Em busca do futuro ameaçado

Correia da Fonseca

A Cimeira acontece em Paris, e talvez convenha dizer, de passagem, que se realiza num lugar adequado. É claro que Paris já não é o que foi, como aliás todos os lugares do nosso mundo em permanente transformação, mas é talvez excessiva e porventura não inocente a tendência muito na moda para desvalorizar Paris em favor de Londres ou de Nova Iorque, não decerto pelos pergaminhos cívicos e culturais destas duas cidades, mas talvez antes porque nelas se situam respectivamente a City e a Wall Street, lugares quase sagrados do capitalismo internacional, a primeira dominante até à Segunda Guerra Mundial, a outra desde 45. Quanto a Paris, acontece que tem no seu currículo datas e factos que a tornam antipática, se não odiosa, a muita gente: 1789, 1871, a Resistência, 1945, a Enciclopédia no século XVIII, a circunstância de ter sido uma permanente «capital europeia da cultura» desde então até à actualidade, coisas assim. A questão é que currículos destes têm consequências, e é bom que nos lembremos disso para que não corramos o risco de nos perdermos nos caminhos. Aliás, não será atrevimento excessivo dizer que ainda hoje, tendencialmente, o idioma francês é a língua da cultura ao passo que a língua inglesa o é das sabedorias de ordem tecnológica. Passemos à frente, porém, para nos ocuparmos do assunto que nestes dias é dominante na informação televisiva, ou deveria sê-lo: a chamada Cimeira do Clima que, ao que foi noticiado, reuniu em Paris para cima de cento e cinquenta chefes de Estado ou de governo, número verdadeiramente impressionante por dois motivos, pelo menos: porque testemunha o reconhecimento mundial da importância do acontecimento e porque indicia que tão elevado número de participantes pode dificultar um acordo muito amplo que é obviamente desejável.

Enquanto há gente

Como toda a gente saberá, o que está em causa na Cimeira de Paris é nem mais nem menos que a sobrevivência da humanidade a médio/longo prazo, porventura mais médio que longo, colocada em alto risco pela continuada degradação das condições ambientais. É certo que há outras fontes de risco neste século XXI que habitamos, designadamente a eventualidade de uma guerra nuclear e a chamada (e contestada) «bomba populacional», mas é claro que a existência de vários perigos não implica que descuremos a prevenção de um deles, porventura o mais urgente de atender porque, segundo muitos ou talvez todos os especialistas, está a ser atingido o ponto em que o retorno já não será possível. De onde esta Cimeira e a atenção que a TV dá ao acontecimento. Porém, é quase certo que a TV não diga tudo quanto deveria dizer ou que não o diga com adequado destaque, pelo que convirá sublinhar um ou dois aspectos fundamentais da chamada crise ambiental, não só porque entender é sempre recomendável mas também porque, neste caso, entender pode ser fundamental. Entendamos, pois, como ponto prévio, que também neste caso estão presentes formas de luta de classes, digamos assim. Uma dessas formas opõe os estados que têm sido dominadores e se desenvolveram pelo preço de contribuírem superlativamente para a degradação ambiental aos estados que, dominados e explorados, foram mantidos em estado de fraco desenvolvimento, pelo que reivindicam agora o direito a desenvolverem-se e, por essa via, inevitavelmente contribuírem para a degradação das condições climáticas. Outra forma de luta de classes, também neste caso atípica, é concretizada pelas poderosas indústrias que, sendo responsáveis pela degradação ambiental e arrecadando gigantescos lucros, se recusam a mudar de práticas para possibilitar a sobrevivência das gerações futuras assim colocadas, a prazo, na situação de esbulhadas da própria vida. São, pois, os interesses imediatos das classes e países dominantes a esmagarem o direito à sobrevivência de países e populações dominadas. Nestas duas situações têm radicado os falhanços de anteriores cimeiras para resolução do problema, e é bom que isso seja entendido. Digamos que enquanto há gente viva para entender.




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