Entrevista a Rodrigo Francisco
director do Teatro Municipal de Almada

«Nunca nos abandonem»

A As­so­ci­ação Por­tu­guesa de Crí­ticos de Te­atro atri­buiu o Prémio da Crí­tica ao Fes­tival de Al­mada, que este ano terá lugar de 4 a 18 de Julho. Em en­tre­vista ao Avante!, Ro­drigo Fran­cisco, di­rector do Te­atro de Al­mada, de­dicou esta dis­tinção ao pú­blico «que não cheira a per­fumes caros» como em ou­tros fes­ti­vais e que acom­panha a Com­pa­nhia desde os fi­nais dos anos 70 do sé­culo pas­sado. Mas esta é também uma ho­me­nagem e um re­co­nhe­ci­mento aos ac­tores, téc­nicos e tra­ba­lha­dores que, ao longo dos úl­timos 30 anos, têm cons­truído o Fes­tival de Te­atro de Al­mada e, como não po­deria deixar de ser, a Jo­a­quim Be­nite, fa­le­cido a 5 de Ou­tubro de 2012, que fundou a Com­pa­nhia de Te­atro de Al­mada e que agora dá nome a uma das mai­ores e mais im­por­tantes salas de es­pec­tá­culos do País: o Te­atro Mu­ni­cipal de Al­mada.
Ro­drigo Fran­cisco falou-nos ainda da peça «Um dia os réus serão vocês», que es­teve re­cen­te­mente em terras de «Vera Cruz» e que vol­tará aos palcos na­ci­o­nais e in­ter­na­ci­o­nais, bem como do fu­turo da Com­pa­nhia.

 

«O Jo­a­quim es­tará sempre pre­sente em tudo aquilo que nós fa­çamos»

Aca­baste de chegar do Brasil, de São Paulo (Te­atro João Ca­e­tano), onde foi apre­sen­tada a peça «Um dia os réus serão vocês», ba­seada na de­fesa apre­sen­tada por Álvaro Cu­nhal pe­rante o tri­bunal fas­cista que o julgou, em Maio de 1950, e que é um dos mais no­tá­veis textos po­lí­ticos da his­tória do PCP e da pró­pria re­sis­tência an­ti­fas­cista em Por­tugal. Como surgiu este con­vite?

O Te­atro é um mundo pe­queno e, hoje, com as fa­ci­li­dades que existem de co­mu­ni­cação, uma pessoa que está em Hong Kong sabe que fi­zeste um es­pec­tá­culo em Por­tugal. Assim, uma pro­du­tora bra­si­leira, que or­ga­nizou uma pri­meira mostra de Te­atro Por­tu­guês Con­tem­po­râneo, con­vidou-nos, uma vez que tí­nhamos este es­pec­tá­culo, que tem a ver com a re­a­li­dade por­tu­guesa, no âm­bito do ani­ver­sário dos 40 anos do 25 de Abril.

Nós [Com­pa­nhia de Te­atro de Al­mada], a Com­pa­nhia de Te­atro de Braga e a Com­pa­nhia de Te­atro do Al­garve es­ti­vemos em São Paulo nessa pri­meira mostra de Te­atro por­tu­guês, com uma di­mensão bas­tante mo­desta, mas que re­sultou em al­guns con­tactos in­te­res­santes.

Que pú­blico as­sistiu ao es­pec­tá­culo?

Desde a ge­ração de por­tu­gueses que foi viver para São Paulo até aos mais jo­vens, com cerca de 30 anos, que qui­seram as­sistir ao es­pec­tá­culo e que ali ti­veram a opor­tu­ni­dade de sentir o pulso à cri­ação por­tu­guesa te­a­tral con­tem­po­rânea.

Mas também muitos bra­si­leiros. Tí­nhamos medo que eles não nos per­ce­bessem porque a nossa forma de falar, para eles, é um pouco «es­qui­sita». Mas o es­pec­tá­culo foi bas­tante cui­dado e o pró­prio Luís Vi­cente, actor que faz de Álvaro Cu­nhal, teve em conta essa cir­cuns­tância e falou mais pau­sa­da­mente.

Há uma grande cu­ri­o­si­dade por parte dos bra­si­leiros sobre a fi­gura de Álvaro Cu­nhal. Le­vámos um ca­derno de textos, edi­tado a pro­pó­sito da peça, que eles ad­qui­riram e, no final, fi­zeram-nos muitas per­guntas.

