Das sombras à realidade na Ucrânia
Se nenhum matemático contestar a nossa lógica de que dois mais dois são quatro, se o sol por estes dias nascer a Este e se puser a Oeste, se para chover continuar a ser necessário haver nuvens e o céu azul não bastar, se para nascer um cereal for necessário uma semente, se o mundo não é a preto e branco, se a realidade continuar a ser anterior à ideia, enfim, se não tivermos sido ultrapassados pela relatividade do nosso conhecimento, se não apenas o matemático nos contradisser mas um conjunto de outros cientistas ou filósofos repetir tão pequena proeza, não será mais o mundo o mesmo, reduzido a sombras estará muito do que julgávamos saber, verdades subvertidas por um novo conhecimento. Foi Galileu que disse e não nós: «Todas as verdades são fáceis de entender, uma vez descobertas. O caso é descobri-las». Algo já teremos descoberto e entendido, não somos uma tábua rasa, nem nos arrogamos no entanto de ser a verdade, a mais não aspiramos do que a criá-la e recriá-la colectivamente na transformação revolucionária da sociedade, incorporando a imaginação que é mais do que apenas a realidade e o seu conhecimento, nada de dogmático existirá nesta prática embora não poucas vezes disso sejamos acusados, o poder dominante quer reduzir-nos a existência a um mundo de sombras, como na Alegoria da Caverna de Platão, querem conformar-nos a existência ao interesse dominante de um capitalismo cuja fétida putrefacção arrasta para o caos e a miséria milhões de seres humanos. Já lá vai um quarto de texto, o título persegue-nos, parece que até nós impomos ao leitor uma visão exclusiva de sombras, nada de realidade ou pelo menos da nossa perspectiva sobre ela, aumenta a expectativa, tudo parece ser um exercício de elucubração, limitamo-nos a juntar palavras umas às outras e não mais, se não são assim todos os textos, da sintaxe nem falamos, ficará para outros especialistas. Tudo para chegar a este ponto e explicar o caso grave de ir o Parlamento Europeu (PE) votar esta semana o chamado Acordo de Associação com a Ucrânia, acto que decorrerá em simultâneo no parlamento desse país, assim terá sido acordado entre o oligarca de serviço no poder da Ucrânia (após o golpe de Estado e a tomada do poder pelas forças nacionalistas e fascistas) e Martin Schulz, presidente do PE (deputado do SPD alemão). No momento em que escrevemos esta crónica não sabemos ainda qual será o desfecho da votação, mas se algo existe de verdade no que foi escrito no primeiro parágrafo, se dois mais dois são quatro e se o sol brilha porque o não impedem as nuvens, a maioria dos deputados do PE (direita e social-democracia) celebrá-lo-á entusiasticamente, pouco importando que não tenham visto o texto do acordo que irão votar, que em Kiev a votação se faça quando os deputados do Partido Comunista da Ucrânia viram o seu grupo parlamentar dissolvido e que esteja em curso um processo de ilegalização do Partido, ou que a votação se faça entre a fronteira indistinta e contraditória da realidade e da sua sombra, quando o acordo que motivou o golpe poderá nunca vir a ser aplicado. Menos ainda importará que este acordo tenha sido negociado pelo poder golpista depois do presidente deposto se ter recusado a assiná-lo no ano passado. Homens e mulheres na sombra mediática que manipula a situação na Ucrânia, que apresente o agressor como agredido numa guerra entre o poder fascista instalado em Kiev pelos EUA, pela NATO e pela UE e aqueles que no Leste deste país decidiram fazer-lhe frente para lutar pelos seus direitos nacionais e de classe. Na sombra surgirá a defesa dos Direitos Humanos, da democracia e dos valores europeus, para além dela, na realidade, surge a imposição do ambicionado acordo de comércio livre e do programa do FMI que assegura aos grandes grupos económicos da UE a sua fatia na colonização da economia ucraniana, com a brutal limitação da sua soberania e independência e com uma ainda maior exploração dos trabalhadores e do povo deste país. Na sombra desta realidade dir-se-á que é um contributo para a paz, para lá desse vulto, surgem os perigos que decorrem do ambicionado alinhamento da Ucrânia com a UE e os EUA no cerco à Rússia, numa maior integração na NATO.
É para denunciar as sombras, mostrar a realidade, explicar e apontar caminhos para a sua transformação que cá andamos.