Não constituirá novidade para ninguém o facto das comemorações do 40.º aniversário do 25 de Abril estarem a ser objecto de um intenso aproveitamento no plano ideológico por parte das classes dominantes e dos seus representantes no plano político.
Foi assim noutros momentos, com vastas operações de branqueamento do fascismo, deturpação do processo revolucionário, apagamento e calúnia sobre o PCP, desvalorização das conquistas da Revolução, promoção das forças que conspiraram contra Abril, e outras variantes de um amplo arsenal que, procurando ajustar contas com o passado, visaram sobretudo condicionar o presente e o futuro da nossa realidade colectiva.
Neste ano, com a procissão ainda no adro e a requerer posterior sistematização, há uma tónica que une não só velhos protagonistas deste processo, mas também outros, mais recentes, mas com igual apetência para a mentira e a manipulação.
Nas dezenas de entrevistas, artigos, conferências e iniciativas diversas, ecoam em inúmeras gargantas concepções populistas e antidemocráticas, com particular incidência no discurso antipartidos.
Tirando partido da profunda crise em que o País se encontra e do amplo descontentamento provocado pelo crescente empobrecimento e exploração que atinge largas camadas da população, o discurso contra o regime democrático – que envolve também o questionamento da Constituição de Abril – tende a transformar-se numa espécie de «ideologia ambiente». Tais teses, visam o branqueamento da política de direita e dos seus protagonistas – o PS, o PSD e o CDS – e a responsabilização daqueles que combateram esse rumo, em particular o PCP; visam a absolvição do grande capital e o apagamento da natureza de classe das opções que são tomadas; visam canalizar o descontentamento não para uma real e necessária alternativa, patriótica e de esquerda, mas para o regaço dos interesses dominantes.
Tais teses, que aliás se inserem numa ofensiva mais ampla no plano nacional e não só, mesmo quando enfeitadas de bonitas e apelativas palavras sobre a liberdade e a democracia não se afastam muito, na sua essência, dos discursos que perigosamente conduziram ao 28 de Maio de 1926.