Uma santa aliança contra a pequena propriedade florestal*

Agostinho Lopes

FLO­RESTA Quando os in­cên­dios flo­res­tais atingem a di­mensão da tra­gédia e as ima­gens dan­tescas in­vadem os ecrãs te­le­vi­sivos, é certo e sa­bido que se mul­ti­plicam as aná­lises para iludir as res­pon­sa­bi­li­dades po­lí­tico-par­ti­dá­rias da­queles que ao longo de quatro dé­cadas con­du­ziram a flo­resta por­tu­guesa ao es­tado em que se en­contra. Ocultar as res­pon­sa­bi­li­dades de PS, PSD e CDS.

LUSA

Image 23302


Des­tacam-se (sempre) duas fór­mulas. A da ge­ne­ra­li­zação, do «todos somos cul­pados», agora re­no­vada com o pseu­dó­nimo «o Es­tado fa­lhou». E a da des­co­berta de um bode ex­pi­a­tório, que as­suma a res­pon­sa­bi­li­dade dos que assim se des­cartam dela. Nos fogos flo­res­tais são bem co­nhe­cidos: o «clima», o «in­cen­diário», e o «eu­ca­lipto» (que re­gressou em força!). Mais «ela­bo­rado» e mais mis­ti­fi­cador é o bode ex­pi­a­tório, passa-culpas, atri­buindo res­pon­sa­bi­li­dades à «pe­quena pro­pri­e­dade flo­restal». Que não tem qual­quer no­vi­dade.

Na sequência dos grandes in­cên­dios de 2003, o go­verno Bar­roso/​Portas no­meia o eng.º João So­ares para a Se­cre­taria de Es­tado das Flo­restas. Com um cur­rí­culo de com­pe­tência téc­nica ao ser­viço das ce­lu­loses, as suas in­ter­ven­ções de­finem a es­tra­tégia da di­reita. «A questão ful­cral da ac­tual flo­resta por­tu­guesa é a au­sência de uma gestão ac­tiva e pro­fis­si­onal. Sem ela, os es­paços flo­res­tais estão aban­do­nados e apenas são ob­jecto de uma ex­plo­ração “mi­neira”. Com esta si­tu­ação vem o maior risco e a maior sus­cep­ti­bi­li­dade ao fogo e nunca é pos­sível as mais va­lias as­so­ci­adas às (au­sentes) prá­ticas téc­nicas de gestão». E porque não há a tal gestão?: «(…) a gestão flo­restal exige uma área mí­nima de in­ter­venção sil­ví­cola. É por isso que im­porta ga­rantir essa área mí­nima (…)I.

Já então re­mava o PS, com o Pro­jecto de Lei 384/​IX, de que era 1.º subs­critor o de­pu­tado Ca­poulas Santos: «A es­tru­tura de pro­pri­e­dade flo­restal que a his­tória nos legou tem cons­ti­tuído e cons­titui o prin­cipal cons­tran­gi­mento à gestão ac­tiva e pro­fis­si­onal de uma parte sig­ni­fi­ca­tiva da flo­resta na­ci­onal (…) para além de re­pre­sentar um factor de­ter­mi­nante para a pro­pa­gação dos in­cên­dios.»

Estas teses foram plas­madas num Livro Branco e numa Re­so­lução do Con­selho de Mi­nis­tros, que de­cretou uma «Re­forma Es­tru­tural do Sector da Flo­resta». Com a saída do go­verno PSD/​CDS de João So­ares, a es­tra­tégia amor­ri­nhou.

Es­tra­nha­mente, estas teses são acom­pa­nhadas por F. Louçã, então líder do BE, que, em vi­sita a uma área ar­dida em Agosto de 2005, de­fendeu «uma pro­funda al­te­ração na pro­pri­e­dade da flo­resta por­tu­guesa, no prazo de 5 anos, para pre­venir a ocor­rência de in­cên­dios», acres­cen­tando: «Mas a pro­pri­e­dade é o pro­blema de raiz.»II Louçã, que re­gressou a estas ideias a pro­pó­sito de Pe­drogão, com crí­tica ace­rada a quem du­vida desse ca­minho.

O go­verno PS/​Só­crates (2005) deu con­ti­nui­dade à po­lí­tica de di­reita, mas a pre­sença na Di­recção Geral das Flo­restas de gente des­com­pro­me­tida e tec­ni­ca­mente capaz as­se­gurou, por pouco tempo, uma vi­ragem na po­lí­tica flo­restal. E após a nova ca­tás­trofe de 2005, ela­borou a Es­tra­tégia Na­ci­onal das Flo­restas (ENF), com a ins­crição de um SDFCI – Sis­tema Na­ci­onal de De­fesa da Flo­resta Contra In­cên­dios (De­creto-Lei 124/​2006). Com a saída do Di­rector Geral das Flo­restas e da sua equipa, ini­ciou-se a tra­vagem e in­versão dessa po­lí­tica flo­restal.

