Hollande surdo aos protestos

Face à surdez do governo à vaga de protestos que abala a França há quase três meses, os sindicatos mostram-se determinados a prosseguir a luta até ao fim.

Vaga de protestos amplia-se em França

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Uma semana depois dos bloqueios aos portos, refinarias e depósitos de combustível, que secaram as bombas de gasolina e paralisaram parcialmente a economia, os trabalhadores franceses encetaram novas greves desta vez concentradas nos transportes.

Desde anteontem, 31, a circulação ferroviária está praticamente paralisada por efeito de uma greve por tempo indeterminado na companhia SNCF. Apesar de terem obtido algumas cedências da administração, quanto à organização do tempo de trabalho, os principais sindicatos (CGT, Unsa e SUD Rail) estão unidos na luta pela retirada da lei do trabalho.

A partir de hoje, quinta-feira, 2, o Metro de Paris estará igualmente parado. Às reivindicações salariais junta-se o repúdio pela desregulamentação laboral, razão que leva também os trabalhadores portuários e estivadores a cumprir uma greve de 24 horas. Caso não haja cedência da parte do governo, os sindicatos da CGT ameaçam com uma nova paralisação de 24 horas no próximo dia 14.

Amanhã, sexta-feira, 3, e até domingo, será a vez da aviação civil conhecer fortes perturbações. O sindicato dos pilotos (SNPL) aprovou, em referendo interno, seis dias de greve contra a degradação das condições de trabalho, designadamente cortes nas remunerações.

A pressão sobre o governo aumenta à medida que se aproxima o europeu de futebol, que abre dia 10. Seis das oito refinarias continuam paralisadas, o que obrigou o governo a recorrer às reservas estratégicas. Os terminais petrolíferos de Marselha e do Havre estão em greve. Uma grande manifestação nacional em Paris já foi marcada para dia 14 e adivinham-se novas paralisações e bloqueios durante o evento desportivo.

Contudo apesar das profundas divisões no grupo parlamentar socialista e das dissonâncias no seio do próprio executivo, Hollande e Valls insistem em que a lei do trabalho é «boa para todos».

Cacofonia e oposição aberta

Mas nem mesmo o ministro das Finanças se mostra convencido. Em declarações, dia 26, Michel Sapin, conhecido com amigo de Hollande, admitia que «talvez seja preciso mexer no artigo 2.º» do projecto de lei do trabalho. Pouco depois, o primeiro-ministro, Manuel Valls, garantia que o artigo 2.º não será alterado.

Ora, já na véspera o chefe do grupo parlamentar socialista, Bruno Le Roux, se mostrara favorável à alteração desse artigo, que estabelece o primado dos acordos de empresa sobre os acordos sectoriais, nomeadamente em matéria de remuneração de horas extraordinárias, horário máximo semanal, tempos de repouso e férias.

Como referem os opositores ao projecto, esta disposição permitirá que o patronato imponha condições drásticas de trabalho.

A ofensiva laboral desencadeada por Hollande em final de mandato é vista por muitos como um acto incompreensível que dividiu a esquerda e erodiu o apoio social do governo. Conscientes dessa realidade 56 parlamentares do PS, PCF e ecologistas dirigiram, dia 27, uma carta ao presidente instando-o pôr fim à crise tendo em conta a oposição maioritária dos franceses à lei do trabalho.




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