Quando a antiguidade é um posto
Como era previsível e aliás adequado, as eleições autárquicas do dia 1 foram o tema do «Prós e Contras» da passada segunda-feira. Curiosamente, foram também tema no programa «Agora Nós», da RTP1, onde na tarde da mesmíssima segunda-feira a peculiar Manuela Moura Guedes se dedicou a impingir-nos, no seu inconfundível estilo e sem o incómodo do mais ligeiro contraditório, o seu entendimento do assunto. Quanto ao programa da noite, participado por gente dos diversos quadrantes políticos e sem nenhuma excepção relevante, aconteceu o que era inevitável: para além da estrondosa derrota do PSD do dr. Passos Coelho, a perda de câmaras pela CDU foi alegremente referida por diversas vozes. Mais um poucochinho, não muito, e ter-se-ia ouvido ali a previsão, tantas vezes feita e sempre desmentida pelos factos, do próximo fim do PCP. A questão, já se vê, é que há gente que toma os seus desejos por realidades e que, mesmo depois de decepções que já se repetem ao longo de décadas, não consegue ter emenda. São como jogadores de jogos de azar que se obstinam a apostar no mesmo número, indiferentes a já inumeráveis desapontamentos. E na segunda-feira lá se viu passar a recidiva da mesma doença.
…mas com fins
Bem podiam essas criaturas fazerem a si próprias o favor de olharem para trás no tempo e repercorrerem o trajecto do Partido Comunista Português desde a sua fundação até a actualidade: são noventa e seis anos de luta heróica, durante longo tempo em regime de clandestinidade duramente perseguida, de quotidianos riscos de prisão e tortura se não de morte. Agora que parece estar na moda a palavra «resiliência», parece que ninguém tem maior direito a ela do que o Partido Comunista Português. Sabem-no os seus adversários e inimigos, e também por isso tanto se regozijam pela perda de dez câmaras municipais nestas eleições autárquicas. Mas seria saudável e promocional de alguma lucidez que olhassem para trás no tempo e vissem com olhos de ver não apenas como o PCP é antigo mas também, e sobretudo, o que ao longo do tempo tem preenchido essa antiguidade. Estão disponíveis e são adequadas algumas palavras: heroísmo, visão lúcida do processo histórico, confiança. Em verdade, a simples antiguidade está longe de bastar para ser um mérito, bem se sabe. Mas quando a antiguidade tem um conteúdo e o conteúdo é o da história do Partido Comunista Português, bem se pode dizer que a antiguidade é um posto. Compreende-se que este factor suscite noutros partidos alguma inveja. E quando Fátima Campos Ferreira, que desta vez até se deu ao luxo de entrar em aberta discussão com João Oliveira, pergunta se o «PCP não está a perder a sua identidade», está obviamente a esquecer-se do longo percurso do Partido e da sua comprovada firmeza nessa identidade que, precisamente, tanto incomoda tanta gente. Mas a pergunta aparenta poder conter alguma gota de veneno instilada sem princípios mas com fins. A pensar talvez em como seria agradável uma crisezinha governativa.