A música da (na) Festa do Avante!
Na Festa em que a felicidade é Programa, a música é ferramenta de transformação
O que estarão a fazer, à entrada de um mesmo palco, os Tubarões, Luigi Nono, Pedro Jóia, Max Roach, José Afonso, Irakere, o Coro Lopes-Graça, Richie Havens, Rossini, Luís Gonzaga, Carlos Paredes, Ray Lema, os Xutos e Pontapés, Gisela May, Rui Veloso, o Trio Ganelin, Jorge Palma, Tom Paxton, Fernando Farinha, Beethoven, Kassav, os músicos de Guizhou, Manuel Freire, Fairport Convention, Segue-me À Capela, Trovante, Mercedes Sosa, Brigada Victor Jara, Aparcoa e Shostakovitch? A resposta é simples: vão apresentar-se na Festa do Avante!.
Em nenhum lugar de Portugal um palco foi tanto o mundo inteiro, as músicas todas, a História da Humanidade nos seus desempenhos sonoros. Em nenhum lugar de Portugal um palco foi tanto o seu País, do rock à música erudita, do fado ao jazz, da música tradicional à música experimental. Porque a música da Festa é o lado sonoro de um lugar onde vive a literatura, o debate, a gastronomia, as artes plásticas, o cinema, o teatro, a evocação histórica, a ciência, o internacionalismo proletário. A Festa do Avante! é, afinal, o jornal que lhe dá o nome, saído das páginas para as três dimensões do que se vê e para as muitas dimensões do propósito revolucionário com que, todos os anos, os comunistas portugueses erguem a cidade da Atalaia.
A música da Festa não é montra – é protagonista. Em Portugal e no mundo inteiro. No dia em que Miriam Makeba subiu ao palco, foi a luta contra o regime de apartheid que recebeu os aplausos; na noite em que se apresentaram no Alto da Ajuda Chico Buarque, Edu Lobo, MPB 4 e Simone, o que ficou da música cantada e tocada e das palavras ditas foi a denúncia do regime militar fascista, a luta pela democracia brasileira ali à vista do Tejo; e a resistência chilena na voz de Sergio Ortega; e a afirmação do socialismo nas vozes do Oktoberklub, entre dezenas de músicos de todo o mundo que foram desenhando com as suas sonoridades o perfil internacionalista da Festa do Avante!.
A música da Festa são os sons e é também o trabalho dos que, não sendo músicos, são parte essencial da cadeia de tarefas que dá a ouvir o que se toca em cima dos palcos. Não é descabido afirmar que a Festa do Avante! terá tido grande responsabilidade no arranque da indústria do espectáculo em Portugal. A dimensão dos espectáculos da Festa, e a exigência técnica colocada desde a sua primeira edição, precedeu o fenómeno dos actuais festivais de música do panorama musical português. De tal modo que, nas primeiras edições da Festa, não havia no nosso País material técnico disponível para satisfazer as exigências de quantidade e qualidade que se impunham. As aparelhagens vinham «de fora» em grandes camiões TIR, naquilo que era, por si só, um espectáculo dentro do espectáculo. Foi também na Festa que se constituiu a primeira de geração de sonorizadores, iluminadores, produtores de espectáculos, alguns dos quais viriam a ser trabalhadores das empresas da área que foram surgindo no panorama nacional.
Na Festa também se aprende a ser melómano. Serão milhares os portugueses que ali, pela primeira vez nas suas vidas, tiveram a oportunidade de ser público num concerto de jazz, de ouvir ao vivo os «cantores da rádio» de que fala a canção de Chico Buarque, de dar conta de haver muito mais música do que aquela, pouca, que o «mercado» disponibiliza para a realização dos seus negócios. E serão muitos os que descobriram ali que, afinal, os preconceitos de recusa relativamente a este ou àquele género musical eram apenas a mera expressão do seu desconhecimento.
Por isso é que faz sentido o concerto de música clássica de sexta-feira, um acontecimento central do programa de actividades a justificar, só por si, a chegada de muitos visitantes ao primeiro dos dias da Festa. Como ficou já dito numa anterior edição do Avante!, «[o concerto de música erudita] é um ponto alto, momento de grande importância política, a prova de que a elitização da Cultura depende mais do contexto do que do objecto. A Festa do Avante! é o lugar em que a música erudita se vê livre dos veludos em que as classes dominantes a pretendem encerrar, para se oferecer a quem a quiser para si, ali onde a proposta cultural e a disponibilidade para a novidade é matéria mesma da “Cultura Integral do Indivíduo”. Ali onde os sons se assumem instrumento de civilização no lado justo da luta de classes, matéria de emoções e de reflexão dos muitos milhares de pessoas que vivem na Festa a dimensão cultural da democracia».
O cartaz da Festa está na rua. Há quem repita a presença, há quem ali esteja pela primeira vez e perceba ao que vai. Um dos cantores da edição deste ano revelou ao Avante! que tocar na Festa «era um objectivo» antigo da sua banda. E disse que o facto de a estreia ocorrer no ano em que se comemora o centenário da Revolução de Outubro tem um significado especial: «Independentemente de sermos ou não comunistas, qualquer amante da Humanidade, qualquer democrata, devia comemorar a Revolução de Outubro. Foi um dos acontecimentos que mudou completamente a consciência da Humanidade, e para melhor».
Na Festa que este ano comemora o Centenário da Revolução de Outubro vai haver música nos lugares todos da Atalaia, do Palco 25 de Abril aos terreiros – como no pavilhão do Alentejo em que cantores de ocasião hão-de aproveitar as sombras para dar voz ao Cante sem hora de acontecer. É que na Festa em que a felicidade é Programa, a música é ferramenta de transformação. Não há (mesmo) Festa como esta!