O PCP defende a integração dos doutorados na carreira de Investigação Científica, findo os prazos contratuais previstos como limite máximo.
Esta foi uma das propostas da bancada comunista que deu entrada na mesa da AR e que baixou à comissão de Educação e Ciência (acompanhada por propostas do PS, PS e CDS-PP), dia 18, na sequência da apreciação parlamentar suscitada por si ao diploma do Governo sobre o regime de contratação de doutorados.
Este decreto-lei, em vigor desde Setembro, com o qual o Governo diz querer substituir progressivamente as bolsas de pós-doutoramento, prevê a contratação a termo de investigadores doutorados, mas não a sua integração na carreira de investigação científica.
É isso que o PCP contesta por considerar que não é aceitável que o caminho para corrigir uma situação «errada e injusta» – assim a classificou a deputada comunista Ana Mesquita, aludindo à barreira erguida aos bolseiros no acesso à carreira de investigação científica – seja o de passar de um «regime altamente precário de bolsas para uma sucessão de contratos precários, sem um claro fim à vista».
«Isto não pode ser assim», sublinhou a parlamentar do PCP, depois de lembrar que sucessivos governos trataram os bolseiros de investigação científica como «mão-de-obra barata e precária, altamente qualificada», a quem durante anos a fio têm sido roubados «direitos fundamentais no trabalho e na vida».
Ana Mesquita não escondeu a sua indignação por esta situação e, contundente, disse que «é de exploração que falamos». E no caso dos bolseiros doutorados, especificou, de uma «exploração requintada de pessoas que dedicam anos, décadas da sua vida para obter um grau de doutoramento, que seguem para pós-doutoramento, que o alcançam e ainda ficam sujeitas a dar o seu contributo ao Sistema Científico e Tecnológico Nacional através de uma bolsa».
Acesso à carreira
Por entender que não faz sentido construir uma espécie de regime ou carreira paralela – até pela razão simples de que muitos aspectos abrangidos pelo decreto-lei em apreço já encontram «resposta ou referência no Estatuto da Carreira de Investigação Científica» –, o PCP advoga ainda que em termos remuneratórios seja feita a remissão para esse Estatuto da Carreira, «garantindo que não há qualquer perda de rendimento líquido mensal».
No debate, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, asseverou que o «acesso às carreiras» é o objectivo fundamental do diploma, e que se trata de um «regime transitório». Considerou, porém, havendo «dúvidas», que estas devem ser «clarificadas», mostrando-se aberto a esse debate.
«Mais do que clarificar a aplicação do texto actual o que era preciso mesmo era pôr na lei, claro como água, o que lá não está», contrapôs Ana Mesquita, dando como exemplo o acesso à carreira. «Se este é um objectivo claro do diploma, então há que pôr isso de forma explícita na lei», desafiou.
À referência feita de que o diploma tem em conta o quadro internacional respondeu também a deputada do PCP, lembrando que nesse quadro internacional também há vários casos de estabilidade na contratação de doutorados.
Já sobre a posição assumida neste debate pelas bancadas à direita do hemiciclo – Nilza de Sena (PSD), por exemplo, veio acusar o ministro da Ciência de «querer uma política de baixos salários para os investigadores» –, Ana Mesquita registou com ironia o «súbito interesse» de ambos por esta matéria, chamando a atenção para a diferença de posicionamento entre o momento actual e o que foi o ataque protagonizado pelo governo anterior à ciência e ao Ensino Superior. Convidou por isso as bancadas do PSD e do CDS a darem o seu apoio à melhoria das condições de vida, de trabalho e rendimentos destes doutorados. «Venham para o lado de cá, que nós nunca saímos daqui, contrariamente a outros», instou.