Donos
Um dia destes, o dr. Passos Coelho aplicou a sua capacidade oratória para sustentar que os antigos donos do País já deixaram de o ser graças à sua acção governativa. É razoável supor que o mote para o seu discurso terá sido a queda, aliás em grande parte ainda por confirmar, do dr. Ricardo Espírito Santo Salgado, conhecido em certos meios basbaques ou não como «o DDT», isto é, «o Dono Disto Tudo». Cidadão muitíssimo social-democrata, como se sabe e bem se vê por todo o País, o dr. Passos congratulava-se com o facto que anunciava. Infelizmente, logo surgiram abundantes reparos à afirmação: de vários lados, vozes diversas vieram objectar que não houvera o que podia entender-se como uma libertação de sujeições, designadamente nas áreas económica e financeira que eram as visadas pelas palavras do senhor primeiro-ministro, mas sim a mera substituição de alguns, mais ou menos portugueses (justificando-se esta fórmula dubitativa por, como diz quem sabe e por vezes muito se repete, o capital não ter pátria), por outros, vindos de longe: da China, de Angola, do Brasil. E porque, como é sabido, à existência de donos sempre corresponde a existência dos que lhes estão sujeitos, em longínquos tempos na situação de escravos e hoje na pós-moderna condição de colaboradores, não poderá dizer-se que o País, isto é, a gente que o habita, de qualquer modo se libertou. Nem o dr. Passos se atreveu a claramente o afirmar, reconheçamo-lo. Aparentemente, a substituição de uns por outros já é bastante para se congratular com o suposto êxito, para dele se gabar como de uma vitória a um tempo nacional e pessoal, míope para o factual empobrecimento do País que, pelos vistos, pouco lhe importa. É talvez um critério. Mas para o cidadão telespectador não se afigurará decerto um critério bonito.
Um pouco por todo o lado
Porém, já que ao senhor primeiro-ministro ocorreu falar em «donos» e referir-se à sua substituição como se se tratasse do seu fim, tanto e de tal modo que de caminho não pareceu hesitar em aludir a uma suposta «democratização da economia», permitir-se-á que os cidadãos em geral reflictam um pouco sobre o tema, ainda que a outros níveis. Pois disso sabem eles. Sabe-o a generalidade dos trabalhadores por conta de outrem que, esbulhados das regras que lhe asseguravam alguma segurança no seu emprego, vêem diminuída a efectiva capacidade para enfrentarem eventuais abusos de um patronato cada vez mais «dono» dos que para si trabalham sem direitos nem garantias. Sabem-no, no sector público, cada vez mais despojados do que a direita opressora refere depreciativamente como «o emprego para a vida» e que não é mais que a garantia básica para a estabilidade fundamental de uma existência, os funcionários vitimizados pela tentação tirânica dos comandos que muitas vezes parecem julgar-se «donos» dos subalternos, talvez compensando assim o seu próprio sentimento de insegurança e a apetência por se mostrarem «fortes» perante os seus superiores. Sabem-no frequentemente, nos hospitais e centros de saúde, os doentes que ali se dirigem em sofrimento e que por vezes são tratados com rudeza por quem parece supor-se «dono» dos que até ali se arrastam, angustiados, assustados, inseguros, ignorantes de burocracias e regras afins. Encurtando razões, digamos que o sabem os habitantes de um País onde, a partir de exemplo vindo de cima sob a forma de opressões de tipo e formato diversos, em muitos sectores parece em vias de extinção, se não já extinta, a convivialidade saudável e tendencialmente fraterna que é naturalmente um produto social da democracia. Neste quadro, compreender-se-á talvez que, num País onde o governo continuadamente apela para a multiplicação do «empreendorismo», este seja entendido como a multiplicação de minipatronatos que possam fazer de cada patrão o «dono» de um trabalhador. Não é, decerto, o regresso da velha escravatura pura e simples, reduzida na escala. Mas talvez valha a pena inventariar-lhe as diferenças.