O encontro dos socialistas europeus em Lisboa, ocorrido no final da semana passada, apresentou como novidade a escolha de um socialista para a presidência do Eurogrupo, tendo os oradores estrangeiros e nacionais cavalgado o entusiasmo pela hipotética escolha para o cargo de Mário Centeno, ministro das Finanças português.
Não se percebe o entusiasmo pela escolha de Centeno para um cargo que fará dele o porta-voz de todas as coisas desagradáveis que o Eurogrupo (um órgão não eleito da União Europeia, mas que nela manda, com total discricionariedade) entenda impor ou comunicar aos países membros.
Quem se iluda – ou finja iludir-se – com o penacho do título «presidente» ignora – ou faz de conta que não sabe – como o poder autocrático se exerce, fazendo dos seus porta-vozes o que realmente são – uns meros capatazes diligentes, cuja função é zelar pela cumprimento das determinações de quem manda.
O mais grave, todavia, é assistirmos a uma reunião de socialistas europeus e ver sair dela, em triste solidão, o objectivo de eleger um dos seus pares para porta-voz do Eurogrupo.
Pelos vistos, a tão falada social-democracia europeia continua amarrada de pés e mãos aos ditames dos conservadores europeus, que inventaram o obsessivo cumprimento do défice como instrumento de duplo efeito – o de os chamados «países ricos» da União Europeia se locupletarem a comprar dívida aos «países devedores» enquanto essa dívida vai crescendo e a atarracharem cada vez mais os direitos sociais dos «povos endividados» através destas dívidas de novo tipo – o das dívidas impagáveis, nestes termos e condições.
Esta reunião de socialistas europeus continuou também sem abordar as razões profundas da sua erosão eleitoral na generalidade da Europa ou, sequer, inquietar-se com ela. É claro que não vêem que a «conciliação» com os conservadores é a razão primeira para o seu declínio eleitoral. As suas ambições parecem esgotar-se na presidência do Eurogrupo, o clube dos senhores em cuja selecção continuam a não meter prego nem estopa, mas a quem se mostram desejosos de obedecer, através de um «presidente do Eurogrupo socialista».
Questões elementares como as renegociações das dívidas – consideradas vitais por cada vez mais socialistas – continuaram fora deste fórum europeu, que se limitou a comprazer-se com os «ganhos» do governo PS de António Costa e a vangloriar-se de tal ter sido feito «dentro das regras europeias», elegendo-as mais uma vez com o alfa e o ómega da vida que planeiam construir no futuro imediato, mesmo sabendo e dizendo em surdina, longe dos microfones, que esta via dos défices impagáveis apenas conduz ao agravamento da miséria de países inteiros.
A famosa «conciliação» dos sociais democratas continua a fazer estragos. Os mesmos de sempre.