- Nº 2125 (2014/08/21)

Máfias

Opinião

Segundo decisão do ministro da Saúde, Paulo Macedo - senhor do califado -, em Setembro próximo vai avançar a «cobrança coerciva das taxas moderadoras hospitalares em atraso».

Trata-se de pôr a máquina central das Finanças ao serviço da cobrança de ninharias (sem prejuízo dessas pequenas verbas serem um fardo pesadíssimo para dois milhões de reformados, a sobreviver na miséria). Acresce que muitas das cobranças serão feitas a favor de privados, por via das «parcerias público-privadas» de muitos hospitais e, pior do que tudo, esta ganância imbecil para arrecadar receitas a qualquer preço vai ocupar toda a máquina fiscal, e as suas competências altamente especializadas, desviando-a, decorrentemente, da tarefa central da sua existência: o escrutínio, o combate e o sancionamento da grande fuga aos impostos e da oleada fraude fiscal, de proporções gigantescas.

Quem irá exultar com esta anexação das Finanças às pequenas coimas vai ser, evidentemente, a casta de labregos chico-espertos da fuga ao fisco em grande escala.

Mas há mais dois pontos a considerar.

O primeiro, é a ilustração do que move o actual califa da Saúde, com esta ideia de esportular, sobretudo aos reformados que vivem, aos milhões, na indigência ou perto disso, esta taxa vergonhosa que mostra há longos anos o real conceito que PS e PSD têm do preceito constitucional de um SNS tendencialmente gratuito. Mas ilumina igualmente o objectivo do ministro Macedo em destruir o Serviço Nacional de Saúde, tout court.

O segundo evidencia a prepotência governamental de pôr os serviços das Finanças a cobrar geometricamente, como é de uso na casa, pequenas coimas cometidas não apenas por utentes do Serviço Nacional de Saúde, mas também por quem frequenta autoestradas e não paga as portagens. Este último exemplo já se celebrizou com o caso de um cidadão que, ao fazer uma viagem sem pagar portagem nos vários pórticos do percurso, viu-se confrontado com um pagamento compulsivo às Finanças não de uma infracção, mas de várias, registadas uma por cada pórtico e multiplicado tão geometricamente, que uma conta de uma dúzia de euros já ia nos vários milhares.

Acontece que a cobrança de taxas nas portagens das autoestradas é inteiramente privada, tal como a cobrança das taxas modcradoras em grande número de hospitais é igualmente privada, dado o estatuto de parceria público-privada desses hospitais ser como se sabe: o Estado paga as infraestruturas e os privados exploram-na a seu bel-prazer.

O Executivo Passos/Portas está a utilizar as Finanças como peça instrumental, e de uso discricionário pelo Governo, ao serviço já não do Estado português, mas dos grandes interesses económicos privados.

Já faz lembrar uma visão mafiosa do uso do poder político, em Portugal.


Henrique Custódio