Lutas e aspirações da juventude fizeram de Sochi a capital da solidariedade

Miguel Moura e Gustavo Carneiro

FESTIVAL Decorreu entre os dias 14 e 22 de Outubro, em Sochi, na Federação Russa, o 19.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (FMJE), sob o lema «Pela paz, solidariedade e justiça social. Lutamos contra o imperialismo – honrando o nosso passado, construímos o futuro!» e dedicado aos 100 anos da Revolução de Outubro.

Mais de 20 mil jovens participaram no 19.º FMJE

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A longa viagem, com escala em Moscovo, não desanimou os cerca de 40 jovens que compunham a delegação portuguesa – ânimo aliás bastante visível na combatividade e energia dos milhares que desfilaram em direcção ao palco principal, no dia 16, exigindo um mundo de paz, livre de ingerências, chantagens e agressões.

Depois de feita a acreditação à chegada, foi tempo de ir à cerimónia de abertura do Festival, com uma intervenção de Nicolas Papademetrious, presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), e outra do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, na Feira da Amizade, montava-se os stands das delegações com materiais das diversas organizações.

Nos longos corredores daquele edifício, dezenas de delegações nacionais partilhavam um espaço onde tradições e culturas de povos distintos se misturavam num clima de respeito e grande amizade. Era frequente ver grandes conglomerados a assistir a espectáculos de dança proporcionados pelas delegações da Síria e da Índia, por exemplo, ou ouvir cantar e tocar instrumentos dos cinco continentes. Ali também se conheciam melhor os processos de luta da juventude nos quatro cantos do planeta, bem como as suas preocupações, anseios e aspirações, de que são exemplo o jovem inglês que explicava que «marcar uma greve em Inglaterra é um processo extremamente burocrático» ou o jovem saaráui que falava sobre a ocupação do seu país por parte de Marrocos.

Foi também neste edifício que decorreram, durante todos os dias do Festival, os debates e conferências com temas como «As conquistas da Revolução de Outubro», bem como diversos painéis de discussão sobre o contributo de Ché Guevara, Fidel Castro, Robert Mugabe ou Mohamed Abdelaziz – os quatro líderes históricos homenageados este ano – para o desenvolvimento da luta dos povos por um mundo de paz, solidariedade e progresso social.

A educação, a precariedade, o desemprego e os baixos salários, a ofensiva em vários planos sobre os direitos da juventude (e não só dela), o direito dos povos à autodeterminação e soberania, foram alguns de muitos outros temas em discussão.

O imperialismo no banco dos réus

Um dos momentos altos do Festival foi o Tribunal Anti-imperialista. Durante três dias, jovens de todo o mundo relataram casos concretos de como o imperialismo afecta as suas vidas e deram exemplos de diferentes mecanismos e instrumentos utilizados para atacar os direitos dos povos em diversos planos. Na última sessão, um grupo de juízes condenou simbolicamente o imperialismo e foi exigido um outro rumo para a humanidade.

O último dia foi reservado à resolução final do 19.º FMJE, lida pelo presidente da FMJD, Nicolas Papademetrious, onde se reafirmou a validade dos valores históricos do movimento dos festivais e do papel da FMJD e da juventude na luta contra o imperialismo. Durante a intervenção, ouviram-se muitas palavras de ordem em solidariedade com Cuba, Venezuela e Palestina, entre outras.

O 19.º FMJE confirmou-se como um enorme êxito, tanto pela sua combatividade como pelo elevado nível de discussão e participação nas diversas iniciativas realizadas. Os mais de 20 mil jovens que ali marcaram presença saíram deste Festival com mais força para a luta de todos os dias por um mundo de paz e solidariedade entre todos os povos.
 

«O polvo só tem oito tentáculos»

O cubano Jose Maury, Secretário-geral da Federação Mundial da Juventude Democrática, explicou ao Avante! o processo de construção do FMJE no seu país. Referiu que em Cuba se começou a preparar o FMJE com mais de um ano de antecedência, «uma preparação muito rica e muito grande, com a realização de festivais provinciais em todas as províncias», que são em si mesmo festivais internacionais, pois participam «muitos jovens estrangeiros que estudam no país. Assim, é possível encontrar nos festivais provinciais um saaráui a falar sobre a causa da libertação da sua pátria ou um palestiniano a referir-se à luta do seu povo pela independência.

