É preciso ouvir cantar Gaza

Nuno Gomes dos Santos

«Mulheres e crianças, da mesma maneira / assassinadas e massacradas noite após noite / enquanto os chamados líderes de países longe / discutiam o que estava certo ou errado / mas as suas palavras impotentes eram inúteis / e as bombas caíram como uma chuva ácida. / Mas por entre as lágrimas, o sangue e a dor / ainda podes ouvir essa voz no meio das nuvens de fumo».

O autor da explêndida cantiga «We Will Not Go Down (Song for Gaza)», de cuja letra transcrevo um excerto, é o sírio-americano Michael Heart, que põe o dedo na ferida no que diz respeito às reações das «potências» e das «instâncias» internacionais ao que se está a passar e se passou antes, ou seja, ao que está a ser interminavelmente repetido no chamado conflito israelo-palestiniano. Vem ao caso referir que houve já quem falasse de genocídio, contra-argumentando os EUA que o número de mortos não justifica o designativo, assim como quem estabelece um numerus clausus para determinar quantos mortos é preciso para se falar de genocídio, valham-nos os deuses, cada vez mais as pessoas são números, querem eles lá saber do Ismael ou do Ibrahim, ou dos filhos e das mulheres deles, morreram muitos mas não chegaram para se falar de tragédia, de desumanidade, de... genocídio. Santas almas!

Volto, outra vez, a falar de canções. Roger Waters e os Pink Floyd adaptaram o célebre «We Shall Over Come», que nos lembra outra adaptação da canção sul-africana feita por Pete Seeger, acrescentando ao título original «Song for Gaza» e algumas palavras a propósito: «Vamos deitar abaixo os muros da prisão / vamos derrubar esses muros da prisão / juntos derrubaremos os muros da prisão um dia».

Escrevo isto no dia em que o exército israelita, invasor da Faixa de Gaza, acaba de destruir um terceiro andar de um hospital palestino. Muitas mortes, evidentemente. E pergunto que coragem será essa, travestida de desumanidade e arrogância, que cobardia pode ser arvorada em conquista, matando não só mulheres e crianças, mas doentes, decerto, todos estes, uma ameaça à ideia de um país que não existia e foi inventado por quem não arranjou outro local para o implantar a não ser este, onde palestinos se entretinham a viver as suas vidas, lamentável ideia essa quando tantos lugares no mundo poderiam albergar um país que nunca houve, mas que queria sê-lo, pois muito bem, seja-o, mas apenas exista e não enxote, de mata-moscas em punho (quem dera que fossem moscas os enxutados...) as pessoas árabes que por ali estavam a viver as suas vidas até que se viram usurpadas das terras e das ideias que pacificamente tinham e que eram, apenas, estar ali, se faz favor, que culpa temos nós que os nazis tivessem feito o que fizeram, seria mais justo exigir aos boches dividendos.

Porém, a arrogância, o nariz empertigado, não dos judeus, que não é deles que se trata, benza-os deus, o deles e os dos outros, romanos, islâmicos ou bizantinos, mas do Estado de Israel, querem virar a vida do avesso. Foram alvo de uma ideologia que os queria dizimar? Pois foram. Mas não eram o alvo único, a julgar pelas mortes de tantos outros, franceses, polacos, soviéticos e por aí. E não é fazendo o que a Alemanha (e os coniventes...) lhes fizeram que se redimem, porque o que fazem não é redenção, é a vingança cobarde de quem, não podendo atingir o verdugo, atinge quem lhe está mais à mão e tem menor potencial, aliando-se, vergonhosamente, a quem os humilhou, como se a História fosse feita de nuvens de fumo a esconder pessoas, dramas, vidas, opções.

Não basta olhar. É preciso ver. Se ajudar, vale a pena, também, ouvir. Não terão o agradecimento de Michael Heart ou de Roger Waters, que não foi para vénias que se empenharam, musicalmente, na denúncia que cantaram. Nem deverão ter o obrigado de ninguém. A postura vertical e digna não se agradece. Saúda-se.




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