Luta com vida
O MURPI esteve em Lisboa para reivindicar o aumento real das pensões e a melhoria das condições de vida. Os reformados voltam à rua amanhã e no sábado, com acções no Porto e Faro.
«É urgente o aumento das pensões e reformas»
Para «cumprir a esperança», o MURPI (Confederação Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos) – depois de em Maio de 2016 ter iniciado um conjunto de acções que ocorreram em mais de 22 localidades do País pelo aumento intercalar das pensões – realizou, sábado, na Praça Luís de Camões, uma concentração para exigir do Governo um aumento das pensões que permita recuperar o poder de compra, após o seu congelamento e consequente desvalorização.
Para esta luta – espaço também de convívio cultural, com a actuação de três grupos de cantares de associações de reformados – convergiram centenas de reformados e pensionistas vindos de Leiria, Lisboa, Santarém, Setúbal e Alentejo. «É urgente o aumento das pensões e reformas» e «Melhores pensões e mais saúde» foram palavras de ordem constantes nas faixas e nas vozes que circundavam a estátua de Luís de Camões.
Em pancartas e noutros materiais, embelezados com os cravos de Abril, afirmava-se ainda a necessidade de «combater a pobreza entre os idosos. Por pensões e condições de vida dignas!» e «em 2017, recuperar rendimento. Pensões com aumento».
«A luta dos reformados vinculados ao MURPI é uma acção de cunho reivindicativo, de afirmação da sua vontade de participar na vida social, política e cultural. É ainda uma manifestação de alegria, de confiança no valor da sua organização, de confiança na sua força social e na sua vontade de intervir por melhores pensões, condições de vida dignas, pelo direito à cultura e ao lazer», afirmou Fernando Tavares Marques, actor e encenador que apresentou a iniciativa.
Entre os momentos culturais, que acrescentaram alegria ao encontro, tomaram da palavra José Núncio, vogar efectivo, Isabel Quintas, presidente da Assembleia Geral, e Casimiro Menezes, presidente da Direcção. Foi ainda lida, por Fernanda Simões, uma saudação da Inter-reformados.
Derrota do PSD/CDS
«O caminho aberto pela luta dos reformados dinamizada pelo MURPI, sempre em estreita solidariedade com as lutas dos trabalhadores e das populações, e o seu voto nas eleições de 4 de Outubro possibilitaram a derrota do governo PSD/CDS e uma alteração na correlação das forças políticas na Assembleia da República, permitindo que fossem tomadas algumas medidas positivas em 2016», lembrou José Núncio, também da Federação das Associações e Organizações de Reformados, Pensionistas e Idosos do Distrito de Lisboa. Referia-se ao «desagravamento da sobretaxa de IRS», à «reposição dos complementos de reforma nas empresas públicas» e ao «alargamento da isenção das taxas moderadoras e a melhoria das condições de acesso ao complemento solidário para idosos».
O dirigente criticou, porém, o «insignificante» aumento de 0,4 por cento nas pensões até 628 euros e o congelamento das restantes pensões, que motivou o lançamento pelo MURPI da campanha nacional «Aumento intercalar das reformas e pensões, é justo e necessário».
Acção reivindicativa
Depois de Isabel Quintas, que falou sobre a polémica aplicação da Lei da condição de recursos às pensões mínimas, interveio o presidente do MURPI. «Há um ano encontrávamo-nos numa situação que resultou da luta e do voto dos portugueses, que viabilizou uma solução governativa que colocou um travão à política do PSD/CDS. Se tal não tivesse acontecido estaríamos a lutar contra a tentativa do governo de Passos Coelho aprovar os cortes de mais de 600 milhões de euros nas pensões já atribuídas em 2016», recordou também, acentuando: «valeu» e «vale a pena lutar!».
Para Casimiro Menezes, agora «está na altura de iniciar a recuperação de rendimentos dos portugueses através de medidas que estimulem a criação de emprego, aumentem a produção e promovam o aumento do investimento público».
Para isso os reformados, pensionistas e idosos exigem que se faça justiça social, promovendo um aumento real e extraordinário de todas as pensões.
No projecto «Respeitar a dignidade das pessoas idosas» do MURPI consta ainda o pagamento do subsídio de Natal numa única prestação, a correcção das profundas injustiças na distribuição do rendimento nacional que penalizam quem tem como única fonte de rendimento a sua reforma, pensão ou salário, a adopção de medidas para aumentar as receitas da Segurança Social, quer pelo combate à dívida e à evasão contributiva, quer pela diversificação das suas fontes de financiamento, e a melhoria das condições de habitação, da protecção na saúde e do direito ao acesso, em plena igualdade, aos equipamentos e às respostas sociais da rede pública, designadamente às pessoas idosas dependentes.
Defender o SNS
O presidente da confederação defendeu, ainda, «centros de saúde que funcionem eficazmente com equipas de profissionais motivados e justamente remunerados que permitam dar resposta a inúmeros problemas de saúde das populações», a «reactivação das extensões de centros de saúde que permitam o acesso aos cuidados de saúde por parte de pessoas com baixa mobilidade e da população idosa», a «dispensa gratuita de medicamentos essenciais ao tratamento e controlo das doenças crónicas» e «uma rede pública de cuidados continuados dotada de mais camas e articulada com as unidades de saúde».
«É tempo de iniciar a recuperação e o reforço do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que sofreu total desfiguração e degradação com a política de desinvestimento e de desarticulação promovida pelo PSD/CDS com o objectivo de enfraquecer e destruir o SNS», acusou Casimiro Menezes.
«Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades»
A acção descentralizada do MURPI continua amanhã, 28, no Porto, às 15h00, na Praça do Poveiro, às 15 horas, e no sábado, 29, em Faro, no Mercado Municipal, às 15h30. Em Lisboa, a iniciativa terminou com a leitura do soneto «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», de Luís de Camões:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.