«Gera-se um movimento de discussão, a partir dos festivais provinciais, sobre qual será a mensagem dos jovens cubanos para o FMJE. Isto permite uma maior participação no FMJE e que se escute a voz dos cubanos no FMJE», e que espelha o empenho do povo cubano para o sucesso dos FMJE.

Contributo que não é de agora, como Maury explica. «Em 1972, Fidel visita a Hungria e a sede da FMJD e solicita a possibilidade de se fazer um FMJE em Cuba. É aprovado e, pela primeira vez, o Festival saiu da Europa, foi ampliado o seu alcance para outras regiões do mundo». A dissolução do campo socialista no Leste da Europa e a queda da União Soviética gerou, no início da década de 90, um período de confusão e houve um momento de pausa no movimento dos festivais. Em 1995, «Fidel decide que é necessário resgatar o Festival e oferece Havana como sede do próximo FMJE», o que viria a acontecer em 1997.

O povo cubano, que vivia «um período de escassez e de grande crise, fruto da perda de todo o mercado económico, entendeu a mensagem e acolheu milhares de jovens nas suas casas. Foi muito bonito dar essa possibilidade ao povo cubano e aos jovens do mundo: a possibilidade de conhecerem a vida dos cubanos». Depois, o movimento dos festivais «retomou o seu rumo e ritmo naturais e é importante que assim continue», pois «ao imperialismo não interessa que este movimento se desenvolva, mas que morra e desapareça. A suposta desideologização e apoliticismo ante os problemas que existem no mundo» é impossível de conceber, refere.

«É por isso muito importante manter vivo o FMJE e que não no-lo roubem». Para Maury, o balanço é positivo: «chegámos a muitas pessoas e o importante é continuar a lutar. O polvo só tem oito tentáculos, não tem mais. Se nos unirmos todos, não conseguirá controlar a situação».


Da Rússia para Portugal
com muito para contar


Duarte Alves, Luís Silva e Sofia Lisboa são três dos cerca de 40 jovens portugueses recentemente regressados da Rússia, onde participaram no 19.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes.  

O primeiro esteve dois meses em Sochi, integrando o Comité Organizador Internacional do Festival, enquanto que o segundo, como é membro do Secretariado da Direcção Nacional da JCP (respondendo aí pela Secção Internacional), fez parte da delegação portuguesa. Sofia, por seu lado, foi uma das responsáveis pelo Comité Nacional Preparatório português.

Avante!: Que apreciação fazem do Festival?

Luís Silva (LS): O 19.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes foi muito participado, com delegações de todo o mundo e milhares de jovens. As conferências foram muito ricas, dando expressão às experiências e lutas dos jovens nos vários países. Como momentos altos destaco o desfile comemorativo do Centenário da Revolução de Outubro e o Tribunal Anti-imperialista, no qual foram condenadas as várias vertentes em que o imperialismo expressa a sua ofensiva contra a juventude e os povos. O Festival fica ainda marcado pelos seus valores, no ano em que se comemora o 70.º aniversário deste movimento. Se em 1947, pouco depois de terminar a Segunda Guerra Mundial, jovens de todo o mundo se reuniram em Praga «por uma paz duradoura», hoje, quando a paz está longe de estar assegurada, este acontecimento teve uma grande importância.

Duarte Alves (DA): A denúncia do imperialismo em vários países e o seu papel nas diversas guerras, agressões e ingerências esteve muito presente nos seminários e conferências e está expressa na Declaração Final. Nesta reafirma-se também os valores do Festival e o seu carácter amplo e unitário.

Sofia Lisboa (SL): Os valores do Festival são sustentados nas questões que mais tocam a juventude nos mais variados planos. Assim, assumiu grande centralidade a luta pelos direitos laborais e pelo direito à educação, à cultura e ao desporto e não apenas as questões relacionadas com a paz e a guerra. Membros da nossa delegação participaram em seminários e conferências sobre temas como a água, a educação ou o trabalho.

