Adeus, até ao seu regresso
Bem se sabe que estes são, para todo o País, os dias do futebol que está a ser jogado em França e, em muito menor escala de atracção e só para a zona de Lisboa, os dias das marchas populares que desfilaram na Avenida. Também houve aquela coisa sempre um pouco pungente dos chamados «casamentos de Santo António», mas passou depressa, deixemos isso. De qualquer modo, permita-se que se registe ter havido quem acompanhou com alguma ansiedade, decerto não excessiva, o Jornal da Tarde do passado dia 13, o próprio dia consagrado ao santo, não para saber notícias de manjericos e de sardinhas mas sim na espectativa um pouco mirífica (mas, já se sabe, ele há optimistas para tudo) de que a operadora pública de TV avisasse os cidadãos da capital e arredores de que naquele mesmo dia iria terminar a Feira do Livro de Lisboa. Para que, já se vê, os que por um motivo ou por outro têm o hábito de adiar a visita aos standes instalados no Parque Eduardo VII soubessem que terminava o tempo dos adiamentos, mas sobretudo para que a RTP lembrasse ao País que o livro continua a ser uma realidade importante para o País e para os que o habitam, hoje e para o futuro, sem o menor desapreço, naturalmente, para com os sms, e-mails e todo o arsenal de transmissão electrónica de textos que está hoje ao nosso serviço. Tratava-se, pois, de lembrar que era o dia de dizer adeus, por um ano, àquela fascinante exposição de livros novos e velhos, excelentes ou nem por isso, num conjunto que são o símbolo de uma civilização de seis séculos que nos ofereceu muito do que temos de melhor ainda que não tenha podido evitar muitos e terríveis males.
Porque o País precisa
Como bem se sabe, há já uns bons anos um sujeito canadiano, Marshall McLuhan de seu nome, chamou a este contexto cultural decorrente do advento do livro impresso «a Galáxia Gutenberg», e a conotação interestelar contida na fórmula pode apelar para alguma reflexão. Em verdade, o livro e a leitura fizeram surgir astros de dimensão humana, que é a que interessa, desencadearam avanços civilizacionais como nunca se vira, foram razões de orgulho, raízes de lucidez e sementes de encanto. Podemos dizer, é certo, que o mundo actual não é grande coisa, antes pelo contrário, mas devemos provavelmente acrescentar que sem os livros ele seria decerto muito pior. Posto isto, adoptemos uma escala menor para a nossa reflexão e admitamos, pelo menos admitamos, que o nosso País seria melhor se um imaginário «ratio» de leitura por habitante fosse mais elevado. Por isso é preocupante que a televisão pública, isto é, a que tem o dever de contribuir para que o País se torne sempre melhor e, neste caso, mais civilizado, tenha um currículo de manifesto desinteresse pelos livros, ainda que seja justo registar flagrantes melhorias recentes dessa sua doença congénita. É neste quadro que se torna legítimo, se não obrigatório, registar que a RTP poucas notícias da Feira do Livro nos foi dando enquanto ela esteve aberta; é nesse mesmo contexto que se lamenta que os cidadãos telespectadores da área da capital, que não são poucos, não tenham sido avisados do seu último dia. Aliás, a Feira do Livro também tem sempre um clima de festa, o que se regista em intenção de quem prefira a festa à leitura. E mais: quem a percorre com atenção pode pressentir um clima de boa cumplicidade, quase de fraternidade, entre os que vão seguindo de stand em stand pegando em livros, manuseando-os, quase acariciando-os. Eles bem sabem que o livro é uma boa coisa que é preciso estimar e defender. Por isso se regista e lamenta o relativo descaso com que a RTP tratou a Feira. Não apenas porque a Feira do Livro de Lisboa merece mais: sobretudo porque o País precisa deles, dos livros, e de quem os leia.