POREXIT
A palavra tosca, feiosa e por agora inexistente que encima estas duas colunas nasceria por semelhança genética com a outra que nestes últimos dias percorreu as diversas formas de comunicação/manipulação social, e portanto também a televisão que nos entra em casa e nas cabeças, «brexit». O «brexit» é, como estamos fartos de saber, o enorme rombo que uma estreita maioria do eleitorado britânico decidiu abrir nessa outra geringonça que, engendrada e manobrada pelos que mandam na Europa, veio ocupar sem legitimidade política, moral e histórica, o lugar mítico onde poderia estar, onde decerto estava, o sonho de uma outra Europa que seria, que poderá ser um dia, democrática, justa, verdadeiramente europeia no melhor dos sentidos civilizacionais que a palavra pode ter. Isto significa, como bem se percebe, que existe, como sempre seria inevitável, o projecto de uma outra Europa que seria, que será, a Europa dos povos e não dos capatazes económico-financeiros, da efectiva solidariedade e não da permanente competição a todos os níveis, do internacionalismo e não da competição transnacional. Contra essa outra Europa se instalou a que foi agora ferida pelo «brexit» e se alcandorou como patroa de tal modo que bem se pode dizer que a Europa tem estado como que submetida a uma espécie peculiar de ocupação factual sem fardas nem capacetes de aço, comandada desde Berlim e assessorada por diversos colaboracionistas disseminados por outros lugares, de algum muitíssimo remoto modo comparável à ocupação que nos foi narrada por uma série francesa que a RTP2 transmitiu até há poucos dias.
Porque a História não estaciona
O facto de se ter colocado no alto destas colunas a invenção pelintra que é a palavra «Porexit», nascida por construção análoga à “Brexit” agora tão presente na televisão e seus arredores, não significa que se espere, ou sequer que se preconize que o nosso País adopte, imediatamente ou não, o exemplo britânico, e siga a rota saramaguiana que o nosso Nobel («nosso» porque português e «nosso» neste jornal porque comunista) inventou, transformando-se então Portugal numa jangada de pedra que nesse caso, diversamente do que ocorre no romance, seria autónoma em relação a Espanha. Nem lucubrações dessa ordem seriam adequadas num texto que deve ocupar-se do que acontece na televisão, isto é, do que a televisão nos injecta. Porém, tanta coisa directamente relacionada com a presença portuguesa na UE, quer dizer, com o quotidiano de cada um de nós, vem acontecendo permanentemente na TV, que não será excessivo vir lembrar de algum modo que a História não estaciona definitivamente em alguma das suas esquinas, que o que hoje é britânico pode amanhã ser grego ou sueco e que assim vão prosseguindo os seus caminhos os destinos nacionais ou plurinacionais. É claro que há quem suponha que isto não é assim e que, no caso europeu, tudo haverá de caminhar sempre como decidem as forças escassamente conhecidas e identificadas que são geralmente designadas, para efeitos mediáticos e não só, por Senhora Merkel. Mas não, as coisas são mais complicadas e atrás de tempos, tempos vêm. É exactamente essa interminável sequência de tempos que não se sucedem autónoma e mecanicamente mas onde, pelo contrário, a intervenção dos homens é decisiva, que garante um itinerário colectivo em direcção a outras realidades. No contexto em que o «brexit» se tornou agora vedeta mediática, bem se pode dizer que em direcção a outras europas. Onde é legítimo esperar que, mais cedo ou mais tarde, chegaremos.