Os desportos náuticos (ainda) não fazem parte do diversificado cartaz das actividades desportivas da Festa do Avante!, mas quem optou por entrar no recinto pelo portão da Quinta do Cabo, e foram milhares e milhares de visitantes, certamente notou os mastros dos veleiros e vislumbrou as embarcações de todos os tipos, ancorados uns, sulcando as águas outros, que por ali não faltam, anunciando num magnífico bilhete postal ao vivo e a cores que agora a Festa convive mesmo paredes meias com a belíssima Baía do Seixal. Pode mesmo dizer-se que a Festa, onde o verde cresceu com a incorporação do arvoredo do Cabo, ficou mais azul, serpenteando pela margem da Baía até ficar sobranceira ao Tejo, lá na Medideira, onde nos dias claros se contempla Lisboa em todo o seu esplendor.
Quem optou pela «velha» entrada da Quinta da Princesa também se apercebeu de imediato que a Festa, sendo a mesma, é outra. Os espaços cresceram, dando a ilusão de que a própria avenida central está mais ampla e que as colinas ganharam suavidade abrindo horizontes até à agua que se avista lá ao fundo, serena, repousante, convidativa.
Numa palavra: a Festa está mais bonita. Não falta quem, saboreando o espaço, exprima o quase inevitável comentário – «imagina o que seria ter uma casa aqui». Pois é, mas nesse caso não haveria gente e é de e para gente que esta Festa existe. A nossa gente, as nossas gentes, que esta é uma Festa de um povo e de um País inteiro e um tributo aos povos de todo o mundo.
Gente foi o que não faltou na 40.ª Festa do Avante!, onde as pronúncias portuguesas se misturaram com outras línguas vindas de todos os continente, numa sinfonia difícil de adjectivar, misturada com sabores e cores de fazer corar de inveja o arco-íris. E alegria, pois então, que estar junto e partilhar é isso, seja à volta da mesa – por que outra razão a inventariam os homens a não ser para nela se juntarem? – ou num espectáculo, onde as emoções de quem actua e quem assiste se misturam em magnífica manifestação colectiva. E tempo para coisas sérias – como se o resto o não fosse... – que dão para pensar e aprender, seja uma exposição da máscaras que nos falam da nossa história ou debates, muitos, onde os problemas do nosso tempo, do País e do mundo, convocam para a reflexão e para a luta. E muita, mas mesmo muita juventude, presente em todo o lado com a sua diversidade, desde os que já sabem tomar partido aos que começam a dar os primeiros passos, como o pré-adolescente que na manhã de domingo memorizou a letra do «Avante, camarada» tirada da Internet para a poder cantar no comício, onde participou de moto-próprio devidamente «armado» com a bandeira do Partido e dançou a «Carvalhesa» lá bem no meio da multidão «até sentir o chão tremer» como a avó um dia lhe contou.
Quarenta festas depois a Festa continua a lançar à terra sementes de futuro. O esforço não é pequeno – que o digam os construtores! – mas os frutos, como os filhos, fazem com que valha a pena.