Re­gressou o PSD/​CDS ao go­verno e com As­sunção Cristas no Mi­nis­tério da Agri­cul­tura a es­tra­tégia do Eng.º João So­ares foi re­to­mada. A pri­meira peça foi a cri­ação da cha­mada Bolsa de Terras (Lei 62/​2012), onde, a par das ditas terras sem dono e aban­do­nadas (art.º 15.º), se in­cluíram as terras co­mu­ni­tá­rias dos bal­dios (art.º 14.º). A se­gunda foi a Lei 152/​2015 do «Pro­cesso de re­co­nhe­ci­mento da si­tu­ação de prédio rús­tico e misto sem dono co­nhe­cido que não es­teja a ser uti­li­zado para fins agrí­colas, flo­res­tais ou sil­vo­pas­toris e seu re­gisto».

Há quem aprecie as re­fe­ridas teses, pen­sa­mento de uma santa ali­ança, que vai do CDS ao BE, en­glo­bando o PSD e o PS.

De facto, elas cons­ti­tuem o cerne do Es­tudo de No­vembro de 1996, ela­bo­rado pelo BPI, Agro.Ges e Ja­akko Poyry, para a ex-Por­tucel (agora Na­vi­gator), ex-So­porcel (agora ALTRI), Sonae e CAP, onde as «in­su­fi­ci­ên­cias da pro­dução flo­restal» re­sultam de «uma in­su­fi­ci­ente ocu­pação de solos com vo­cação flo­restal; uma es­tru­tura da pro­pri­e­dade ina­de­quada (…)». Teses que ti­veram a bênção do eng.º Bel­miro de Aze­vedo, para quem o País ne­ces­si­tava de «um pro­cesso le­gis­la­tivo que ajude a con­cen­trar a pro­pri­e­dade» porque o risco de in­cên­dios é po­ten­ciado pela «ex­trema pul­ve­ri­zação da flo­resta» (18A­BR2005). Como dizia Ecle­si­astes: «Não há nada de novo de­baixo da roda do sol», ou, pelo menos, quase nada!

As peças do Pa­cote Flo­restal (Banco de Terras e Ca­dastro Sim­pli­fi­cado) e do pro­jecto do BE (Banco Pú­blico de Terras) são, assim, uma re­des­co­berta da pól­vora. E o enorme es­panto em torno da po­sição do PCP só é pos­sível por dis­tracção sobre as crí­ticas de há muito do PCP àquelas teses, ou do que disse desde que o Go­verno, em Ou­tubro de 2016, aprovou a dita Re­forma.

Per­ma­necem dois mis­té­rios. Porque vo­taram o PS e o BE, na le­gis­la­tura an­te­rior, contra as leis do PSD/​CDS/​Cristas da Bolsa de Terras e das Terras sem dono co­nhe­cido? Porque vo­taram, agora, o PSD e o CDS contra o Banco de Terras do PS e BE?

Há ra­zões para trans­formar a pe­quena pro­pri­e­dade flo­restal em bode ex­pi­a­tório dos in­cên­dios flo­res­tais?

Ca­beria di­lu­cidar as apa­rentes di­fe­renças dos seus pro­jectos.III Mas pelos seus ob­jec­tivos de­cla­rados, pese as va­ri­antes, mais ou menos ad­jec­ti­vadas («pe­quena», «sem uti­li­zação», «sem dono», «si­tu­ação de aban­dono», «au­sência de ac­ti­vi­dade») são todas fór­mulas se­me­lhantes para jus­ti­ficar a ex­pro­pri­ação da pe­quena e média pro­pri­e­dade flo­restal com a força co­er­civa do Es­tado e pro­mover a con­cen­tração fun­diária na busca da di­mensão óp­tima para a tal gestão ac­tiva e pro­fis­si­onal. João So­ares foi bas­tante mais claro: «é pre­ciso ter a co­ragem de ad­mitir que muitos dos ac­tuais pro­pri­e­tá­rios flo­res­tais terão de ab­dicar de sê-lo ou, no mí­nimo, terão de passar a ter­ceiros a gestão dos seus es­paços sil­ví­colas.»

