Museu da Resistência em Peniche é um projecto com futuro
ENTREVISTA José Pedro Soares, o primeiro subscritor da petição «Forte de Peniche – em defesa da memória, resistência e luta», afirmou em declarações ao Avante! que a acção dos democratas e antifascistas obrigou o Governo a recuar na intenção de privatizar aquele símbolo da repressão e da luta contra o fascismo.
«Naquela prisão fascista viveram-se sofrimentos muito grandes»
O Governo decidiu realizar a reunião de hoje, 27 de Abril, do Conselho de Ministros no Forte de Peniche, indicando ser uma forma de assinalar a libertação dos últimos presos políticos daquela prisão fascista. Na tua qualidade de ex-preso político, como avalias esta decisão?
Esta decisão vem no seguimento de uma movimentação popular, de muitos ex-presos políticos, familiares e amigos que reagiram a uma intenção do Governo de conceder, parte ou totalmente, a Fortaleza de Peniche a privados.
Depois da reacção, o Governo e o ministro da Cultura inverteram a sua opinião. A partir daí foram tomadas decisões importantes, nomeadamente a calendarização do estudo da Fortaleza para a recuperação das obras imediatas que é necessário fazer; foi criado um Conselho Consultivo, para o qual eu fui chamado a participar, que entregou ao Governo um conjunto de recomendações importantes que visam, no fundamental, defender e preservar toda a Fortaleza de Peniche, o seu edificado, como património vivo de uma história que os portugueses têm muito dentro de si.
Naquela prisão fascista, durante 40 anos, viveram-se sofrimentos muito grandes. Muitos companheiros passaram ali parte das suas vidas e os comunistas, maioritários, sempre se empenharam na convergência e na unidade para que dentro e fora daquelas paredes se desenvolvessem acções por melhores condições e, também, para elevar a consciência para a necessidade da continuação da luta para o derrubamento do fascismo.
É sabido que nesse dia os pescadores não foram à pesca e que o largo se encheu de gente para saudar os presos; sabe-se também, como ainda recentemente recordou Machado dos Santos, um dos militares do 25 de Abril que tomaram o Forte, que a decisão de libertar os presos enfrentou resistências. Como viveste esse dia?
A libertação dos presos e a abertura das cadeias foi um marco muito importante na Revolução dos Cravos. Aliás, fazia parte do programa do Movimento das Forças Armadas e era uma grande aspiração dos portugueses.
No dia 25 de Abril, contrariando as ordens do [general António de] Spínola, um comando vindo de Viseu, composto por jovens militares defensores dos valores da liberdade e da democracia, cercou o Forte para defender os presos e evitar um banho de sangue. Mais tarde, no dia 26, chegou um comando de Lisboa, chefiado por Machado dos Santos, saído da Junta de Salvação Nacional, com a incumbência de libertar os presos. Nós só saímos na noite de dia 27.
Todos nós, durante os dias e as noites que passámos na cadeia, sabíamos que um dia aquilo iria acontecer. Mas não sabíamos a dimensão.
Quando abriram as portas, lá fora as pessoas cantavam canções revolucionárias, aplaudiam-nos e davam vivas à liberdade. Compreendemos que o 25 de Abril foi um processo com uma dimensão popular muito grande, enraizado e que iria marcar profundamente Portugal. É uma data maior na História de Portugal.
Mais de quatro décadas passadas, como se explica que nenhum governo tenha feito os investimentos necessários para dar resposta à justa aspiração popular de recuperação, requalificação e valorização da Fortaleza de Peniche enquanto Memorial da luta contra o fascismo?
No fulgor das movimentações do 25 de Abril, o I Governo Constitucional decidiu, em 1976, a criação do Museu da Resistência em Peniche. Depois, entrámos num processo em que as forças de direita se juntaram e a Revolução passou a enfrentar uma ofensiva muito grande e as suas conquistas também. Os últimos cinco anos, antes desde Governo, foram o expoente máximo. Se eles [PSD/CDS-PP] pudessem, tinham privatizado tudo, até o ar que respiramos.
