Bombardeamentos imperialistas na Síria

Escalada de ingerência e agressão

Em dez dias, os EUA e os seus aliados efectuaram cerca de uma centena de bombardeamentos na Síria, campanha belicista considerada pelo PCP como «uma ameaça directa à integridade territorial do país».

A campanha belicista está a aproximar jihadistas rivais na guerra terrorista

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Os ataques imperialistas contra território sírio, iniciados na terça-feira, 23, e realizados até ao momento pelas forças armadas norte-americanas e pelas da Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bareine e Catar, são contínuos, admitiu à AFP um militar estado-unidense. A este ritmo, a ofensiva lançada a pretexto de punir o Estado Islâmico (EI) na Síria deverá ultrapassar rapidamente a intervenção aérea na Líbia, em 2011, constatou uma outra fonte do Pentágono citada sob reserva de anonimato pela mesma agência.

Os EUA alegam que estão a fustigar posições estratégicas entre os arredores de Aleppo, junto à fronteira com a Turquia, e Deir Ezzor, próxima do Iraque. Os poços e refinarias de petróleo desta última província, bem como a região e a cidade de Raqqa, onde o EI estabeleceu a sua sede, estarão a ser alvejados, de acordo com Washington, mas o facto é que as informações não dão conta do enfraquecimento dos jihadistas. Pelo contrário, diversos meios de comunicação social destacam que grupos islamitas que até agora disputavam com o EI a liderança, como a Frente Al-Nousra, ponderam unir-se na defesa do califado.

Ou seja, a campanha belicista, ao contrário do que os seus promotores dizem pretender, parece ter o condão de aproximar sob uma mesma bandeira facções rivais na guerra terrorista visando o derrube do governo sírio.

Para além do efeito agregador – que, diga-se, os EUA, potências como a França e a Grã-Bretanha, e os estados vassalos do Golfo Pérsico nunca conseguiram em três anos de agressão à Síria – os actuais bombardeamentos significam que o imperialismo alcançou um objectivo há muito perseguido: intervir directamente contra Damasco.

Barack Obama defendeu, em entrevista à CBS, domingo, 28, que os serviços secretos norte-americanos «subestimaram» o fortalecimento do EI e reconheceu que o actual envolvimento militar dos EUA tem «contradições». Insistiu no entanto no recurso à força. Opção que deverá contar com a participação da Grã-Bretanha e da Turquia, cujos parlamentos autorizaram já o envolvimento militar dos respectivos países.

Apesar da subestimação e contradição admitidas por Obama, Bélgica e Dinamarca também se disponibilizaram a integrar a «coligação» liderada pelos EUA, cuja mais alta patente, o general Martin Dempsey, considerou, por estes dias, que para derrotar o EI são necessários entre 12 a 15 mil combatentes «moderados» no terreno.

A declaração de Dempsey confirma que o plano aprovado por Washington para armar e treinar na Arábia Saudita cinco mil «opositores» a Bachar al-Assad e, simultaneamente, aos jihadistas, foi apenas o primeiro sinal de que o imperialismo não hesitará em voltar a enviar um contingente de ocupação para o Médio Oriente, mesmo que desta feita lhe chame «componente terrestre» da «guerra ao terrorismo».

 

PCP alerta

Reagindo ao início dos bombardeamentos dos EUA a pretexto do combate ao denominado Estado Islâmico, o PCP considerou que tal «constitui um novo passo na escalada de ingerência e de agressão contra a Síria, que atenta contra a sua soberania e representa uma ameaça directa à integridade territorial deste país.»

«Esta nova escalada belicista liderada pelos EUA – uma vez mais assente numa campanha de hipocrisia e mentira e realizada à margem do direito internacional e em desrespeito pela Carta das Nações Unidas –, coloca sérias questões quanto ao futuro do Iraque e encerra novos e trágicos perigos para os povos do Médio Oriente», acrescentou, em nota divulgada sexta-feira, 26, o Partido, para quem «se os EUA, com os seus aliados, quisessem efectivamente combater os grupos terroristas que assolam as populações da Síria e do Iraque, deveriam começar por cessar o seu apoio político, financeiro e militar a esses grupos e pôr fim à sua instrumentalização para desestabilizar a região e agredir estados soberanos que não se submetem aos projectos de domínio do imperialismo.»

«O que se impõe é a solidariedade e o apoio aos povos, como o sírio e o iraquiano, atingidos pela bárbara acção desses grupos e a clara rejeição de que, a pretexto do seu combate, se desenvolvam processos de ingerência, agressão e guerra movidos pelos interesses estratégicos dos EUA», afirma o PCP, que reitera, também, que «o fim da escalada de violência que ameaça arrastar os povos da Síria e do Iraque para um ainda maior desastre, exige o respeito pela sua soberania e independência nacionais e não novas aventuras belicistas, de que Portugal, no respeito pela sua Constituição e pela Carta das Nações Unidas, se deve resolutamente desvincular e firmemente condenar.»

O Conselho Português para a Paz e Cooperação denunciou igualmente «os ataques dos EUA em território da Síria (…) como mais um estratagema na sua já longa história de interferência e de desestabilização» e expressou «toda a sua solidariedade às populações síria e iraquiana, saudando, de forma especial o movimento da paz sírio, membro do Conselho Mundial da Paz.»



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