O mau conselho

Correia da Fonseca

O telespectador ainda não totalmente formatado pelos conteúdos dominantes na televisão que lhe é fornecida ao domicílio e que de um modo ou de outro paga (quer pela chamada taxa do audiovisual quer pelo custo publicitário que, não o esqueçamos, é integrado nos produtos que vai adquirindo ao longo dos dias) olha, ouve, e não gosta de muito entre o que diariamente lhe é impingido. Reflecte então que a televisão devia ser uma outra e melhor coisa, um convívio que não o diminuísse, uma companheira que não o tomasse por parvo ou não se esforçasse tanto por emparvecê-lo, uma voz que não lhe mentisse. E ao lembrar-se de que além de telespectador também é cidadão, o que sobretudo em certos momentos acontece a alguns com frequência, esporadicamente a outros, ocorre-lhe que talvez tenha direitos, que é capaz de haver um quadro ético e cívico adequado a estas coisas. Que pode e talvez deva ter uma iniciativa que corresponda ao desejo de dizer que não, que não quer aquele caudal tantas vezes fétido que lhe entra casa adentro e até pode infectar-lhe a família com vírus depois muito difíceis de eliminar, que há-de haver uma outra TV a que todos temos direito. É claro que não é nada fácil, bem se pode dizer que é raro, passar desse irritado desconforto para uma acção que se atreva a reivindicar soluções a orelhas moucas porque o querem ser e cujo conforto é garantido por essa mesma condição: se, como muito se diz, o segredo é a alma do negócio, a surdez de quem põe e dispõe na televisão será alma da sua tranquilidade e da bênção dos poderes que lhe são superiores. Mas, mesmo contra incómodos e dificuldades, até contra a inverosimilhança do êxito, há, como se sabe, sempre alguém que diz «não».

Direito de autodefesa

Essa possibilidade de recusa expressa e eventualmente contagiosa será desagradável para os que se sentem mais atraídos pela tranquilidade da resignação, da adaptação supostamente realista ao que é e talvez não possa deixar de ser. Será esse o caso de um sujeito decerto excelente que um dia destes veio à televisão falar de comunicação e TV, decerto na sempre invejável qualidade de especialista, e de passagem abordou esta infelicidade social que são os muitos momentos de televisão feia, porca e má, embora naturalmente ele, especialista e decerto cavalheiro bem educado, se tenha dispensado de usar estes qualificativos. Em compensação, brindou-nos com um conselho que permitirá contornar tais situações sem as asperezas de uma contestação: «quem se incomoda, muda de canal!», disse ele, assim apontando a rota pacífica para um convívio amplo e sem conflitos. É, como bem se vê, a adaptação do secular «quem está mal que se mude!» que é entendido como o bom remédio para quem não se sinta bem perante isto ou aquilo, alternativa pacífica ao eventual impulso para resistir a infâmias, eliminar abusos, recusar a cumplicidade pelo silêncio consentâneo. Acontece, porém, que a qualidade do continuado fluxo televisivo é ainda hoje, apesar da galopante evolução das comunicações por via electrónica, o lugar onde em enorme parte se decide a opção entre o entendimento das coisas e a ignorância convencida, a lucidez e o engano, a solidez de caminhos e o pântano da televisão como droga aparentemente leve mas de efeitos continuados. Pelo que, perante um momento televisivo que eventualmente «incomode», para usar aqui a palavra tendencialmente eufemística utilizada pelo especialista, o dever cívico ou até o elementar direito de autodefesa recomendam que se rejeite o mau conselho e que não se mude imediatamente de canal, mas sim que se fique para medir a toxicidade do momento e, num segundo tempo, reagir, contra-atacar. Perguntar-se-á como. Responder-se-á que, no mínimo, tentando «avisar toda a gente, dar notícia, informar, prevenir». O que de facto, em maior ou menor grau, pode ser feito por qualquer um. O que, na verdade, é afinal o que mais cumpre à crítica de televisão, esteja ela onde estiver.




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