Ainda os comandos

Rui Fernandes

Muito se tem escrito e dito a propósito dos infelizes acontecimentos ocorridos na instrução do 127.º curso de comandos.

Trata-se de uma prática generalizada, esta que «julga e pune» ou «absolve e louva» à velocidade da luz. Uma prática sempre justificada em nome de um qualquer interesse (a paleta tem muitos interesses). O caso de Arouca é, deste ponto de vista, bastante ilustrativo: horas e horas de debates, palpites, percepções, análises, intuições, perigos, avistamentos, tácticas e técnicas, ditas e desditas.

No caso em apreço, pela gravidade do ocorrido, e como o PCP afirmou desde o primeiro instante, tudo tem de ser devidamente apurado e as consequências retiradas. Aliás, se tal aconteceu em casos de bem menor gravidade, não restam dúvidas de que isso acontecerá, por maioria de razão, neste caso. Até porque não há nada que justifique o ocorrido. Não se tratou de um disparo acidental, de uma viatura que se despistou ou outro acontecimento deste tipo. Neste caso houve pessoas que foram, digamos assim, levadas ao extremo do esgotamento e, para aí terem chegado, houve um caminho de sinais ignorados. Alguém ignorou! E houve, por certo, desrespeito por regras estabelecidas em matéria de segurança, porque é evidente que ninguém acredita que essas regras não existam e tudo fique ao critério e ao bom-senso (ou falta dele) de quem dá a instrução, sendo certo que há aspectos que inevitavelmente se situam no domínio do bom-senso, até porque cada instruendo reage de forma diferente à adversidade, o que requer intervenções concretas perante a situação concreta.

O lema do Regimento «A Sorte Protege os Audazes» não vingou. É tudo isso que está a ser devidamente apurado para, em conformidade, serem retiradas as devidas ilações e respectivas consequências. Um processo que requer tudo quanto a meios e acções para o apuramento, mas dispensa tudo o que tenha a ver com show mediático, seja de quem for. E requer também, e muito, que não se confunda «alhos com bugalhos», como diz a expressão popular. Que não se confunda «Os Comandos» com alguns militares comando; que não se confunda as «Forças Armadas» com alguns militares das Forças Armadas. Porque há desde logo uma linear evidência: ninguém que tivesse sido comando ou o seja, está interessado em que o nome do seu Regimento (mas podia ser noutro qualquer ou noutro ramo militar) seja maltratado e achincalhado por causa de acontecimentos com origem em pessoas concretas. Trata-se de uma verdade que pode ser aplicada a jornalistas, a magistrados ou a qualquer outra classe profissional. E ninguém no seu juízo perfeito pode confundir o grito dos comandos MAMA SUME «prontos para o sacrifício» com qualquer apanágio de desrespeito pela vida que paute as regras do Regimento. Se alguém as não cumpriu ou respeitou é esse alguém que está em falta. Depois, porque os simplismos de tratamento para efeitos mediáticos quase sempre chocam com o necessário rigor. Repare-se, por exemplo, na forma como foi dada a notícia a propósito da passagem de aviões russos pelo espaço internacional sob responsabilidade do nosso País «F16 interceptaram...». Ora, interceptar é deter, confrontar, pôr obstáculo. Coisa diferente é dizer «acompanharam», que foi realmente aquilo que, correctamente, fizeram. Não se tratou de ingenuidade ou de iliteracia, mas de induzir de forma subliminar outro tipo de raciocínios e respectivas ilações.

Pelo meio de toda esta situação, está aquela em que se encontra a saúde militar, Hospital das Forças Armadas incluído. Desde o momento em que desastradamente, mas não inocentemente, foi decretada uma reunificação a martelo, a qual, desde o primeiro momento, o PCP questionou, «chovem» as queixas. Processo em que também não está de costas voltadas às medidas tomadas de fusão da ADM no Instituto de Apoio Social das Forças Armadas (IASFA). Este constitui todo um bloco de problemas que, não estando directamente relacionado com as causas que conduziram ao ocorrido na instrução do curso de comandos, não está inteiramente de costas voltadas. Seria bom que a opção pela «surdez» que atacou o governo PSD/CDS, não fizesse escola.

 



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