O desporto na Festa é mesmo um direito de todos sem excepção
ORGANIZAÇÃO 15 mil participações de atletas, técnicos e dirigentes; 30 modalidades representadas; 320 associações e colectividades envolvidas na organização; 300 colaboradores a assegurar o funcionamento das diferentes provas e demonstrações: eis alguns dos números mais expressivos do Desporto na Festa do Avante!.
A Festa dá expressão e visibilidade ao desporto popular, que se quer democratizado
No capitalismo, como se sabe, tudo é passível de ser mercantilizado e privatizado, desde que as margens de lucro esperadas sejam promissoras. Ora, o desporto é hoje uma das áreas mais expostas a esta realidade: ainda há uma semana, um só jogador de futebol foi «comprado» por 222 milhões de euros por um clube (ou, será melhor dizer, por um grupo económico), que lhe pagará vencimentos obscenos. Comissões a agentes e empresários, fundos de investimento, merchandising, direitos de imagem, publicidade – são milhões de milhões de euros que envolvem anualmente as grandes «estrelas» do desporto e todos os que à sua volta gravitam.
E depois há o outro desporto, praticamente ausente das televisões e dos jornais da especialidade, mas que movimenta milhões de pessoas e em muitos casos apenas um punhado de euros, e resiste (quando resiste...) graças ao empenhamento de técnicos e dirigentes, atletas e familiares e ao apoio de algumas autarquias. É este desporto, parte integrante e essencial da promoção da saúde, do bem-estar e do desenvolvimento pleno dos indivíduos e veículo privilegiado de paz e da compreensão entre os povos, que terá uma vez mais na Festa do Avante! uma das suas montras privilegiadas. E, infelizmente, cada vez mais rara...
Princípios e parcerias
Uma vez mais, são muitas as associações e clubes, técnicos e dirigentes associativos que se disponibilizaram para colaborar na organização de provas e demonstrações. Sem estes apoios, garante Brásio Romeiro – responsável pelo desporto na Comissão Executiva da Festa do Avante! –, não seria possível organizar uma programação desta dimensão e abrangência.
Mas a necessidade não explica tudo. No seu Programa, bem como nas autarquias em que tem uma influência determinante, o PCP defende – e esforça-se por levar à prática – a implantação de um sistema desportivo que integre as várias estruturas a ele ligadas e garanta aos desportistas as «condições de trabalho e desenvolvimento, assegure à generalidade da população condições de acesso à prática desportiva regular nos seus vários níveis e modalidades, contribuindo para o seu desenvolvimento integral e realização plena».
Já para os clubes e associações, a participação na Festa surge como uma oportunidade privilegiada de divulgar perante um público alargado as suas modalidades e atletas. O reconhecimento da importância da Festa é de tal ordem que sempre que ela se realiza no início de Setembro, como é este ano o caso, as colectividades e clubes participantes começam a época uma semana mais cedo para os atletas aí chegarem já com alguma «rodagem»...
Muito embora faltem algumas semanas para a Festa, há muito que a Comissão de Desporto vem trabalhando para garantir uma programação de qualidade nos seus três dias. Para isso é preciso, antes de mais, escolher os parceiros indicados para cada modalidade e estabelecer os respectivos contactos – que, na esmagadora maioria dos casos, obtêm respostas afirmativas. Vítor Fonseca, da Comissão, recorda que por mais do que uma vez foram os próprios clubes a oferecer-se para co-organizar um determinado torneio ou demonstração, sempre de forma voluntária e tendo como objectivos a divulgação das modalidades e a atracção de novos praticantes.
Em festa antes da Festa
Mas para além do que acontecerá no primeiro fim-de-semana de Setembro na Quinta da Atalaia, o desporto na Festa já começou. Como frisaram António Mata e Paulo Marques, do Clube Desportivo e Recreativo do Fogueteiro, o torneio de futsal infantil Avante Jovem (com três escalões) começou no final de Maio, jogando-se as finais no domingo, 3 de Setembro, à tarde: em Benjamins (10/11 anos), a final joga-se entre o Belenenses Margem Sul e o Leão Altivo; em Traquinas (8/9 anos) o vencedor decide-se entre o AD Quinta do Conde e o Amora FC; e na categoria de Petizes (6/7 anos) o jogo derradeiro opõe o Belenenses do Barreiro à Academia Sporting da Cova da Piedade.
No total, afirmam os dois dirigentes, participaram nos torneios 96 equipas dos distritos de Setúbal e Lisboa, num total de 100 jogos e mais de 1000 crianças, treinadores e árbitros envolvidos. Entre agradecimentos à Festa e à sua Comissão de Desporto, António Mata e Paulo Marques confessam que lhes dá «muito mais gozo organizar um torneio para crianças do que dez para adultos».
Ainda no futsal, mas em seniores masculinos e femininos, jogar-se-á também no Polidesportivo da Festa, sábado, os últimos jogos do torneio.
O mesmo acontece nos jogos tradicionais, quer no Chinquilho de Malha Pequena quer na Malha em Terra Batida. Do primeiro falaram Francisco Santos e Manuel Parreira, do CRSD Chinquilho Arroteense, e Joaquim Ganhão, da UDC Banheirense, sublinhando a necessidade de atrair novos praticantes e o papel que a Festa do Avante! – onde se joga as últimas jornadas de um torneio iniciado há meses – pode ter para divulgar a modalidade. Joaquim Negrita, referindo-se à Malha, falou de um jogo a crescer em todo o País e das vantagens que encerra sobretudo para os mais idosos. Também neste caso, na Atalaia jogar-se-ão as últimas jornadas de um campeonato que envolve 51 equipas masculinas e 23 femininas.
