Evo Morales reeleito na Bolívia
Evo Morales foi reeleito este domingo, 12, presidente da Bolívia e o Movimento para o Socialismo (MAS) venceu as legislativas conquistando a maioria dos lugares no Parlamento nacional.
A pobreza extrema baixou de 39 por cento em 2005 para 18 por cento em 2013
Os resultados finais só deverão ser conhecidos no próximo domingo, 19, devido ao lento processo de contagem dos votos e a problemas com o sistema informático, informou o Supremo Tribunal Eleitoral da Bolívia, mas os resultados oficiais já apurados dão Evo Morales claramente destacado com 53.3 por cento dos votos. A sondagem feita à boca das urnas aponta para uma vitória por mais de 60 por cento dos votos.
A esperada vitória de Evo Morales e do MAS para o mandato 2015-2010 foi de resto imediata e entusiasticamente festejada na noite de domingo por milhares de pessoas que se concentraram junto à sede do governo em La Paz, onde Evo Morales, acompanhado do seu vice-presidente, Álvaro García Linera e de outros membros do governo, agradeceu a confiança popular manifestada nas urnas. Sublinhando que nestas eleições estiveram em confronto «dois modelos: o da privatização e o da nacionalização», Morales enfatizou a importância da vitória da política de nacionalizações seguida pelo seu governo e dedicou o «triunfo do povo boliviano ao todos os povos na América Latina e no mundo que lutam contra o capitalismo e o imperialismo». Um triunfo que também fez questão de dedicar a Fidel Castro e ao falecido presidente venezuelano Hugo Chávez.
Nestas eleições gerais, para quais estavam inscritos mais de seis milhões de bolivianos dentro e fora do país, votou-se para os cargos de presidente e vice-presidente, para o Parlamento nacional, para as legislaturas departamentais e para os deputados dos órgãos regionais. A sufrágio apresentaram-se 1043 candidatos, sendo 333 do MAS, 285 da Unidade Democrátiva, 208 do Movimento Sem Medo, 112 do Partido Democrata Cristão e 105 do Partido Verde da Bolívia.
Ainda segundo as sondagens à boca das urnas, Morales terá vencido em todas as circunscrições de voto (no país e no estrangeiro), batendo sem dificuldade o seu mais directo opositor, o empresário Samuel Doria, da Unidade Democrática, que deverá ficar pelos 25 por cento dos votos. Quanto aos restantes candidatos, as previsões dão Jorge Quiroga (Partido Democrata Cristão) em terceiro lugar com nove por cento dos votos, enquanto Juan del Granado (Movimento Sem Medo) e Fernando Vargas (Partido Verde) não irão além dos três por cento cada um.
Na Assembleia Legislativa Plurinacional (Congresso), o MAS deve manter a maioria, com 25 dos 36 senadores e 80 dos 130 deputados.
O slogan da noite da vitória – Pátria sim, colónia, não! – traduz bem o sentimento que presidiu ao escrutínio e se reflecte nos resultados eleitorais. Como assinalou ainda Evo Morales, a vitória demonstrou também que na Bolívia «não há meia lua, mas lua cheia», numa referência à forma como a oposição – que reivindica a autonomia do rico departamento de Santa Cruz – trata as regiões orientais, que designa por «Meia Lua». Pela primeira vez, Morales terá conseguido a vitória em Santa Cruz (o maior da Bolívia, situado no centro-Leste do país), antigo reduto separatista.
Sem o FMI estamos melhor
O percurso de Evo Morales à frente dos destinos da Bolívia tornou-se num «caso de estudo» para apoiantes e detractores, com a singularidade de uns e outros reconhecerem – porventura por não terem outro remédio – que se está perante um caso de sucesso.A verdade é que a Bolívia já não pode ser considerada um Estado pobre, apenas fornecedor de matérias-primas, submetido aos ditames das multinacionais e do imperialismo, e uma espécie de laboratório das políticas neoliberais.
Num artigo publicado no início do ano, o New York Times, insuspeito de simpatias pelo presidente de origem índia, reconhecia que os êxitos de Morales se deviam ao facto de ter abandonado «as recomendações do FMI e de outras fontes de financiamento». Para trás ficavam as «receitas» que em nome do combate à inflação impuseram cortes brutais nos programas sociais, fim dos subsídios a bem essenciais, privatizações, despedimentos em massa.
Com a chegada de Morales ao poder, em 2006, na sequência das eleições de 2005, tais políticas foram abandonadas. A exploração do gás – principal produto de exportação do país – foi renacionalizada e os lucros daí resultantes aplicados na melhoria das condições de vida da população, desde programas sociais a infra-estruturas, criação de emprego e aumento de salários. Em 2013, a subida das cotações do gás permitiram mesmo ao governo instituir o 14.º mês de salário para os funcionários públicos e parte dos trabalhadores do privado. As tentativas de boicote por parte dos empresários também não resultaram: o governo nacionalizou pelo menos vinte companhias, em diversos sectores de actividade.
«Sem o FMI estamos melhor», disse Morales ao intervir em Abril numa conferência internacional sobre os direitos indígenas em Santa Cruz de la Sierra. A afirmação nada teria de extraordinário não fora dar-se o caso de o FMI... estar de acordo.
No seu último relatório sobre a Bolívia, o FMI reconhece que o país mais pobre da América do Sul cresceu 6,5 por cento no ano passado, o melhor resultado em três décadas; que de 2007 a 2012 o crescimento médio anual do PIB foi de 4,8 por cento; que o crescimento previsto para este ano pode ser superior a cinco por cento.
Ana Corbacho, economista que chefiou a última missão de monitorização do FMI à Bolívia, afirmou mesmo em declarações à imprensa que o desempenho macro-económico do país, «activamente apoiado em políticas sociais, ajudou a aumentar em quase três vezes o rendimento médio da população e reduziu a pobreza e a desigualdade».
Sem abandonar a posição de princípio relativamente às nacionalizações, que considera terem um impacto negativo no «clima de negócios» e «enfraquecerem» a produção no sector da energia, o FMI – que tinha recomendado / imposto a privatização do sector – foi forçado a reconhecer que «no caso da Bolívia, a nacionalização do sector de hidrocarbonetos (petróleo e gás) forneceu claramente as receitas do governo».
Mais, o FMI reconhece que por essa via o governo de Evo Morales conseguiu reduzir a dívida pública, elevar os investimentos, acumular reservas internacionais, atrair capital externo produtivo.
Para que conste, o PIB passou de 9525 milhões de dólares em 2005 para 30 381 em 2013; o PIB per capita subiu de 1010 para 2.757 no mesmo período; o país terminou o ano de 2013 com 14 430 milhões de dólares em reservas internacionais, contra os 1714 milhões de que dispunha em 2005; a pobreza extrema baixou de 39 por cento em 2005 para 18 por cento em 2013 e a meta é erradicá-la por completo em 2025.
É caso para dizer que os bolivianos sabem bem por que votaram em Evo Morales e no seu governo.