Aquelas teses não têm qual­quer base ci­en­tí­fica ou mesmo es­tudo em­pí­rico que as su­porte. O pres­su­posto de que a causa dos in­cên­dios está na es­tru­tura da pro­pri­e­dade, o mi­ni­fúndio, e nas ditas terras sem dono co­nhe­cido, ou nas terras ditas aban­do­nadas, é uma «te­oria» que nin­guém provou. Ha­vendo mi­lhares de in­cên­dios, co­nhe­cendo-se onde co­meçam e como pro­gridem, não há ne­nhum re­la­tório que aponte nesse sen­tido. Pro­cure-se essa con­clusão no úl­timo re­la­tório apro­vado por una­ni­mi­dade na As­sem­bleia da Re­pú­blica sobre os in­cên­dios de 2012. Ou nos três an­te­ri­ores re­la­tó­rios da As­sem­bleia da Re­pú­blica. Ou na ENF!

A prova do al­godão. Em 2003, ar­deram ex­tensas áreas de sobro na área da grande pro­pri­e­dade alen­te­jana e ri­ba­te­jana. Ar­deram nesse ano 20/​25 por cento do Pi­nhal de Leiria e pos­te­ri­or­mente quase 100 por cento da Mata Pú­blica de Vale de Canas! Em 2006, até áreas ge­ridas pelas ce­lu­loses ar­deram – caso de 5000 hec­tares na Serra d' Ossa/ Évora da ex-Por­tucel! Ardem com uma re­gu­la­ri­dade afli­tiva ex­tensas su­per­fí­cies das Áreas Pro­te­gidas, in­clu­sive re­servas bi­o­ló­gicas, no PNPG, Mon­te­sinho, Serra da Es­trela, etc. São áreas de pe­quenos pro­pri­e­tá­rios? Aban­do­nadas? Há al­guns, mas são quase sempre áreas bal­dias, e com a es­pe­cial tu­tela do Es­tado.

Mas a prova mais elu­ci­da­tiva – ver­da­deira con­tra­prova – é a his­tória do que su­cedeu com as áreas bal­dias. São 500 mil hec­tares no Norte e Centro em que, apesar da di­mensão – em média 400 hec­tares –, foram su­ces­si­va­mente per­cor­ridos por in­cên­dios. Se havia área porque ar­deram? Re­giste-se que a ge­ne­ra­li­dade dos bal­dios tem hoje planos de gestão flo­restal/​planos de uti­li­zação do baldio (PUB). E ques­tiona-se: porquê os ser­viços ofi­ciais anu­laram um ins­tru­mento de gestão da ENF? E sempre ne­garam aos Bal­dios os fundos co­mu­ni­tá­rios? E sempre obs­ta­cu­li­zaram a cons­ti­tuição de grupos de bal­dios?

E nin­guém de­mons­trou até hoje que os in­cên­dios nessas grandes áreas re­sul­taram da «con­ta­mi­nação» por in­cên­dios ini­ci­ados na pe­quena pro­pri­e­dade flo­restal!

Acresce que mesmo a ge­ne­ra­li­zação ma­xi­ma­lista da tese do «aban­dono da flo­resta» le­vanta fun­dadas dú­vidas, como re­sulta do Livro Os Pro­pri­e­tá­rios Flo­res­tais de F. Oli­veira Bap­tista e R. Santos Terra (Celta Edi­tora, 2005.IV

Por que não há gestão ac­tiva da flo­resta nem fun­ciona o mer­cado fun­diário flo­restal?

O motor de uma gestão ac­tiva da flo­resta, numa eco­nomia ca­pi­ta­lista, está na ren­ta­bi­li­zação eco­nó­mica da pro­dução flo­restal. E, não sendo des­pi­ci­endas ou­tras re­ceitas, é a pro­dução le­nhosa o factor-chave para uma efec­tiva ren­ta­bi­li­dade da flo­resta. O que não pode deixar de sig­ni­ficar a co­mer­ci­a­li­zação a preço re­mu­ne­rador da ma­deira.

Ora, o mer­cado dos prin­ci­pais pro­dutos flo­res­tais são do­mi­nados/ mo­no­po­li­zados pelos oli­go­pó­lios das ce­lu­loses/​pasta de papel, dos aglo­me­rados e da trans­for­mação da cor­tiça. O que tem pro­vo­cado uma de­gra­dação per­ma­nente e ge­ne­ra­li­zada dos preços dos pro­dutos le­nhosos e é um factor de­ci­sivo para a não ren­ta­bi­li­dade, e logo aban­dono, da pro­pri­e­dade flo­restal. Onde está esta questão nos longos preâm­bulos das pro­postas le­gis­la­tivas dos pro­mo­tores de bancos e bolsas de terras?

