Grândola

Nuno Gomes dos Santos

Há 40 anos foi o cabo dos trabalhos. Era então um espectáculo com gente proibida, quer-se dizer: um concerto amputado antes de nascer, estarão lá as pessoas, as vozes das pessoas com microfones abertos para as receber. Porém, que palavras entoariam essas vozes, que versos rimariam acertadamente com a vontade das pessoas, as do palco e as da plateia, ampla e ávida. Porém, bastou o Manuel Freire dizer que vinha de Ovar, de combóio e com janela aberta, antecipadora de ventos sonegantes de palavras, vai daí voaram os papéis janela fora, pobre do Manel que não sabia as letras de cor e vai de cantar umas frases com la-la-las entremeados, desculpem qualquer coisinha.

Faltavam poucos minutos para abrir o pano e era um alvoroço, vais cantar o quê, talvez nada, talvez entoar pedaços e o público há-de saber cantar o resto, sei lá, e eis senão quando um ex-colega meu na universidade, Felipe com E mas pronto, se dirigiu a mim, peão no tabuleiro onde, acertadamente e com unanimidade de votos dos demais, se perfilavam o Zeca, o Adriano, o Manuel Freire, me deu um abraço de ocasião e eu grato, sabe sempre bem ser reconhecido por alguma coisa e eram as cantigas, e era o Introito, e era o sonho de «há-de nascer uma rosa dos espinhos do meu povo», como cantávamos, convictos e desafiantes, e estava na hora, aos seus lugares, o Tordo nervoso sem saber qual seria a sua vez, o Carlos Moniz e a Maria do Amparo serenos, o Zeca sentado no chão a matutar, vamos a isto. E fomos.

Na hora de começar, esse tal meu colega, rodeado de outros, aperaltados e de sorriso escarninho embutido na fuça, encheu os pulmões de ar e vociferou nos bastidores Vamos estar atentos às cantigas! Tomem cuidado!, e eu atónito, e eu à rasca, e eu a dizer que não sabia, que só conhecia o gajo da faculdade, sabia lá que o energúmeno estava ali em nome da censura, dos ventos que fizeram voar os poemas que o Manuel Freire gostaria de ter cantado e não cantou, maldito abraço dado como um beijo de Judas, aceite com a ingenuidade de um crente na palavra do futuro sem cuidar dos olhos e ouvidos do imperador, t'arrenego, Felipe com E, quantos como tu estarão por essa plateia disseminados.

E estavam. Muitos. Censores, polícias de turno e agentes de soturno, esbirros, dêgêésses, bufos. A ouvir atentamente as palavras cantadas, as palavras escondidas, as frases ditas na apresentação da cantiga seguinte, escorregantes, apregoadas em fintas a que estávamos habituados, isto quer dizer aquilo que vocês sabem e não, exactamente, aquilo que acabei de proclamar, palmas a corroborar o entendimento da mensagem camuflada.

Eram cinco mil ou mais. Era um Coliseu de Lisboa cheio. Eram violas acústicas amplificadas por microfones colaborantes e ainda assim fomos entendidos, na melodia e nas palavras, parcas como já se disse, que a música veiculava.

O castrador lápis azul funcionou. Não cantámos o que queríamos. Mas cantámos. E o Zeca, a quem só tinham autorizado cantar o Milho Verde e a Grândola, ergueu a voz e disse, com todos nós atrás, a segui-lo, a confirmá-lo, «o povo é quem mais ordena».

Menos de um mês depois, na rádio, a canção disparou um enorme ramo de cravos rubros que enfeitaram espingardas, vontades, sentimentos, esperanças, alegrias. A Liberdade vencia 48 anos de opressão. Com uma canção a dar o tiro de partida.

Foi o sonho de um povo. Foi a consequência de uma luta heróica e dolorosa. Foi o quebrar das grilhetas que prendiam os corpos mas não encarceravam esperanças. Foi a vontade de gente fardada abraçada ao querer de muita outra gente municiada com a força enorme que armou a certeza de uma liberdade desejada.

Foi tudo isso. Mas, tudo isso, foi anunciado – e agora lembrado, 40 anos depois – numa noite em que o Coliseu de Lisboa foi palco de um primeiro grande levantamento popular. Cantou-se a Grândola. Fazia falta avisar a malta, em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade.

Afinal, a «vila morena» era um país. Soubemo-lo quando assumimos a cantiga e lhe demos a voz que nos era pedida. Porém, é preciso que não esqueçamos a mensagem. É preciso que não cantemos da boca para fora, assim como quem trauteia com tiro-liro-liros uma música cuja letra se esqueceu. Esta afirma: «o povo é quem mais ordena»! Esquecer a letra é não admitir que, neste campeonato, a derrota pode acontecer por falta de comparência.




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