• Correia da Fonseca

A ponte e o preço

No passado dia 6 completaram-se cinquenta anos sobre a inauguração da Ponte 25 de Abril, então sob a designação subserviente e abusiva de Ponte Salazar, como se o ditador tivesse dado uma contribuição relevante para a sua construção (excepto obviamente a indispensável autorização) ou, pelo menos, como se o anseio por uma ponte entre Lisboa e a margem esquerda tivesse habitado a sua cabecinha tão enternecidamente aplaudida por Amália Rodrigues numa quadra que convém não esquecer. Na verdade, o sonho de uma ponte entre a capital e a outra margem já vinha pelo menos da segunda metade do século XIX, mas bem se sabe que os sonhos são vãos quando faltam as condições para a sua concretização, e neste caso faltaram durante décadas as adequadas sabedorias técnicas que só surgiram nos Estados Unidos no decurso do século XX. Em valores da época, a ponte terá custado dois milhões e duzentos mil contos e, como se sabe, a sua exploração está confiada a uma empresa, a Lusoponte, cujo contrato com o Estado foi negociado pela parte estatal por um então senhor ministro que é agora presidente da empresa. Por coincidência, naturalmente, e é claro que com todo o mérito. Mas o que para aqui importa é que o 50.º aniversário da inauguração da ponte foi largamente celebrado na TV portuguesa, sobretudo na RTP como aliás se justificava, mas não só, e por isso entra naturalmente na área de observação destas duas colunas. Convém dizer, antes do mais, que o conjunto de documentários e reportagens transmitidos teve sólidos e variados méritos. Entre todos eles, talvez devam ser destacados os que lembraram a «crise das portagens» durante os maus velhos tempos do PM Cavaco Silva e o testemunho de Aristides Teixeira acerca do quotidiano «imposto» que continua a ser forçosamente pago pelos cidadãos da margem esquerda que têm em Lisboa o seu posto de trabalho.

A versão salazarista

Porém, na construção da Ponte 25 de Abril houve um custo bem mais importante do que os que entram nas contas dos estritos contabilistas: o preço pago em vidas humanas, o número dos trabalhadores que ali morreram no decurso da batalha diária que um pouco ironicamente é designada por «ganhar a vida». Uma das reportagens informou-nos: teriam sido quatro os trabalhadores mortos nesse peculiar combate. Mas uma outra reportagem desmentiu essa versão ao dizer-nos que a Junta de Freguesia de Alcântara homenageou exactamente agora, no quadro das comemorações do 50.º aniversário da ponte, a memória de vinte trabalhadores que morreram no decurso da sua construção. A diferença entre ambos os números não surpreende: estava-se em 1966, quando decorria em África uma guerra colonial em que oficialmente quase não morria nenhum soldado português, isto é, em que nesta matéria de baixas em combate a mentira era um padrão oficial e, nestes casos, uma sinistra arma de combate ideológico. Como é sabido, quando a contagem honesta pôde ser feita soube-se que quase nove mil portugueses morreram ao participar naquela guerra injusta. Sem levar longe de mais o paralelo, bem se pode dizer que a ocultação oficial da quase totalidade dos trabalhadores mortos a construir a ponte, isto é, mortos no decurso de um trabalho de paz e não numa tarefa de guerra, se entende perfeitamente. É que naquele ano de 66 o governo português era um governo de mentiras, habituado a encobrir crimes vários e de diversa dimensão com imposturas a condizer. De então para cá decorreram cinquenta anos, já não há soldados portugueses a morrer nas Áfricas embora haja ainda trabalhadores a morrerem em obras diversas. Enfim, o País é diferente. Pelo que bem podia a TV ter-nos poupado à versão salazarista que fixava em quatro o número de trabalhadores que morreram a construir a Ponte. Chamada 25 de Abril também graças a eles, que eram povo.




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