No centenário do nascimento de Sérgio Vilarigues

Sem ele o Partido não seria o que é

No dia em que se assinala o centenário do nascimento de Sérgio Vilarigues, o Avante! evoca aspectos centrais da vida e da actividade revolucionária daquele que foi, durante décadas, um dos mais destacados dirigentes do Partido Comunista Português. Ao longo de mais de 70 anos de intensa e dedicada militância comunista, Sérgio Vilarigues teve uma participação activa em muitos dos momentos fulcrais da história do PCP, que contribuiu decisivamente para moldar, construir e defender. Foi isto mesmo que reconheceu Jerónimo de Sousa quando, no seu funeral, em Fevereiro de 2007, garantiu que «sem ele, o PCP não seria o que é». 

Só um Partido como o PCP é capaz de forjar militantes desta têmpera

Image 17288

Escrever sobre Sérgio Vilarigues não é fácil. Em primeiro lugar porque o espaço é curto, e seria sempre curto se, em vez de duas, fossem 10, 20 ou mais páginas. Mas não é fácil, sobretudo, porque a vida de Sérgio Vilarigues se confunde com a luta do Partido Comunista Português, a que dedicou todas as suas energias, capacidades e disponibilidade. Uma vida intensamente vivida, que cruza os grandes acontecimentos do século XX português, dos quais foi bem mais do que um mero espectador.

Para escrever sobre Sérgio Vilarigues é obrigatório lembrar a dureza da vida das camadas populares no Portugal dos anos 30, a fome, o trabalho infantil, a exploração; é fundamental não esquecer (e denunciar uma e outra vez!) as torturas e arbitrariedades fascistas, e as prisões, que conheceu por dentro – entre elas o Campo de Concentração do Tarrafal, o Campo da Morte Lenta; é imperioso valorizar a tenacidade e a resistência dos trabalhadores e do povo – e do seu Partido, o Partido Comunista Português; é urgente lembrar a Revolução de Abril e os seus impetuosos avanços políticos, económicos, sociais e culturais; é necessário sublinhar a importância decisiva da luta em defesa dos direitos alcançados, terreno de onde surgirão novas conquistas.

É que Sérgio Vilarigues foi um dos «imprescindíveis» de que falava Brecht, um daqueles que lutou toda a vida, pelo derrubamento do fascismo e pela conquista da liberdade, pelo avanço e defesa da Revolução de Abril, pelo socialismo e o comunismo. Fê-lo sem desfalecimentos, sempre com plena confiança no Partido e no seu projecto, na classe operária e no povo português. Fê-lo enfrentando a violência da prisão e da tortura e suportando todos os sacrifícios que uma longa vida clandestina impôs. Fê-lo assumindo inúmeras tarefas e travando duros combates, alcançando vitórias e sofrendo derrotas, mantendo inabalável, até ao último dia da sua vida, a confiança na vitória.

Aos 90 anos, numa entrevista ao Avante! (publicada em Dezembro de 2004), considerava-se «feliz, inteiramente feliz».

Trabalho, lutas, prisões

 A importância de Sérgio Vilarigues para o Partido quase que se podia resumir num conjunto de factos notáveis da sua vida: ninguém como ele esteve tantos anos na clandestindade – 32 anos seguidos –, tendo sido, aliás, o último dirigente do PCP a regressar à legalidade após a Revolução; nenhum outro dirigente comunista assumiu durante tanto tempo consecutivo as mais altas responsabilidades na direcção do PCP como Sérgio Vilarigues, que foi membro do Secretariado do Comité Central entre 1949 e 1988; foi ele que assumiu durante um período mais longo, 16 anos, a responsabilidade pela redacção do Avante! clandestino; integrou a primeira leva de 152 prisioneiros que, em Outubro de 1936, «inauguraram» o Campo de Concentração do Tarrafal, para onde foi enviado depois de ter sido deportado para Angra do Heroísmo; participou na reorganização do Partido desde a primeira reunião, na Cova da Piedade, ainda em finais de 1940. Estes factos, ainda assim, não dizem tudo…

Nascido a 23 de Dezembro de 1914 em Torredeita, no concelho de Viseu, Sérgio Vilarigues começou cedo a trabalhar, como tantos outros jovens da sua condição: guardou gado, ainda criança, e aos 12 anos tem a profissão de marçano, a qual continua a exercer após rumar a Lisboa. Aos 16, arranja emprego como operário salsicheiro e liga-se ao Sindicato dos Trabalhadores em Carnes Verdes. Em 1932, com 18 anos, adere à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e, nos dois anos seguintes, faz parte do Socorro Vermelho Internacional.

Os primeiros passos de Sérgio Vilarigues na luta revolucionária dão-se nos anos de chumbo da consolidação do fascismo. Em Portugal, o sindicalismo livre combate a ilegalização imposta pelo Estatuto do Trabalho Nacional salazarista, copiado da Carta Del Lavoro de Mussolini, e aposta na greve geral insurreccional de 18 de Janeiro de 1934, na qual Sérgio Vilarigues participa. Apesar do heroísmo dos trabalhadores, particularmente na Marinha Grande, a jornada é derrotada e os sindicatos são encerrados.

