Palco Novos Valores leva jovens músicos
à Festa do Avante!

Pelo direito a criar

O concurso de bandas que a Juventude Comunista Portuguesa promove todos os anos, que culmina com a actuação no Palco Novos Valores da Festa do Avante! dos grupos apurados nas diversas eliminatórias realizadas de Norte a Sul do País, concretiza na prática aquele que é o direito constitucional à criação cultural, tão desrespeitado pela política de direita dos sucessivos governos PS, PSD e CDS. Em 18 anos de existência, este concurso deu a possibilidade a centenas de jovens bandas nacionais de mostrarem ao vivo o seu trabalho e o seu talento. E continuará a fazê-lo no futuro. 

Pelo Palco Novos Valores passaram, em quase duas décadas, diversas bandas e artistas que são, hoje, nomes sonantes e seguros do panorama musical português. São os casos, entre outros, dos One Love Family, Yellow W Van, Chullage, Da Weasel, Dama Bete ou Linda Martini. Como muitos outros, estes grupos depararam-se, no início da sua carreira, com dificuldades diversas, entre as quais a falta de locais para ensaiar e de oportunidades para actuar perante um público. Excepção feita a algumas autarquias, nomeadamente de maioria CDU, a JCP e o seu concurso foram dos poucos apoios com que muitas bandas contaram para mostrar ao vivo o seu valor. Nem que fosse uma única vez.

Ao longo dos anos, o concurso de bandas da JCP cresceu e afirmou-se, sendo actualmente um dos maiores e mais importantes que se realizam no País. A cada ano que passa são mais as bandas que se inscrevem para participar, oriundas das mais diversas regiões. Este ano, realizaram-se 35 eliminatórias em localidades como Viana do Castelo, Braga, Porto, São João da Madeira, Aveiro, Gouveia, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Marinha Grande, Alpiarça, Benavente, Vila Franca de Xira, Sintra, Cascais, Lisboa, Barreiro, Seixal, Almada, Setúbal, Évora, Beja, Santiago do Cacém e Faro. A 11 de Julho, pela primeira vez, terá lugar uma eliminatória no Funchal. Estiveram envolvidas 101 bandas, sendo que as inscrições para a eliminatória da Madeira estão ainda abertas. Sobre a dimensão do concurso pouco mais será preciso dizer...

Como tem vindo a ser hábito de há alguns anos a esta parte, a JCP está a aproveitar o concurso e as diversas eliminatórias para contactar com centenas de jovens músicos acerca da imperiosa necessidade de uma política que garanta o direito de todos à criação e fruição da cultura nas suas mais variadas expressões. No que à música diz respeito, são problemas particularmente sentidos o excessivo preço dos instrumentos, aulas e salas de ensaio, bem como dos bilhetes para a maioria dos espectáculos.

À subscrição das bandas foi colocado, pela JCP, um manifesto em defesa da cultura, onde se denuncia e se exige solução para as imensas e crescentes dificuldades que estão actualmente colocadas aos artistas. A receptividade não podia ter sido melhor.

Cultura ao serviço do povo

O manifesto produzido pela JCP e subscrito, até ao momento, por largas dezenas de bandas, reafirma um conjunto de exigências centrais dos comunistas relativamente à política cultural. Entre as reivindicações conta-se o «apoio efectivo às bandas, aos grupos de teatro, aos cineclubes, a outras associações e movimentos culturais»; o reforço da verba que garanta o «cumprimento das tarefas do Estado na cultura, de forma programada, com vista a atingir o objectivo de afectar 1 por cento do valor do Orçamento do Estado à Cultura»; a criação de uma «rede nacional de espaços para a criação e fruição artística; a adopção de medidas que «apoiem e facilitem o acesso dos mais jovens à cultura em geral, garantindo a gratuitidade do acesso, nomeadamente aos museus, às bibliotecas, aos espectáculos de companhias e orquestras nacionais».

O manifesto exige ainda «estabilidade profissional e protecção social para criadores e artistas» e o «investimento no sistema público de ensino artístico». Em conjunto, todas estas medidas concorrem para construir uma política que «ponha a cultura ao serviço do povo português e da sua emancipação, a que todos possam aceder».


