Insultos
Um dia destes, o Secretário-geral do PCP disse, entre muitas outras coisas que a generalidade da comunicação social esqueceu, que o facto de o anúncio da manutenção da coligação PSD-CDS ter sido feito no passado dia 25 havia sido «um insulto ao 25 de Abril». Pudemos saber destas palavras graças a qualquer dos canais portugueses de TV, mas o que quase nenhum deles fez foi completar a breve informação prestada com a razão que Jerónimo de Sousa aduziu para fundamentar o que dissera: a continuada imposição de medidas não apenas predatórias do País e agressoras dos direitos do povo, mas também radicalmente contrárias ao projeto que Abril foi e continua a ser. Nessa prática antipatriótica e de direita radicou, pois, o caráter insultuoso denunciado pelo Secretário-geral, o que seguramente terá sido entendido pelos cidadãos telespectadores que tenham tido a sorte de acederem a um relato não amputado, isto é, sem cortes, das palavras proferidas. Curiosamente, por esses mesmos dias levantou-se no mini mundo dos media um forte vento de indignação perante um projecto de exame prévio aos planos de cobertura jornalística do próximo acto eleitoral. Justificava-se a ampla rejeição havida, embora não tanto a sugestão de que se estaria perante um primeiro passo para o regresso da censura que Abril veio extinguir. É que, como decerto a generalidade dos trabalhadores no jornalismo não ignora, a censura regressou há muito e «anda por aí», como diria o dr. Santana Lopes, alojada nos gabinetes que controlam redacções e abundantemente municiada com as dificuldades que se deparam ao exercício da profissão de jornalista. Quem tiver dúvidas quanto a isto, faça o favor de contar quantos jornalistas comunistas, ou que tenham o ar de o ser, trabalham ainda em grandes órgãos de comunicação social. Fica um aviso: talvez bastem, para a contagem, os dedos de uma só mão.
A expulsão
Infelizmente, porém, há mais insultos neste Portugal que há muito tempo deixou de ser o Portugal de Abril para se tornar o Portugal de Novembro. Assim, e falando apenas do que foi notícia em dias recentes, recordemos a informação de que o «salário» do presidente da RTP-Rádio e Televisão de Portugal, empresa cuja sobrevivência é paga por todos nós em prestações mensais sob a designação de «contribuição audiovisual», é de um montante muito superior às remunerações do Presidente da República, do primeiro-ministro e dos diversos ministros. Foi uma revelação chocante, entenda-se que não porque o actual Presidente mereça mais, o mesmo se podendo dizer do PM, mas por uma questão de dignidade do Estado e, digamos, de vergonha nacional. Temos, pois, que a remuneração do presidente da RTP é objectivamente um insulto a todos portugueses, mais ainda num tempo em que a maioria da população vive mergulhada em penúria, desespero e angústia. Mas são igualmente insultos as remunerações e prebendas complementares dos gestores de algumas empresas, de alguns treinadores de futebol que nem sequer expõem o corpinho a lesões, de intermediários e «facilitadores de negócios» entre os quais se contou, ainda que talvez em escala relativamente modesta, o dr. Passos Coelho. A lista é longa, não caberia aqui, e é uma extensa lista de insultos. Nem tudo, porém, se consubstancia no valor exorbitante de certas remunerações: bem se pode dizer que muitas das decisões do Governo são insultos dirigidos ao povo que ele oprime, a quem retira não apenas direitos mas também, uma a uma, as veredas que permitem o acesso a uma mínima qualidade de vida passível de ser chamada «europeia» neste século XXI em que, ao que consta, vivemos. Talvez, de resto, o insulto supremo feito a este povo seja o de estar a ser expulso do século XXI em que era suposto viver e empurrado, em milhares de casos concretos, para condições de vida próximas das medievais, sem comida nem medicamentos, sem água canalizada nem luz eléctrica, sem acesso ao ensino nem à Justiça. Na verdade, grande parte do povo português sobrevive sob uma chuva de insultos que, para cúmulo da insolência, alguns prometem que prosseguirá. Se os deixarem.