Os novos párias

Correia da Fonseca

A televisão, e é claro que não apenas ela, divulgou os números actualizados do desemprego segundo as fontes oficiais e os não menos oficiais critérios: serão 667,6 mil os trabalhadores nessa situação. Não parece um pequeno número, mas o Governo e os seus abundantes anexos dão, perante ele, claros sinais de alegria, o que é curioso. De qualquer modo, porém, qualquer cidadão minimamente informado e empenhado em não se deixar enganar sabe que àquele número haverá que adicionar 300 mil, números redondos, correspondentes aos que se viram forçados a procurar noutros países o emprego que o seu próprio país lhes recusa, assim se ficando mais perto da verdade sem que contudo se tenham esgotado as adições possíveis e legítimas: basta lembrar, pelo menos, a burla estatística que consiste em considerar empregados os milhares de trabalhadores que andam por aí em bolandas, de curso de formação em curso de formação. Ainda haveria que considerar outras situações de efectivo desemprego mas não contabilizadas estatisticamente, designadamente os que, se já não jovens, esgotados de fadiga e amargura, se abandonam ao desalento e optam por não esbracejar mais, deixando-se ficar apenas à espera do fim. E, quanto a este ponto, é forçoso não omitir os que não ficam simplesmente à espera e optam por ir ao encontro dele: também a televisão nos informou, embora fugazmente, que um segmento não irrelevante dos suicídios registados tem a ver com situações de desemprego. Não atingirá decerto um número bastante para que tenha relevo estatístico, mas tem um outro efeito: o de colocar o Governo que empurrou esses cidadãos para tão melancólico final na situação de autor moral de homicídio por supressão de condições de sobrevivência. Não é situação que conste dos códigos de sabedorias jurídicas, mas consta seguramente de outros códigos que, como a reiterada prática vem provando, o Governo desconhece.

Brutalidade

Já tem sido referida na televisão, embora sem a insistência que bem se justificaria, a situação de múltipla inferioridade para que são atirados milhares de trabalhadores expulsos da actividade laboral que naturalmente se tornara o sentido maior do seu quotidiano, o fundamento da sua inclusão no tecido social, o factor que permitia alguma confiança no seu projecto de vida individual e familiar. Após semanas e semanas de inúteis caminhadas na busca de um novo posto de trabalho, o trabalhador desempregado começa a aperceber-se de que o empurraram para se tornar uma espécie de pária sem lugar certo nem direitos definidos numa estrutura social a que não falta uma alta dose de hipocrisia quando falsamente simula que se preocupa com ele pelo menos nos primeiros tempos. O desempregado sente-se então uma sobra amarrotada, um farrapo sem lugar na peça de que um dia fez parte. Mas há pior, e esse aspecto foi há dias denunciado na SIC Notícias por um jurista especializado em Direito do Trabalho, o dr. Fausto Leite: para manter uma réstia de direitos e de expectativas, o trabalhador desempregado é obrigado a apresentações periódicas num serviço público, como se fosse um arguido em processo jurídico, um criminoso sob suspeita. Cito de memória o dr. Fausto Leite ao denunciar o carácter inconstitucional desta obrigação: «a Constituição garante ao trabalhador a protecção e não a humilhação». Mas esta brutalidade burocrática, de efeitos psíquicos quando não também físicos, é um seguro exemplo da redução do desempregado à condição de novo pária em relação ao qual não se acrescentam deveres enquanto se extinguem direitos. Retomemos as contas sumárias referidas no início deste texto: tudo somado, fica-se em cerca de um milhão. E, recorde-se, o Governo dá claro sinais de regozijo, acha pouco. Não é apenas insensibilidade social, como muitas vezes se ouve dizer: é já perversão. Isto é, doença. A que é necessário e urgente dar remédio.




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