Tragédia, tragédias
O «Prós e Contras» da passada segunda-feira teve Almaraz como tema, isto é, a construção de um «cemitério» para lixo nuclear com eventual risco consequente para populações espanholas e portuguesas. Não será excessivo dizer que o debate havido teve como cenário possível, embora se deseje que pouco provável, a ocorrência de uma tragédia que faria vítimas de ambos os lados da fronteira, mas o decurso da conversa teria de ser caracterizado por um elevado grau de consensualidade. Entretanto, uns dias antes, quando do falecimento de Mário Soares, surgiram no meio das muitas intervenções havidas, em tom acusatório e por mais de uma vez, claras referências ao que foi designado por «a tragédia da descolonização». Não é, de modo nenhum, um tema novo na sociedade portuguesa, e portanto na televisão, mas a sua ainda frequente abordagem recupera o que bem pode entender-se como uma ferida que, por mal cuidada, continua aberta e ainda a sangrar. Por isso talvez se justifique e seja tendencialmente útil voltar a ela com o objectivo decerto quixotesco e tosco de contribuir para a eliminação de equívocos e de omissões que são como que factores infecciosos que obstam à cicatrização.
Uma outra tragédia
É claro que ninguém desconhece o que de mais pungente está por dentro da fórmula «tragédia da descolonização»: milhares de portugueses que se viram obrigados a retirarem-se apressadamente do território angolano desse modo perdendo bens e perspectivas de futuro, anos de trabalho e de esperanças. É certo que foram acolhidos em Portugal nas melhores condições então possíveis, de tal modo que essa sua integração foi concluída em relativamente pouco tempo e que a influência sociopolítica desses cidadãos portugueses teve uma dimensão que mereceria estudo sobretudo quanto a certos sectores, entre os quais avultará o da comunicação social. Esse facto não invalida, contudo, que se justifique a utilização da palavra «tragédia» para designar a amálgama de gigantesca decepção, desespero, angústia, que para além das perdas materiais se apossou dos que se viram obrigados a retirarem-se de um território que se tinham habituado a considerar seu porque essa falsa legitimidade lhes havia sido incutida ao longo de décadas. A verdade, amarga e arrasadora, é que Angola não era «nossa», como repetia o estribilho militar, apenas porque alguns portugueses a ela tinham aportado uns quinhentos anos antes e ali tinham tentado construir uma existência bem mais desafogada do que a que viviam na então chamada metrópole. Bem mais longo que isso foi o domínio muçulmano na metade Sul da Península Ibérica, coisa para setecentos anos bem medidos entre o desembarque de Tarik (711) e a reconquista de Granada (1480), e nem por isso os actuais espanhóis reconhecem que o Sul da Espanha deve ser entregue a gente do Norte de África. Falta falar, porém, da outra enorme tragédia que tem tudo a ver com Angola e que continua a ser geralmente omitida entre nós: a situação de efectiva escravatura a que foram submetidos milhões de angolanos ao longo de cinco séculos, a exploração efectiva e quase sempre brutal de uma população indefesa, os espancamentos como método generalizado de imposição da «disciplina», a violação de mulheres como prática generalizadamente admitida, a mão-de-obra praticamente gratuita sobre a qual forem construídas algumas enormes fortunas, decerto muito mais que aqui não cabe. É a consideração de todos estes factos que devia ser feita antes que alguém se lembrasse de brandir a expressão «tragédia da descolonização» contra a devolução da independência ao povo angolano. Por todas as razões já invocadas e sobretudo por uma outra que a todas sobreleva, porque a independência de Angola era para Portugal uma questão de honra: a guerra colonial desonrava o nosso País aos olhos do mundo e também perante a consciência nacional. Que alguns portugueses ainda não reconheçam esse factor fundamental talvez seja, ainda que discreta e esquecida, uma outra tragédia.