Fernanda, por exemplo
Foi a SIC que nos contou a estória de Fernanda e o mais que lhe está associado, mas parece claro que podia ter sido qualquer outro canal, aberto ou não. A abordagem do seu percurso de vida começou pela trapalhada que a burocracia portuguesa engendrou, tanta e de tal modo que Fernanda está agora na situação de apátrida, nem cidadã de Angola, onde nasceu quando a sua terra ainda era alcunhada de «província ultramarina», nem cidadã de Portugal, para onde foi trazida com apenas três anos de idade e que na prática lhe vem recusando a nacionalização que Fernanda há muito pede. Entretanto ocorreram episódios grotescos de entrega de um cartão de cidadã portuguesa e da sua posterior anulação, sucessos típicos da quase floresta de guichês que muitos são forçados a frequentar para seu desassossego e sua eventual angústia, mas o mais significativo e esclarecedor da odisseia de Fernanda situa-se mais longe no tempo e no espaço, ainda em terra angolana e antes da independência enfim alcançada. Fernanda contou muito sumariamente mas o bastante para que entendêssemos o que nem sequer era sua intenção referir. Disse que o seu pai era trabalhador do café, isto é, que em terra de Angola fazia trabalho duro em zona de cafeeiros pertencentes a colono português. Que o patrão, que segundo Fernanda vivia muito bem, após a independência angolana decidiu voltar para Portugal, decerto por achar, como muitos outros, que a ex-colónia já não lhe servia ou não serviria como até então, que de qualquer modo não era «forma para o seu pé», como por vezes diz o povo. Foi então que o pai de Fernanda pediu ao patrão que a trouxesse com ele. Acerca deste ponto, o jornalista da SIC explicou que muitos pais ou mães angolanos fizeram idêntico pedido a portugueses que então regressavam à metrópole, na expectativa de que assim os seus filhos poderiam ter uma vida bem melhor que a esperável numa Angola em parte destroçada e ainda instável.
À transparência
Não sabemos, nem nós, telespectadores, nem Fernanda, migrante por força das circunstâncias, como seria a vida daquela menina de três anos se tivesse ficado em Angola, embora possamos presumir que não seria uma vida excelente. Sabemos, contudo, porque a própria Fernanda no-lo contou, alguns aspectos importantes da sua vida de criança negra em Portugal: dureza de trato, sovas aplicadas com o auxílio de instrumento tradicionalmente adequado à «educação» dos negros. E a adição do nome de Maria ao de Fernanda que já era seu, o que pode indiciar a existência de devoções marianas na família que dela tomara conta. Através disso e de quanto se dispensou de narrar, foi Fernanda, agora Maria Fernanda, prosseguindo o seu itinerário de vida, tendo filhas, tendo netas, vencendo durezas. E desejando a nacionalidade portuguesa que, além do mais, talvez lhe facilite o difícil percurso, desejo esse que a trouxe à TV em consequência da embrulhada já referida e que aguarda a já prometida solução. É esta a sua estória sumária, aliás ainda a meio. Porém, como que à transparência do pouco que foi contado, é possível apercebermo-nos de uma espécie de retrato-robot do relacionamento de colonos «de bom coração», digamos assim, com os angolanos que os serviam, mão-de-obra fácil e barata que lhes assegurava rendabilidades mais que interessantes e, consequentemente, a vida excelente referida por Fernanda. Haverá decerto muito mais estórias, algumas terríveis, outras não, mas foi esta que nos calhou conhecer agora por ocasional vontade da SIC. Houve, bem se sabe, os que «perderam tudo» com o fim do colonialismo em Angola, o que aliás é muito falado, e houve também os que, antes dessa fase, «ganharam tudo», o que é menos lembrado. No meio disso estiveram decerto muitas Fernandas com variados destinos e sem dúvida variados sofrimentos. Esperemos que, pelo menos a esta, os serviços do Estado português dêem finalmente a nacionalidade que pede e de que precisa.