Para lá das questões estritamente políticas, o que mais vos marcou neste Festival?

SL: O que mais me marcou foi verificar que, se do ponto de vista político há questões que são transversais a todas aquelas organizações e a todos aqueles jovens, já culturalmente é tudo muito diverso. Por mais que o imperialismo aposte na divisão cultural e religiosa, e num momento em que o faz de forma intensa, no Festival as diferenças não são um problema, mas um factor de enriquecimento. Sentiu-se um forte espírito de solidariedade entre todos.

DA: As delegações portuguesa e síria estavam no mesmo hotel e o que mais me marcou foi precisamente o optimismo que os jovens sírios demonstravam face à situação que se vive no seu país. Estavam ali a afirmar a sua causa, sem complexos, com as suas bandeiras e a sua cultura. Também a diversidade da própria Rússia, que esteve bem patente, me marcou bastante. Dos muitos jovens russos que ali estiveram nem todos integravam a delegação. Vários nem sequer ali foram pelo Festival, mas pelo programa cultural e científico que o rodeava, mas acabaram por participar nos seminários e debates e contactar com a Federação e suas organizações.

A FMJD sai mais forte de Sochi?

LS: Pelo papel desempenhado pela FMJD e pelos comités nacionais, o Festival assumiu-se como uma grande iniciativa juvenil, de massas e anti-imperialista e como um importante momento de luta pela paz. Apesar de alguns problemas que marcaram a preparação e realização do Festival, a Federação revelou uma grande unidade, essencial para responder aos desafios que surgiram. Os discursos do presidente da FMJD nas cerimónias de abertura e encerramento deram grande projecção à Federação e a Declaração Final plasmou aquilo que o festival é e deve continuar a ser, um Festival com uma ampla unidade anti-imperialista. Por isso, sim, a Federação sai reforçada deste festival, confirmando-se como essencial para a continuidade do movimento dos festivais e para a defesa e afirmação das suas características.

Como se organizou a delegação portuguesa?

SL: A preparação do Festival em Portugal foi um processo de muitos meses. No Verão de 2016, numa reunião com várias associações, definiu-se os princípios que deveriam nortear a participação portuguesa e decidiu-se lançar um apelo à juventude, o que se fez em Dezembro. Nele estavam as questões que a delegação portuguesa deveria levar ao Festival, centradas na luta da juventude pela escola pública, pelo trabalho com direitos, pelo acesso à criação e fruição da cultura. Conseguimos incluir todas estas questões no apelo porque as associações que se foram juntando a este processo têm intervenção nestas áreas.

Que papel teve a JCP neste processo?

SL: A JCP foi, como membro da FMJD, quem lançou o processo preparatório do Festival, mas conseguimos reunir associações de estudantes, sindicais, culturais, de mulheres. Em cada reunião do Comité Nacional Preparatório juntava-se mais uma associação. Isto foi-se alargando até à constituição da delegação final, muito ampla, com cerca de 50 jovens. Pudemos estar em todos os debates e na Feira da Amizade e demos um contributo muito positivo para êxito do Festival.

O Festival terminou ou, de certa forma, continua? Se sim, como?

SL: Por mais que tentemos antecipar o que vai ser o Festival, só quando lá estamos é que percebemos verdadeiramente que estamos envolvidos em algo muito maior do que apenas as lutas que travamos cá. E apercebemo-nos também que muito embora haja problemas específicos em cada um dos países, a ofensiva é geral e apresenta-se a todos os povos e a todos os que lutam por alternativas de progresso e justiça social. Os processos são diferentes, os obstáculos são diferentes, mas luta-se muito, e isso é uma injecção de confiança e de motivação para todos quantos lá estiveram. Trazer essa energia para cá é fundamental!

LS: O fundamental é, desde logo, levar a Declaração Final aprovada no festival à juventude portuguesa, dá-la a conhecer e discuti-la. Para isso é preciso ir às escolas e aos locais de trabalho de modo a mostrar o que foi o Festival e a dar seguimento à luta contra o imperialismo, pela paz e pelos direitos.