéticos e, mais tarde, os jovens dos outros países do sistema socialista, os jovens dos países colonizados, os jovens organizados nos partidos comunistas e operários dos países capitalistas, ainda que numa fase bastante mais atrasada do processo, participaram e participam ainda hoje na exaltante tarefa de construir a mais democrática, a mais justa, a mais humana, a mais avançada das sociedades que a humanidade já conheceu, a sociedade socialista.
O futuro é o socialismo
O capitalismo aí está, mostrando exuberâncias que não tem, apontando caminhos que mais não são do que becos sem saída, contorcendo-se nas suas próprias contradições insanáveis.
De permeio com as novas realidades da comunicação, com as luzes, o brilho, o esplendor de um tempo vivido na dinâmica de um teclado virtual, mais não tem para oferecer aos jovens do que um mundo de precariedade, de desemprego, de exploração e guerra. Empurra centenas de milhares de jovens para migrações forçadas, nas malhas dos esquemas mafiosos que tantas vezes levam à morte no Mediterrâneo ou no deserto do México. Privatiza o ensino e a educação promovendo a sua elitização. Dificulta o acesso à arte, à cultura, ao desporto, à realização pessoal.
O capitalismo, por mais máscaras que afivele, deixa sempre atrás de si o rasto da exploração, da miséria e da instabilidade. E é por isso que procura criminalizar todos os que lutam e protestam.
O problema para o capitalismo é que, não obstante as limitações às liberdades que procura impor, eles lutam e agigantam-se com a criatividade, a força e a alegria que lhes é característica. A vida comprova que, também para os jovens e para as jovens gerações, o socialismo continua sendo uma exigência da actualidade e do futuro.
Um sistema que assegure a todos a educação pública, gratuita e de qualidade, que garanta o direito a um emprego estável com direitos, em que os jovens tenham direito a participar, a reclamar e a propor, sem serem reprimidos por isso, que assegure o acesso à cultura, ao lazer, ao desporto e ao bem estar.
Uma sociedade que dê aos jovens – vistos, entendidos e tratados como construtores do seu presente e, nessa medida, como sementes do seu, do nosso futuro – o direito a ser feliz.