Os poderosos
A TVI estabeleceu um ranking das pessoas «com mais poder em Portugal», seleccionado pelas chefias desta televisão e, supostamente, fazendo as delícias dos frequentadores da programação de mexericos em que a estação se especializou.
O assunto foi discutido numa espécie de fórum com a prata da casa integrando José Miguel Júdice, novel comentador do canal, Sérgio Figueiredo, director de Informação da TVI e o pivot José Alberto Carvalho.
Seguros e confiantes na «zona de conforto» (como dizia Passos Coelho) que é a «sua TVI», os palestrantes trocaram cordialidades e lugares-comuns com grande desafogo, crepitando raciocínios laboriosos sobre as escolhas feitas e a fazer e pondo, no acto, a imensa solenidade que acham adequada a esta «escolha dos poderosos». Aliás, emanava dessa solenidade reinante o poder que todos ressumavam de estar ali, senhores absolutos da «máquina que mudou o mundo» – a televisão – podendo opinar com a garantia absoluta de que nada nem ninguém os iria contraditar.
Até que aconteceu uma coisa.
José Miguel Júdice, no jeito que ele pomposamente assume como «de contradição», opinou que o secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos, é que deveria contar na lista dos «mais poderosos» (ao invés, por exemplo, de António Guterres ou Jorge Mendes), pelo «poder destrutivo» que, no seu entender, o dirigente sindical possui, ao que Sérgio Figueiredo atalhou, dizendo: «...ou o patrão dele, o Jerónimo de Sousa».
Acontece que Sérgio Figueiredo não é um «tonho» qualquer, no «who is who» cá do burgo – é o director de Informação de um dos três canais televisivos portugueses.
Se tão grosseiro insulto ao sindicalismo em geral e à CGTP-IN em particular é inaceitável, na democracia consolidada que toda a gente e o próprio Figueiredo enaltecem, vindo do director de Informação de um canal de televisão é inacreditável e, liminarmente, intolerável.
Este homem está marcado pela sua circunstância: no inquérito parlamentar ao BANIF, longe da impunidade dos estúdios da sua televisão e também longe desta loquaz sobranceria, bem o vimos a engolir em seco e a titubear qual Zeinal Bava que, noutro inquérito parlamentar, se refugiou num longo exercício de desmemoriação, cansando a audiência com intermináveis «nãos» e «não me recordo».
Mas Sérgio Figueiredo não se livra da circunstância de dirigir a Informação na TVI e, nesse papel, ao exibir tal ignorância e desprezo em relação à actividade sindical e ao sindicalismo no nosso País, incorre em graves falhas éticas, deontológicas e profissionais.
Júdice, sempre matreiro, classificou a PGR, Joana Marques Vidal, como apenas «um vértice» onde confluem diversos poderes judiciais.
Notoriamente, Sérgio Figueiredo é também e apenas o vértice onde, na TVI, converge o reaccionarismo que nela manda.