Também o actual Executivo PS avançou precipitadamente, porque queria incluir o Forte de Peniche num conjunto de outros imóveis para concessionar a privados, no âmbito do programa Revive. Ali, como toda a gente sabe, onde não existe nenhum palácio, nenhum convento antigo, para transformar a fortaleza em residência de luxo.
Qual o papel da Câmara de Peniche, nos últimos três mandatos da CDU, visando a transformação do Forte num museu? A autarquia estima em 5,5 milhões de euros as intervenções consideradas urgentes. Como se chegou até aqui?
Nós valorizamos o papel da autarquia neste processo, que, nos últimos 15 anos, fez melhorias, tratou de algumas coisas, acompanhou iniciativas importantes que lá se realizaram, nomeadamente para assinalar a fuga e a libertação de presos políticos. Mas sabemos que a Câmara Municipal não tem dinheiro para as obras que são necessárias.
Com o recuo do Governo, na autarquia, exceptuando o PSD, todos estão de acordo com uma solução que preserve a memória histórica da Fortaleza de Peniche, com 400 anos de história. Mas é a memória recente, do que foi aquela prisão fascista, que mais importa salvaguardar.
No dia 7 de Abril, na Assembleia da República, foram aprovados os projectos de resolução do PCP, PS e BE, com a abstenção do PSD e CDS-PP, que recomendavam ao Governo a preservação da memória histórica e a requalificação do Forte de Peniche. Nestes documentos, que ideias convergem e/ou divergem?
Nem todos são iguais, alguns são um pouco genéricos. No fundamental, há uma sensibilidade que perpassa todos, que é, de facto, a luta da resistência, um elemento importante a preservar, tal como o edificado do Forte de Peniche, para garantir às futuras gerações a possibilidade de conhecerem o que se passou nesses tempos de ditadura fascista.
No processo de mobilização e luta dos democratas e antifascistas, integra-se o abaixo-assinado «Forte de Peniche – em defesa da memória, resistência e luta», entregue e discutido na Assembleia da República. Sendo que foste o primeiro dos 9640 peticionários, que sentimentos achas que mobilizaram tantas assinaturas?
As pessoas sentiram que a resistência antifascista é património nacional, do povo, e tem uma envolvência para além da luta reivindicativa. Em Moçambique, Cabo Verde e noutros locais foram preservadas as memórias da resistência. Esta é uma lição muito recente do que aconteceu em Portugal.
Concretamente, o que defende para o Forte de Peniche? O que poderá ser um «verdadeiro museu da resistência», como tantas vezes já foi dito e defendido?
Para aquele local queremos um museu da resistência, com o parlatório [local de visita aos reclusos] e os três pavilhões. Tem de se contar a história da segregação, do regime prisional, a violência que era estar ali naquelas celas, isolados, durante tantos anos. Tudo isto tem uma carga simbólica.
Quando se fala em 2500 presos, fala-se, também, em milhares de mulheres, milhares de filhos, milhares de pais. Numa reunião, deram-me a conhecer a história de uma alentejana que vendeu parte da mobília para poder ir a Peniche. Quando lá chegou os presos estavam de castigo e não houve visitas. Isto representa um drama muito grande.
Para além da preservação da história da própria Fortaleza, é importante a ligação da população àquele equipamento. Nesse sentido, o património cultural de Peniche deve ali estar. Necessário é também um pavilhão multiusos, que acolha, entre outras iniciativas, exposições temporárias, ciclos de música e teatro. Não pode ser uma coisa fechada. Tem de ser um projecto moderno e atractivo, que se prolongue.
Que mensagem dirigem a todos aqueles que ainda não estão mobilizados para esta causa?
Esta é uma causa que não é de um cidadão ou de dois, e não é só dos que resistiram e lutaram. É uma causa da luta do povo português, muito associada ao 25 de Abril e a tudo aquilo que conseguimos, a libertação dos presos políticos, o fim das guerras coloniais, o fim da censura, a conquista da liberdade. Direitos e conquistas que têm por detrás de si essa luta do povo ao longo de décadas. A luta da resistência antifascista ajudou muito na consciencialização dos portugueses para derrotar o fascismo e enveredar por um caminho de luta pela liberdade e pela democracia. Sabemos que, mais tarde ou mais cedo, é com o socialismo que a verdadeira democracia se irá realizar.