Irreverência e qualidade

As bandas que actuarão no Palco Novos Valores após terem sido apuradas nas várias eliminatórias são as seguintes: Baixo Soldado (vencedores da final regional de Porto e Viana do Castelo); The Indómito (vencedores da final regional de Braga, Bragança e Vila Real), Paradigma (vencedores da final regional de Aveiro e Viseu), Moody Traffic (vencedores da final regional de Coimbra, Castelo Branco e Guarda), The Town Bar (vencedores da final regional de Santarém e Leiria), Bom Marido (vencedores da final regional de Lisboa), Margem Soul (vencedores da final regional de Setúbal), G.i.g.g.y. (vencedores da final regional do Algarve) e Omega Sins (vencedores da final regional do Alentejo). A estas juntam-se três convidados: Malaba, NTS e Projecto Bug. Sobre estes importa dizer algo mais.

No caso de Malabá, a sua música retrata a sociedade em que vivemos, na qual sonhar é praticamente um «luxo» e o desemprego uma constante. No seu primeiro álbum a solo, «O Sonho Português», lançado em 2013, o rapper mostra o seu lado mais humano e conciliador em temas como «Sangue Meu» ou «Cem ou Sem Problemas». Mas Malabá não esquece nunca o Rap mais puro e duro, como se pode constatar em faixas como «Puta Madre», «Superman» ou «Lá vens tu».

Quanto ao Projecto Bug, nasceu – como os próprios afirmam – de um «devaneio de amigos com ânsias de diferentes ambientes sonoros». Formada por 14 elementos, a banda assume-se como «híbrida, flutuante, inesperada e preferentemente insólita». Os seus espectáculos são uma «fonte de humor, um poço de alegria, um sentimento de partilha».

NTS, sigla para «Não Tem Significado», é por muitos chamado «Rei do Improviso». A paixão pelas palavras surge-lhe em 2003 a ouvir Da Weasel, partindo daí para uma fulgurante carreira. Vencedor de «batalhas» de freestyle, abraça diversas causas sociais socorrendo-se da sua «poesia violenta». Após ter participado ao lado de artistas como Sir Scratch, Soulcast, Scream e Zégabundos, NTS gravou com o colectivo Recarga o seu primeiro single, «Liberdade», e em 2011 lançou os dois primeiros EP. Tem, hoje, mais de 100 mil seguidores no Facebook.


Entrevista aos DMK

Um «grande impulso»
para a cultura

Os DMK são uma das bandas que, este ano, participaram no concurso da JCP na região de Lisboa. Não ficaram entre as apuradas para actuar na Festa, mas nem por isso guardam desta experiência uma má recordação. Em conversa com o Avante!, um dos seus elementos, «Kastiço», mostra-se sensibilizado com a oportunidade que lhe foi dada de mostrar ao vivo o trabalho da sua banda.


Avante!: O que vos levou a participar, dois anos consecutivos, no concurso de bandas da JCP?

Kastiço: Para além da oportunidade de tocar no Palco Novos Valores da Festa do Avante!, motivou-nos a possibilidade de tocar nas eliminatórias e de dar a conhecer o nosso trabalho ao «pessoal» que vai ver os concertos, e de nós evoluirmos também.


Ou seja, encontraram nele um espaço de crescimento e afirmação?

Exactamente!


O que sente um jovem músico ao tocar na eliminatória do Palco Novos Valores?

Mesmo sendo um concurso – há sempre aquela questão de se fazer o melhor que se sabe para se conseguir passar – acaba por haver também um bom espírito de convívio.


Como é que vêem a situação dos jovens artistas e o papel deste concurso na luta pela cultura para todos?

Hoje em dia faltam oportunidades aos jovens, não existem espaços para concertos, não há salas de ensaio, nem existem locais para as bandas se afirmarem e onde possam mostrar o seu trabalho. Nesse aspecto, o concurso é muito bom, porque não é só a Festa em si, este concurso tem várias eliminatórias e cada eliminatória é um espaço para se tocar, e isso acaba por ser positivo. Sendo a nível nacional, com a quantidade de bandas que participaram, acaba por ser um grande impulso para as bandas nacionais e para a cultura em si.