Quando se in­voca a ne­ces­si­dade de agre­gação de par­celas, con­cen­tração da pro­pri­e­dade fun­diária, con­du­zindo a ges­tões pro­fis­si­o­nais e a mai­ores pro­du­ti­vi­dades fí­sicas, cai-se num evi­dente cír­culo vi­cioso, que serve aos que já hoje ga­nham com a si­tu­ação. Os preços são baixos porque a pro­du­ti­vi­dade é fraca; a pro­du­ti­vi­dade é fraca porque os preços são baixos, não in­cen­ti­vando ao agru­pa­mento das áreas. Como re­fere Pe­reira dos Santos (Pú­blico, 19­JUL17), «o Go­verno re­solveu in­ventar um pro­blema de pro­pri­e­dade, como se não fosse a falta de com­pe­ti­ti­vi­dade que conduz à au­sência de dono, e não a in­versa».

Há um mer­cado de pro­dução le­nhosa? Não. Há um si­mu­lacro de «mer­cado» com­ple­ta­mente dis­tor­cido e sem qual­quer trans­pa­rência na for­mação do preço por po­si­ções oli­go­po­listas, au­sência de ex­por­tação, e falta de in­for­mação dos pe­quenos pro­du­tores flo­res­tais.

O «mer­cado flo­restal» re­clama do Es­tado uma ampla e mus­cu­lada in­ter­venção. Com a lu­cidez de que tal não re­sol­verá muitos dos pro­blemas da flo­resta, pelo menos a tempo de res­ponder aos ne­ces­sá­rios or­de­na­mento e pre­venção. Mas um mer­cado de pro­dução le­nhosa a fun­ci­onar com trans­pa­rência e in­for­mação, as­se­gu­rando à pro­dução preços re­mu­ne­ra­dores, é uma questão es­sen­cial.

Não há um pro­blema com a es­tru­tura e o aban­dono da flo­resta?

Há. E tem res­postas há muito de­li­ne­adas. É o de­sen­vol­vi­mento do as­so­ci­a­ti­vismo vo­lun­tário e a par­ti­ci­pação dos pro­pri­e­tá­rios e pro­du­tores flo­res­tais e me­didas para as­se­gurar a ren­ta­bi­li­dade à pro­dução agro-flo­restal: na pro­dução le­nhosa (no­me­a­da­mente na atenção ao preço da ma­deira), na pro­dução pe­cuária e na sus­ten­ta­bi­li­dade da ex­plo­ração agrí­cola fa­mi­liar. É a mul­ti­pli­cação e re­forço da ac­ti­vi­dade das as­so­ci­a­ções flo­res­tais nas suas di­versas formas: Zonas de In­ter­venção Flo­restal/​ZIF, co­o­pe­ra­tivas flo­res­tais, grupos de bal­dios e ou­tras.

Res­postas que devem pos­suir fle­xi­bi­li­dade para res­ponder à di­ver­si­dade da pro­pri­e­dade flo­restal. Como re­ferem Oli­veira Bap­tista e Santos Terra, no livro ci­tado (o único com uma aná­lise apro­fun­dada dessa di­ver­si­dade), devem res­ponder às vá­rias «ló­gicas eco­nó­micas dos pro­pri­e­tá­rios pri­vados da flo­resta por­tu­guesa».V

Van­ta­gens do bode ex­pi­a­tório «pe­quena pro­pri­e­dade flo­restal»

Sempre que a co­moção co­lec­tiva per­corre o País, como su­cedeu com a tra­gédia de Pe­drogão, des­res­pon­sa­bi­liza-se a po­lí­tica agro-flo­restal de su­ces­sivos go­vernos e apaga-se a causa prin­cipal das tra­gé­dias! Sempre que os fogos matam gente é ga­ran­tido que há nova le­gis­lação. Não custa di­nheiro, é só pu­blicar no Diário da Re­pú­blica.

Apro­vei­tando a dis­po­ni­bi­li­dade da opi­nião pú­blica por­tu­guesa emo­ci­o­nada, in­dig­nada, re­cla­mando me­didas que po­nham fim às su­ces­sivas tra­gé­dias, julga-se asado o mo­mento, e a dita es­tra­tégia, mais ou menos re­to­cada, res­surge em força. Aí está mais uma vez! Com evi­dente uti­li­dade.

