Palestinianos desiludidos com UE
Os palestinianos sentem uma profunda desilusão com o papel da UE e do Parlamento Europeu, diz em entrevista ao Avante! Miguel Viegas, que esteve na Palestina integrado numa delegação de deputados do Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica.
Apesar de terem sido impedidos de se deslocarem à Faixa de Gaza pelas autoridades israelitas, que elementos recolheste junto de palestinianos e israelitas sobre a recente ofensiva sionista contra o enclave?
Ao longo dos quatro dias intensos que durou a nossa estadia, contactámos um vasto número de pessoas e organizações israelitas que defendem os direitos civis, entre as quais aquela que agrupa militares que recusam combater nos territórios palestinianos, e com organizações palestinianas. Reunimos igualmente com membros do partido trabalhista e do Hadash (comunista judeu e árabe) do parlamento de Israel (Knesset) que nos testemunharam da enorme pressão a que estão sujeitos numa conjuntura fortemente dominada pela direita e ultra ortodoxa. Refira-se que do actual governo fazem parte três ministros que residem em colonatos instalados em territórios palestinianos. Do lado palestiniano, visitámos igualmente um conjunto diversificado de organizações políticas e administrativas. Fomos recebidos por diversos presidentes de Câmara e governadores regionais, visitámos hospitais onde se encontram em tratamento vítimas dos bombardeamentos a Gaza. Reunimos com as várias forças que compõem a OLP e tivemos um encontro com o primeiro-ministro do Governo de Unidade Nacional que conta com o apoio do Fatah e do Hamas.
Nestes contactos, as atrocidades cometidas em Gaza mereceram um amplo repúdio que foi crescendo à medida em que se ia fazendo o apuramento dos efeitos e das circunstâncias em que ocorreram os massacres. Os horrores foram de tal ordem que motivaram a realização de uma inédita manifestação de 10 mil pessoas em Tel-Aviv contra a agressão.
Esta agressão, pela sua dimensão e crueldade, traz à memória os piores horrores vividos durante a Segunda Guerra Mundial. Esta agressão não pode ser considerada como apenas mais um episódio numa guerra de ocupação que se arrasta desde 1947. Devemos exigir e tudo fazer para que os criminosos sejam julgados e condenados pelos inúmeros crimes contra a humanidade que ali foram cometidos e que violam todas as convenções internacionais subscritas quer por Israel, quer pelos Estados Unidos e pelos países da União Europeia.
Sobre as questões que obstaculizam o processo de paz, o que te transmitiram as forças políticas e organizações palestinianas e quais as perspectivas?
As negociações estão neste momento num impasse. E estão num impasse porque Israel, com o apoio dos EUA e da UE, persiste em boicotá-las. Recusa pronunciar-se sobre as propostas palestinianas e mantém a sua política de instalação de novos colonatos, minando assim qualquer acordo. Neste momento, e apesar das condenações formais dos EUA e da UE, Israel ocupou de forma ilegal mais uma parcela da Cisjordânia (em Belém) onde pretende instalar mais um colonato. Isto diz tudo sobre a vontade de Israel em sentar-se à mesa das negociações.
Da parte do povo palestiniano e do seu governo não existem ilusões. Só o fim do apoio político e material dos EUA e da UE poderá forçar Israel a voltar ao processo de paz e a honrar os compromissos que foi assinando em diversos acordos e que passam pelo reconhecimento do Estado Palestiniano de acordo com as fronteiras de 1966 e capital em Jerusalém Leste. Neste sentido existe uma profunda desilusão com o papel da UE e do Parlamento Europeu que não foram capazes de condenar Israel nesta agressão, aprovando uma resolução vergonhosa de equidistância entre as partes, apesar do voto contra do PCP e do GUE/NGL.
Estiveste em Jerusalém e em Ramallah. Tiveste oportunidade para contactar com populares palestinianos?
Para além de Jerusalém e Ramallah, estivemos também em Belém e Hebrom. Nestas localidades fomos sempre recebidos pelas autoridades locais e contactámos igualmente com as populações. A sensação que fica destes contactos é de um povo culto e com grande consciência política. Um povo que compreende claramente a natureza do processo de ocupação bem como a importância de uma resposta política de resistência firme mas não violenta. Quando visitámos Hebrom, vimos uma cidade sitiada, onde existem 104 postos de controlo onde de forma arbitrária os palestinianos são revistados e obrigados a esperar longas horas para percorrer distâncias de escassas centenas de metros. Em algumas ruas, os colonos ocupam os primeiros pisos das casas de onde deitam de forma ostensiva lixo para baixo, obrigando os palestinianos a usar redes para evitar que as ruas se transformem num lixeira (ver foto). Este exemplo que pode ser replicado por centenas de outras localidades, deixa antever uma estratégia clara de provocação, procurando alimentar reacções desesperada por parte da população palestiniana e justificar assim mais carnificinas.
Com este quadro de contínua agressão, só um povo profundamente unido e politicamente maduro poderia resistir a tantos anos de ocupação. Contudo, importa compreender que tudo tem os seus limites. Pela nossa parte, como comunistas, temos a obrigação de continuar a dar todo o nosso apoio a esta luta heróica e confrontar os nossos governos com as suas amplas responsabilidades neste processo.