O pretexto
Na passada segunda-feira, logo pela manhãzinha, a televisão trouxe-nos imagens de manifestações havidas durante o fim-de-semana em dois lugares do mundo bem distantes entre si, na Rússia e no Brasil, mas com idêntica motivação, o protesto contra a corrupção alegadamente instalada no topo das respectivas sociedades. Não é nada de espantar. Quanto à Rússia, bem se sabe que o capitalismo voltou a instalar-se por lá e que a corrupção é natural num modelo de sociedade em que a obtenção do ganho privado, venha ele como vier, é o objectivo supremo. Aliás, já na Grécia e na Roma antigas, ladrões e comerciantes tinham o patrocínio do mesmo deus, Hermes ou Mercúrio respectivamente, e não decerto por acaso. Quanto ao Brasil, é público e notório que o poder foi assaltado por serventuários do grande capital, devendo contudo salientar-se que nas imagens que pudemos ver o alvo da suposta indignação popular era o ex-presidente Lula da Silva, não os que já implementaram medidas para reforçar a exploração do povo brasileiro em todas as frentes. O aparente paradoxo tem uma explicação que convém recordar: os grandes meios de comunicação social, com relevo para a TV, estão no Brasil nas mãos do grande capital que há muito se serve deles como arma de guerra ideológica, o que não surpreende pois é para isso mesmo que os detém.
Uma falsa auréola
Chegaram, pois, telenotícias de manifestações populares contra a corrupção, e é claro que esses sobressaltos dos cidadãos são acontecimentos em princípio justificados. Ainda assim, porém, convirá encarar estas informações com alguma precaução, não apenas porque os mass media internacionais são um enorme bicho cujas supostas sete cabeças, se tantas tiver, funcionam no sentido de nos convencerem do que lhes convém, mas também porque alguma reflexão sobre a nossa própria experiência pode conduzir-nos a algum interessante patamar de reflexão. Uma recapitulação sumária dos golpes de estado de direita quase sempre fascista ou fascizante havidos ao longo de décadas em diferentes lugares do mundo levar-nos-á a notar que em muitos deles o proclamado objectivo de «acabar com a corrupção» funcionou como pretexto central. Em verdade, a intenção de erradicá-la, à então denunciada corrupção, surge como elemento inocentador do derrube de estruturas porventura democráticas, não raramente introdutor de medidas violadoras de direitos humanos, sempre ou quase sempre de instalação de barreiras destinadas a travar o avanço de forças de esquerda. Ao proclamar a intenção de «acabar com a corrupção», ela, a direita, tenta coroar-se com uma auréola de virtude que lhe suscite aprovações e, eventualmente, o perdão dos crimes que se proponha cometer se tanto lhe convier. De onde a conveniência de encarar estas manifestações contra a suposta corrupção de algum modo personificada por Putin na Rússia, por Lula no Brasil, por qualquer outra figura noutro lugar, com a prudência decorrente de lições que convirá não esquecer. Afinal, a memória é também uma arma dos povos. E seria errado, naturalmente, que os povos não usassem todas as armas que têm.