Na manhã de domingo, 27 de Agosto, tem lugar o Passeio de Cicloturismo, com partida e chegada na Quinta da Atalaia e percurso de 42 quilómetros.
Promover o desporto adaptado
Bruno Lopes, Luís Oliveira e Carlos Cunha são atletas e dirigentes da secção de desporto da federação de Lisboa da Associação Portuguesa de Deficientes (APD). Com a sua presença na Festa com equipas de basquetebol e andebol adaptados, pretendem demonstrar como o desporto é efectivamente «um direito de todos», sem excepção, e como ninguém está à partida excluído da sua prática.
Num país com índices baixíssimos de prática desportiva entre as pessoas com deficiência, os três atletas querem afirmar e divulgar o desporto adaptado na Festa do Avante! – que, a par do desfile popular do 25 de Abril, é a montra por excelência das suas modalidades. Para além dos jogos que aí terão lugar, há cadeiras de rodas disponíveis para quem quiser experimentar.
No que respeita às cadeiras, os três são unânimes em constatar que há ainda muitos preconceitos em relação à sua utilização, mesmo por parte dos que só teriam a ganhar em usá-las. «No caso do desporto, como noutros, a cadeira de rodas liberta», assumem, acrescentando haver ainda «muitos estigmas por quebrar».
Se o baixo número de praticantes adaptado é o grande problema identificado pela secção de desporto da APD, atrasos que persistem na lei constituem um obstáculo a que se dê passos mais decididos na sua resolução. Por exemplo, o facto de um médico não poder prescrever uma cadeira de rodas desportiva torna o seu preço proibitivo para a esmagadora maioria dos potenciais atletas.
Dezenas de modalidades
para ver e experimentar
A Corrida e a Caminhada, a par das galas gímnica, de danças de salão e de artes marciais, são alguns dos pontos altos da programação desportiva da Festa do Avante!. Se as galas são, para a grande maioria das pessoas, para assistir, na Corrida e na Caminhada a participação é gratuita e aberta a todos, bastando os interessados inscreverem-se até 30 de Agosto para o endereço electrónico [email protected] ou para a morada e contactos telefónicos da Festa.
Como realçou Joaquim Maia, dirigente e técnico de atletismo no Grupo Desportivo do Cavadas e responsável pela Corrida e pela Caminhada da Festa, só nestas duas iniciativas participam anualmente cerca de três mil pessoas e perto de cem colaboradores. Este ano, alerta, o início da Corrida e da Caminhada é noutro local, junto ao lago. É aí que serão também distribuídos os dorsais.
Das galas de ginástica e de danças de salão falou Cláudia Reis, da Comissão de Desporto da Festa, antecipando uma grande adesão de público na noite de sexta-feira. Até ao momento, revelou, estão inscritos 150 ginastas de sete colectividades e 15 pares de bailarinos, o que dá uma noção da grandeza das iniciativas. Para além do número de participantes, Cláudia Reis destaca o ecletismo de ambas as galas, com várias modalidades de ginástica e diversos tipos de dança, e o nível alto de muitos dos participantes, oriundos de classes de competição.
A gala de artes marciais é outro dos momentos mais aguardados da programação desportiva pelo espectáculo que proporciona e pelo elevado e crescente número de participantes e público. Este ano, vários clubes e colectividades trazem demonstrações de Yoga, Kung Fu – Dança do Leão, Jiu Jitsu, Gojoryu Karaté-Do, Jogo do Pau Português, Taek-Won-Do, Judo, Krav Maga, Kung Fu e Capoeira.
Num ringue próprio, o boxe e o kickboxe estarão também em destaque, com a realização de perto de 40 combates, masculinos e femininos. Para Miguel Godinho, presidente do Ginásio Clube de Corroios, a Festa tem contribuído para o desenvolvimento destas modalidades na região, ajudando ainda a desmontar alguma imagem negativa que pudessem ainda ter. O boxe e o kickboxe, realçou, são cada vez mais praticados por crianças, jovens e mulheres.
Os matraquilhos estarão uma vez mais presentes na Festa com dez mesas, uma das quais adaptada. Como realçou Ricardo Ferreira, presidente da Associação de Matraquilhos de Lisboa, serão disputados campeonatos com alguns dos melhores protagonistas desta modalidade e haverá ao longo dos três dias mesas para quem quiser jogar – e no ano passado foram cerca de 4000 as utilizações.
Fazem ainda parte do programa o basquetebol, o andebol, a zumba, o hóquei em patins, o roller derby, a patinagem artística, o xadrez e os desportos radicais, como a parede de escalada ou o slide, este último (situado junto ao lago) à responsabilidade da Associação de Paraquedistas de Almada e do Seixal. Cardoso Molero e Luís Moleiro, dirigentes desta associação, realçam o aumento do número de visitantes da Festa que todos os anos experimentam a modalidade. Só no ano passado foram mais de 200.
Património cultural
e beleza natural
Promovidos pela Associação Náutica do Seixal, os passeios de barco na baía do Seixal são uma oportunidade de preservar o rico património histórico e cultural ligado ao rio e aproveitar a beleza natural do estuário do Tejo. Mediante inscrição a realizar durante a Festa (junto ao lago), os visitantes poderão subir a bordo de embarcações tradicionais e dar uma volta pelo rio. Estes passeios, que terão que coincidir com a praia-mar, realizam-se no sábado entre as 12h30 e as 14h30 e no domingo entre as 13h30 e as 15h30, dois passeios em cada período.
Tiago Pina e Luís Coimbra, da associação, realçam a importância de preservar o património naval do estuário do Tejo e a memória das suas embarcações tradicionais, do varino à canoa, passando pelo catraio, que há cerca de um século asseguravam o transporte de passageiros e mercadorias entre as duas margens e eram essenciais para outras actividades económicas, como a pesca.