Notícias da indiferença
A televisão andou por ali, não sei bem há quanto tempo, a denunciar o escândalo, a apelar tacitamente para uma urgente intervenção que remediasse o que ainda fosse possível remediar, a despertar a nossa indignação muitas vezes posta a dormir e a ressonar sob a grossa manta da ignorância. Voltou agora lá, a televisão, mais exactamente a RTP e o programa «Sexta às nove», decerto para que soubéssemos como evoluíram as coisas desde o ano em que ocorrera a visita anterior. Ficámos informados: não evoluíram. Ou, pelo menos, nem de longe evoluíram como era preciso e manifestamente urgente. O lugar visitado foi a Urgeiriça, onde em tempos aconteceu uma intensa actividade mineira de extração de urânio. Porém, como se sabe, a mais notória aplicação do urânio é a produção da morte, não apenas pelo eventual uso das sinistramente famosas armas de guerra mas também pelas consequências, lentas mas continuadas, de radiações letais. E é este efeito que tem levado a televisão a visitar na Urgeiriça aquele lugar infectado pelas sementes de morte decorrentes de uma actividade industrial que decerto há-de ter dado dividendos, mas desiguais na sua natureza: financeiros alguns, quer para o Estado (isto é, também para os que de algum modo participam das receitas do Estado, designadamente ao nível das administrações e das funções superiores), fatais outros, reservados para as tarefas subalternas, sob a forma aparentemente mansa da morte a prazo. Tem sido este segundo efeito que vem motivando a atenção de algum telejornalismo, obviamente o mais inclinado a atender ao que é de facto importante e a deixar para outros os cuidados com a crise entre Cristiano e Irina. E foi esse jornalismo, sensível às desgraças silenciosas e aos crimes que não envolvem facadas e sangue derramado na calçada, que voltou agora a Urgeiriça para nos dizer como estão as terríveis coisas que há anos foram notícia.
Apenas
Estão na mesma, sem vestígios de alterações significativas. Morreram mais alguns dos atingidos pelas radiações assassinas, mineiros mas não só, pois os efeitos do urânio não fazem distinção minuciosa entre mineiros e outra gente que viva em lugares contaminados. É que o urânio não está apenas no fundo da mina mas também no solo à superfície, na terra usada para construções quando não para cultivo, nas pedras com que foram erguidas paredes de lugares de habitação. Contou-nos a reportagem que há anos foi detectada radioactividade letal em cinquenta habitações que a empresa destinara, por venda, a trabalhadores atraídos pelo conforto que as casas prometiam. Soube-se depois que essas casas já tinham uma residente invisível, a morte, pelo que se impunha com carácter de urgência a sua descontaminação. Pois bem: dessas cinquenta, anos depois, só uma delas foi descontaminada! Foram particularmente impressivas as palavras do residente em uma dessas casas: escolheu ficar ali, à espera da morte num espaço a que já está ligado por vínculos diversos, em vez de se mudar talvez já tardiamente para outro lugar equivalente que aliás não lhe é proposto. Entretanto, famílias de trabalhadores assassinados pelo urânio, isto é, pelo seu trabalho, continuam à espera das indemnizações a que têm confirmado direito mas que não chegam, talvez por falta de verbas, talvez por lentidões burocráticas. Aparentemente, ninguém se importa, nem com isso, nem com as mortes que prosseguem no cumprimento do seu calendário a prazo, nem com a permanente angústia que parece pairar por ali de mistura com as radiações criminosas. Não espanta, os trabalhadores mortos eram apenas mineiros, as famílias apenas são constituídas por parentes de operários; o Estado tem as suas lentidões, sobretudo as suas miopias, e o Governo anda ocupado pela procura dos lugares onde há-de desferir os novos cortes que virão substituir os cortes eventualmente suprimidos. E Lisboa é longe. Não constando que governantes e suas famílias tenham o hábito de fazerem férias em Urgeiriça, onde a paisagem é bonita mas o ar está armadilhado.