A inundação

Correia da Fonseca

A si­tu­ação tem sido di­fícil mesmo para mi­lhares de te­les­pec­ta­dores que gostam de ver fu­tebol na te­le­visão, que com­pre­endem o que a pres­tação da se­lecção na­ci­onal sig­ni­fica para os por­tu­gueses emi­grados, que não são in­di­fe­rentes ao peso que even­tuais êxitos fu­te­bo­lís­ticos têm sobre a ava­li­ação global que do nosso país é feita por essa Eu­ropa fora onde, bem se sabe ou se adi­vinha, também abundam as ca­beças tontas e as vistas curtas. A si­tu­ação tem sido di­fícil até para os pa­ci­entes e com­pre­en­sivos: é que os seus te­le­vi­sores têm vindo a ser inun­dados pelo Euro 2016, tanto e de tal modo que muitos ci­da­dãos te­les­pec­ta­dores co­meçam como que a sentir a res­pi­ração cor­tada, não a que se faz pelos pul­mões mas sim a que é feita pelos olhos, pois que o olhar também é uma forma de res­pi­ração, com perdão da me­tá­fora. É claro que se com­pre­ende e aceita que a te­le­visão traga a nossas casas todos os jogos desta fase final do Cam­pe­o­nato Eu­ropeu de Fu­tebol, com­pe­tição que pelo seu re­levo até jus­ti­fica a uti­li­zação de ini­ciais maiús­culas quando res­pei­to­sa­mente gra­famos a sua de­sig­nação, mas a questão não é essa: a questão é que o fu­tebol sob a forma deste tor­neio inundou dir-se-ia que cada palmo das emis­sões diá­rias de todos os ca­nais, com perdão do exa­gero da afir­mação que aliás aqui desde já se re­co­nhece. Está uma te­les­pec­ta­dora a en­cantar-se com mais um epi­sódio da te­le­no­vela e eis que no in­ter­valo lhe cai em cima uma no­tícia avulsa acerca do ad­mi­rável Cris­tiano; está um idoso a in­formar-se sobre o es­tado do tempo no dia se­guinte com vista à sua pre­visão quanto a dores nos ossos e logo é as­sal­tado por in­for­ma­ções acerca da mi­algia de Qua­resma. Os fre­quen­ta­dores dos cha­mados ca­nais in­for­ma­tivos, a RTP3, a SIC No­tí­cias, a TVI24, acos­tu­maram-se a en­cará-los como es­paços de algum de­sa­fogo e, com uma pi­tada de boa von­tade, de con­teúdos in­te­li­gentes. Pois até aí o fu­tebol agora se ins­talou e muitas vezes vem acon­te­cendo que todos os três ca­nais estão en­tre­gues às de­lí­cias das con­si­de­ra­ções de es­pe­ci­a­listas na coisa fu­te­bo­lís­tica, aquilo a que a SIC vem cha­mando um pouco exa­ge­ra­da­mente, «de­bate de ideias».

desta vida por­tu­guesa

Em suma: têm es­tado de tal modo as coisas te­le­vi­sivas que muitos te­les­pec­ta­dores acham que não podem viver des­can­sados: se até o «Prós e Con­tras», es­pécie de mo­nu­mento à lon­ge­vi­dade de um pro­grama que em prin­cípio con­vida a pensar, foi re­ti­rado na pas­sada se­gunda-feira em be­ne­fício do jogo entre a Rússia e o País de Gales (e o facto não foi de certo de­vido a um enorme apreço e con­si­de­ração pela Rússia, esse país gran­da­lhão sempre sus­peito de não ter er­ra­di­cado todo o co­mu­nismo que o ha­bitou), é claro que inun­dação não res­peita nada. Para mais e para nosso mal, a «equipa de todos nós» ofe­receu-nos dois em­pates ini­ciais que não aju­daram a su­portar in­for­tú­nios, isto sem contar com o de­sen­lace hún­garo ainda não co­nhe­cido no mo­mento em que estas li­nhas são es­critas. Mas, in­siste-se, o mal não está na trans­missão dos jogos, que são es­pec­tá­culos agra­dá­veis e ge­ral­mente agra­dados: está nas horas e horas de ver­bor­reia apen­di­cular que ocupa ca­nais que de­ve­riam estar vo­ca­ci­o­nados para me­lhor sorte; está so­bre­tudo na im­plí­cita su­gestão de que o fu­tebol é a coisa mais im­por­tante da vida, de­sig­na­da­mente desta vida por­tu­guesa onde existem perto de qua­tro­centos mil de­sem­pre­gados que não re­cebem qual­quer sub­sídio afora os não con­ta­bi­li­zados. O mal está, enfim, na de­sa­gra­dável sen­sação de que nos querem ador­mecer, dis­trair, en­ganar. E que, mais uma vez, o fu­tebol serve para isso. En­tenda-se: o pró­prio fu­tebol está ino­cente dessa es­pécie de passe de má­gica que re­tira dos nossos olhos o que é im­por­tante e o subs­titui por um «er­zatz», como se dirá uti­li­zando aqui, abu­si­va­mente, uma pa­lavra que os ve­lhos nazis ale­mães tor­naram quase po­pular. O fu­tebol está de­certo ino­cente, mas em ver­dade al­guém terá al­guma culpa.




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