Negócio das armas responsabiliza países europeus pela manutenção de conflitos e crise dos refugiados
Um relatório do Centro de Estudos pela Paz J.M. Delàs, sedeado em Barcelona, vem mostrar que um terço das exportações de armas dos estados-membros da União Europeia se destinou a países em conflito permanente nos últimos 12 anos.
O estudo, publicado em Junho e divulgado pelo jornal electrónico espanhol Publico.es, na edição de dia 25, conclui que a venda de armamento e material militar a países em conflito tem algum tipo de relação, directa ou pelo menos indirecta, com o aumento dos fluxos migratórios para zonas mais seguras, nomeadamente para o espaço da União Europeia.
Os investigadores, coordenados por Jordi Calvo, apuraram que os países-membros da União Europeia exportaram armamento e material militar no valor de 37 mil milhões de euros, entre 2003 e 2014, para 63 países em situação de tensão ou de conflito armado.
O relatório identifica 89 países que, entre 2003 e 2014, apresentaram números significativos de refugiados e deslocados. Desses, 65 estiveram em conflito armado ou em situação de tensão durante os 12 anos do período estudado, gerando 88 por cento dos refugiados de todo o mundo, ou seja mais de 30,8 milhões de pessoas que procuram um local seguro para viver.
Nesse período, os estados-membros da UE venderam armas e equipamentos militares a 63 desses 65 países. Mais exactamente, 31 por cento das exportações de armas efectivamente realizadas por países da UE foram para esse conjunto de países.
Deve-se ainda considerar que, no mesmo período, foram autorizadas exportações de material bélico para os 63 países em causa, no valor de 122 mil milhões de euros (ou seja, 29 por cento de todas as exportações autorizadas).
Os negociantes europeus de armas, com o beneplácito das autoridades, não hesitam em enviar os seus fornecimentos para países dilacerados por conflitos armados. O estudo aponta 30 países compradores de armas à UE que vivem nessa situação, dos quais se destacam a Líbia, o Iémen, a Síria, o Mali, o Burundi, a Turquia, o Paquistão, a Etiópia ou a República Centro Africana.
Para o coordenador do trabalho, Jordi Calvo, «a existência de refugiados e deslocados de um local determinado é um indicador claro de que a situação de segurança no seu país ou região de origem é deficiente. Este é um dos critérios segundo o qual um Estado deveria recusar a autorização de exportação de armamento».
Calvo assinala ainda que «enquanto continuarem os conflitos nas suas terras, os refugiados não têm outra alternativa. E estes conflitos, em parte, persistem porque são alimentados a partir da Europa com armas que acabam em países como a Síria ou o Iémen. A relação da Europa com estas zonas em conflito não se limita às políticas de “asilo”, nem começa quando os refugiados chegam Às suas costas. Começa quando nas instituições e empresas se decide investir no negócio da guerra», critica o estudo.