O bode ex­pi­a­tório ab­solve os go­vernos e as po­lí­ticas res­pon­sá­veis pelo «aban­dono» da flo­resta (e da terra agrí­cola fa­mi­liar). Ab­solve os que não cum­priram nem fi­zeram aplicar, por falta de do­ta­ções or­ça­men­tais e re­cursos hu­manos na flo­resta, o pro­grama de or­de­na­mento e pre­venção da ENF e do SNDFCI.

Aquelas teses li­bertam os go­vernos de ini­ci­arem um ca­minho di­fícil, mo­roso, du­rante anos sem vi­si­bi­li­dade, com ele­vados custos or­ça­men­tais, sem res­ponder mesmo du­rante o curto e o médio prazo aos riscos de in­cêndio. Um ca­minho bem co­nhe­cido de es­pe­ci­a­listas e téc­nicos, de aca­dé­micos e pro­fis­si­o­nais da flo­resta, de as­so­ci­a­ções e ou­tras or­ga­ni­za­ções da flo­resta. O or­de­na­mento e a pre­venção, que ne­nhuma pe­quena pro­pri­e­dade im­pede.

* Este ar­tigo, apesar de so­li­ci­tado, acabou por não ser pu­bli­cado pelo jornal Le Monde Di­plo­ma­tique a pre­texto de «ra­zões de es­tilo».

I Ex­presso, 18 de Ou­tubro de 2003.

IIAgro­no­tí­cias (AGRO­PORTAL), 10 de Agosto de 2005.

III As­si­nale-se que o BE é quem vai mais longe, e mais «li­geiro» na de­fi­nição dos cri­té­rios para iden­ti­fi­cação de «terras aban­do­nadas», que com dono ou sem dono co­nhe­cido ficam su­jeitas a «ar­ren­da­mento com­pul­sivo» para «in­te­gração no Banco de Terras» (art.º 9.lº). A ad­mis­si­bi­li­dade de con­si­derar terra flo­restal em «si­tu­ação de aban­dono», pela «ob­ser­vância» de mais de 3 anos sem «ac­ti­vi­dade (…) flo­restal», le­varia a clas­si­ficar como tal grande parte da flo­resta do Norte e Centro do País! Como a ro­tação é su­pe­rior ou muito su­pe­rior a 3 anos, basta que a «ob­ser­vância» se faça, entre o plantio/​se­men­teira e o corte do eu­ca­lipto/​pi­nheiro! É só ig­no­rância?

IVCi­tando o Livro, pá­ginas 77/​78: «Con­ju­gando agora os perfis dos tipos de pro­pri­e­tá­rios flo­res­tais pri­vados com o seu peso re­la­tivo, em n.º e área, no pa­no­rama flo­restal do Con­ti­nente, ve­ri­fica-se que as si­tu­a­ções de matas não cui­dadas (onde não se faz qual­quer in­ter­venção pro­du­tiva), li­mitam-se a 12% da área flo­restal, em­bora abranjam quatro dé­cimos dos pro­pri­e­tá­rios.» E, acres­centa-se, os res­tantes 61% da área, «todos os pro­pri­e­tá­rios fi­zeram pelo menos uma in­ter­venção pro­du­tiva, e no con­junto (…) 86% re­a­li­zaram a lim­peza de mato».

VCi­tando um texto de Oli­veira Bap­tista e Santos Terra (Os pro­pri­e­tá­rios Flo­res­tais): «Per­ceber e aceitar a di­ver­si­dade dos cri­té­rios e ob­jec­tivos dos pro­pri­e­tá­rios flo­res­tais é um pri­meiro e in­dis­pen­sável passo para chegar a op­ções téc­nica e po­lí­ticas ade­quadas e con­cre­ti­zá­veis. Não há uma flo­resta se­pa­rada dos seus pro­pri­e­tá­rios e não pode ig­norar a di­ver­si­dade de ló­gicas de gestão com que estes ac­tuam. Qual­quer so­lução tem de con­ci­liar o saber téc­nico e as tec­no­lo­gias dis­po­ní­veis com a ló­gica de gestão dos pro­pri­e­tá­rios. Fora desta con­ci­li­ação ha­verá apenas mo­delos téc­nicos de­sen­rai­zados da re­a­li­dade da flo­resta, es­tejam ou não tra­du­zidos em ar­ti­cu­lados le­gais e op­ções po­lí­ticas mais ou menos im­pe­ra­tivas. Mas, a este pro­pó­sito, nunca é de mais re­cordar que a flo­resta é de­ma­siado vul­ne­rável para su­portar im­po­si­ções do ex­te­rior.»