Nesse mesmo ano, quando participava numa jornada de propaganda em solidariedade com um jovem comunista preso, Sérgio Vilarigues cai nas garras da polícia política. Os próximos anos passa-os nas prisões: Aljube e Peniche, primeiro; Angra do Heroísmo e Tarrafal, depois, onde sofre todo o tipo de torturas, violências e privações. Particularmente revelador da arbitrariedade fascista é o facto de Sérgio Vilarigues ter sido enviado para o Campo da Morte Lenta quando a pena a que fora condenado tinha já expirado. Em 1940, é abrangido por uma «amnistia» e libertado. Os 23 meses a que fora condenado transformam-se em seis anos de prisão efectiva…

Tal como sucedeu a muitos outros, as prisões e as torturas só fortaleceram ainda mais as convicções e a determinação de Sérgio Vilarigues em continuar a luta, dedicando-lhe toda a sua vida.

Nasce o «Amílcar»…

Uma vez em Portugal, Sérgio Vilarigues participa desde o princípio na reorganização do Partido do início dos anos 40, que o transformaria num grande partido nacional, vanguarda da classe operária e da resistência e unidade antifascistas. Os anos da reorganização do Partido foram particularmente intensos: houve que refazer a organização, recrutar militantes, cobrar quotas, voltar a publicar o Avante!, travar lutas nas empresas, reforçar e defender o aparelho clandestino, adoptando novas e mais rígidas regras conspirativas.

Sérgio Vilarigues foi um destacado protagonista de todo este processo: funcionário do Partido desde 1942, é eleito para o Comité Central no ano seguinte, no III Congresso do Partido, o primeiro realizado na clandestinidade. Entre as múltiplas responsabilidades que assumiu, conta,-se as organizações regionais do Algarve, do Sul do Tejo, do Norte, das Beiras e de Lisboa e a redacção do Avante! em diversos períodos (num total de 16 anos). A partir de 1949, na sequência da prisão de dois dos quatro membros do Secretariado – Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, capturados juntamente com Sofia Ferreira na casa clandestina do Luso – é chamado a este organismo, que teve então como principal tarefa a defesa do Partido face à ofensiva policial e, uma vez mais, a reconstrução do que se havia perdido. Já antes, em 1944, integrara o comité dirigente das grandes greves de 8 e 9 de Maio na região de Lisboa e Baixo Ribatejo.

Ao longo da sua longa vida clandestina assumiu vários pseudónimos, mas é o «Amílcar» que a história recordará, quer pelas responsabilidades que sob esse nome assumiu quer pela longevidade com que as manteve: dos 32 anos consecutivos de clandestinidade, Sérgio Vilarigues esteve 27 no interior do País, sem nunca mais voltar a ser preso.

Resistência, revolução e resistência

Derrubado o fascismo, acontecimento para o qual contribuiu como poucos, Sérgio Vilarigues foi protagonista activo da transformação do PCP num grande partido de massas e na força determinante dos mais profundos avanços revolucionários. Depois de, já antes do 25 de Abril, ter desempenhado importantes tarefas na área internacional, assume a responsabilidade pelas relacções internacionais e pela Secção Internacional do Partido no período crucial da Revolução, quando se intensificam as relações com outras forças progressistas e anti-imperialistas. Nesta condição, participa em encontros, congressos e conferências internacionais. Em 1975, está presente na Proclamação da Independência de Angola, em nome do PCP, a única força política portuguesa a fazer-se representar.

Em 1996, no XV Congresso, deixa de fazer parte do Comité Central (para o qual fora sucessivamente eleito desde 1943) e da Comissão Central de Controlo e Quadros, que integrava desde 1988, momento em que, a seu pedido, deixara de integrar a Comissão Política e o Secretariado.

Se com estas breves palavras não é possível (nunca o seria!) abarcar toda uma vida dedicada à causa da emancipação dos trabalhadores, da construção do socialismo e do comunismo, esperamos que elas sirvam pelo menos para homenagear o resistente antifascista, o construtor de Abril, o destacado dirigente comunista que foi Sérgio Vilarigues e, através dele, o colectivo partidário capaz de forjar militantes desta têmpera. Foi, aliás, o próprio Sérgio Vilarigues quem disse, na já referida entrevista ao Avante!, que «aquilo que sou devo-o ao partido, o Partido não me deve nada».

 

Datas de uma vida

1914

Nasce a 23 de Dezembro, em Torredeita, no concelho de Viseu.

1932

Com 18 anos, adere à Federação da Juventudes Comunistas Portuguesas.

1934

Participa na jornada do 18 de Janeiro contra a fascização dos sindicatos. É preso em Setembro, passando por diversas esquadras da polícia e masmorras.

1935

Adere ao PCP na prisão de Peniche.

1936

Em Outubro, é deportado para o Campo de Concentração do Tarrafal, que «inaugura».

1940

Libertado em Julho, integra o núcleo de oito militantes que dão início à reorganização do Partido.

1942

Torna-se funcionário do Partido, passando à clandestinidade, situação em que se encontrava em 25 de Abril de 1974. Foi, aliás, o último dirigente do Partido a regressar à legalidade. Foi responsável pelo Avante! por várias vezes, no total de 16 anos.

1944

Integrou o Comité dirigente das grandes greves de 8 e 9 Maio.

1943 - 1996

Foi membro do Comité Central do PCP.

1949 - 1988

Integrou Secretariado do Comité Central.

1967 - 1972

Fez parte simultaneamente da Comissão Executiva e do Secretariado do Comité Central.

1974 - 1988

Foi membro da Comissão Política.

1988 - 1996

Foi membro da Comissão Central de Controlo.

2007

Faleceu a 8 de Fevereiro.




Mais artigos de: Em Foco