Uma parábola lúcida e inquietante – O Homem Domesticado, de Nuno Gomes Garcia
O mais recente livro de Nuno Gomes Garcia, O Homem Domesticado, seu terceiro romance, podendo inscrever-se nos códigos da ficção científica, sobretudo investindo nos inquietantes universos fabulares de Aldous Huxley e George Orwel, introduz no discurso ficcional, nas propostas da sua intrínseca especulação reflexiva, a questão absorvente sobre as mutações futuras do humano que nos subjaz e um outro tipo de preocupações que entroncam nos sinais que o atento olhar do autor detecta nas derivas da contemporaneidade: uma mudança de paradigma político/social é possível no futuro; uma sociedade que foi durante séculos gerida, no plano político, ideológico e religioso, de modo patriarcal, que teve no seu centro os imaginários e o absoluto poder, poderá deixar de o ser e transformar-se num espaço dominado de forma totalitária pela mulher, uma sociedade matriarcal severa e vigilante, um tipo novo de fascismo que se serve dos signos verbais da Revolução francesa, que subalterniza, através da padronização genética e dos artificialismos que a ciência permite, o papel de agente procriador do homem na preservação da espécie, e abole o seu ancestral protagonismo na condução da coisa pública.
O homem anulado da sua essência, submetido à escravatura doméstica, cabendo-lhe as funções que até aí eram, seguindo os doutos ensinamentos de D. Francisco Manuel de Melo, tarefas de mulher; o homem expurgado de direitos, humilhado na sua condição, mero serviçal a quem o poder despótico de Marine e do seu governo (toda a acção se passa em França, numa cidadezinha de contornos burgueses, sobre a qual paira uma atmosfera opressiva) atribui o papel de «fada do lar», de machos domesticados, meros produtores de espermatozóides que um laboratório estatal se encarregará de transformar em outros seres anódinos, desapossados de vontade, de pensamento e de prazer.
Estes homens, vivendo o medo, a clausura, na extrema ignorância da sua própria condição, cozinhando, lavando, submetendo-se, saindo à rua vestidos com uma espécie de burka (os elementos conceptuais deste livro são de um simbólico arrasador); machos (e aqui o termo utilizado pelo autor é delirante, subvertendo os códigos coevos), que podem ser reciclados caso não cumpram a rigor os cometimentos que lhe são atribuídos na rígida escala hierárquica. Quando morrem serão transformados em fertilizantes, estrume, portanto: eis a suprema humilhação do género.
O autor constrói um discurso que procura reflectir sobre os delírios do capitalismo levados às últimas consequências, a sua lógica, os seus desvarios tecnológicos, traçando o quadro de um regime que desumaniza o homem até à raiz do absurdo, que apenas à mulher concede o privilégio de ser cidadã, ou numa escala superior da hierarquia Cidadã-Presidente, como se esta sociedade matriarcal retomasse, desvirtuando-os, os termos fundadores da República.
É também da virilidade, do pavor do prazer, que esta sociedade se resguarda. Ter um sexo activo e fecundador é ter poder, e é a esse poder que estas mulheres se obrigam a negar, mesmo que essa negação, essa fuga, as transforme em títeres burlescos, a uma regressiva barbárie na sua aparente polidez, seres vis, acautelando no entanto, de modo hipócrita, as consequências dos seus actos extremos.
Quando Francine Bonne, uma das personagens centrais da narrativa, traz para sua casa um segundo macho, substituindo o anterior, considerado inapto, toda a aparente normalidade burguesa desta sociedade irá desmoronar. O novo macho é de outra estirpe, foi gerado à moda antiga, nasceu naturalmente de um ventre, sabe ler, tem desejos e conhece todos os caminhos do prazer. A respeitável cidadã Francine Bonne vai sentir esse estágio de vida através do prazer e, por ele, chegar à insubordinação. Mas esta sociedade totalitária, que Nuno Gomes Garcia rigorosamente encena, gerida pelas mulheres (a ausência de humanidade permite todas as formas de totalitarismo e de perversão) não o irá permitir, não deixará, em nome da ordem e da segurança, que a virilidade desperte, e que os homens e mulheres voltem a ser iguais, se amem e sejam de novo livres e erráticos. Estamos condenados à desumanização total, a Liberdade precisa de ferrete e o homem de coleira? O autor deixa-nos sem abrigo e isso é a mais lúcida, inquietante transgressão deste livro. A Literatura serve para inquietar, para nos levar a pensar; põe questões, inquire, problematiza, não lhe cabe solucionar.
Há neste O Homem Domesticado, como de resto nos dois anteriores romances de Nuno Gomes Garcia (O Soldado Sabino e O Dia em Que o Sol se Apagou) o supremo gozo da linguagem no seu mais extenso sentido estético, sintagmático e conceptual, a fruição do prazer lúdico pela palavra, no dizer de Urbano Tavares Rodrigues, que se afasta dos códigos que por vezes se repetem exasperantes na escrita dos cultores desta vertente ficcional. E é essa fruição estética, o domínio dos tempos e da linguagem, que singulariza esta incursão do autor pelos caminhos da ficção científica.
Este romance de Nuno Gomes Garcia, nos seus preclaros labirintos da inquietação, transporta já os fundos rumores que parecem querer invadir e corroer os linimentos do nosso incerto tempo. Romance que vem provar, uma vez mais, que a nossa actual literatura feita pelos seus mais jovens cultores (Nuno nasceu em Matosinhos, em 1978), está bem e recomenda-se.
O Homem Domesticado, de Nuno Gomes Garcia – Edição Casa das Letras/2017