Este é um es­pec­tá­culo que tem cau­sado bas­tante in­te­resse. Há já um con­vite para es­tarmos em Se­tembro no Rio de Ja­neiro e em Maio vamos par­ti­cipar num fes­tival de Te­atro de jo­vens en­ce­na­dores em Lu­bliana, na Es­lo­vénia.

Para os di­rec­tores de fes­ti­vais e de te­atro es­tran­geiros in­te­ressa-lhes aco­lher es­pec­tá­culos que te­nham a ver com a cul­tura por­tu­guesa, no­me­a­da­mente a con­tem­po­rânea, e a fi­gura de Álvaro Cu­nhal ul­tra­passa as fron­teiras do nosso País, ha­vendo vá­rias ge­ra­ções de ho­mens e mu­lheres que co­nhem este nome mas que não têm muitas in­for­ma­ções sobre ele.

Qual a re­acção do pú­blico à peça? Sen­tiram-na como uma ho­me­nagem a todos, ho­mens e mu­lheres, he­róis anó­nimos que de­di­caram as suas vidas à de­fesa da li­ber­dade? Afinal, o Brasil viveu sob di­ta­dura mi­litar entre 1964 e 1985...

Uma pessoa, já de al­guma idade, veio falar co­migo e disse-me que co­nhecia Álvaro Cu­nhal, uma re­fe­rência para o povo bra­si­leiro du­rante a di­ta­dura mi­litar. Res­pondi-lhe que em Por­tugal, a maior di­ta­dura da Eu­ropa, que durou 48 anos, também pre­ju­dicou o de­sen­vol­vi­mento do Te­atro no nosso País, com uma série de au­tores proi­bidos, de «coisas» que não se po­diam dizer nem fazer e que co­artou a ge­ração de Jo­a­quim Be­nite, de Luís Mi­guel Sintra, de Jorge Silva Melo, João Lou­renço, João Mota, pes­soas que co­me­çaram o te­atro no final dos anos 60 e início dos anos 70, e que ti­veram bas­tante di­fi­cul­dade para se impor.

Face ao su­cesso da peça, sempre com lo­ta­ções es­go­tadas e que em Por­tugal já per­correu 10 ci­dades, existem so­li­ci­ta­ções para que a mesma volte a cena?

Este ano já temos agen­dados es­pec­tá­culos em Bar­celos em Mon­temor-o-Novo. Em Al­mada vamos ter um ciclo sobre os 40 anos do 25 de Abril em que apre­sen­tamos esta peça «Um dia os réus serão vocês». De­pois temos a peça «Não fa­larei nem que me matem», sobre Carlos Costa, de Marta Freitas, e uma peça de Luísa Costa Gomes, um mu­sical di­ri­gido por An­tónio Pires, in­ti­tu­lado «De­pois da Re­vo­lução».

Entre 24 e 27 de Abril vamos ter três es­pec­tá­culos em que o pú­blico vai poder passar de uns para os ou­tros e fazer com­pa­ra­ções entre três vi­sões di­fe­rentes sobre o 25 de Abril.

En­tre­tanto, o Fes­tival de Te­atro de Al­mada foi dis­tin­guido com o Prémio da Crí­tica 2013 pela As­so­ci­ação Por­tu­guesa de Crí­ticos de Te­atro, para quem o Fes­tival de Al­mada é «um caso exem­plar do Te­atro Por­tu­guês». A que se deve este su­cesso?

De­di­quei o prémio ao pú­blico, porque ele é a grande marca do Fes­tival. Vou a muitos fes­ti­vais, no es­tran­geiro e em al­gumas salas do nosso País, e, de facto, este nosso pú­blico de Al­mada é fruto da ac­ti­vi­dade da Com­pa­nhia desde o fim dos anos 70, al­guns mantêm-se desde essa al­tura, mas também novas ge­ra­ções que foram sendo for­madas graças à ac­ti­vi­dade de ani­mação cul­tural.

Logo a se­guir ao final dos anos 70 dá-se um mo­vi­mento de des­cen­tra­li­zação cul­tural e houve pro­jectos de cri­ação, de pólos, tanto em Évora como em Al­mada, cujos frutos se vêem agora no nosso Te­atro.

Toda a gente que vem ao Fes­tival fica es­pan­tada com a quan­ti­dade de pú­blico e a sua di­ver­si­dade. É um pú­blico di­fe­rente, que não cheira a per­fumes caros. Nós, às vezes, vamos a certos fes­ti­vais, de Avignon, de Edin­burgo, e vemos que aquela gente não é re­pre­sen­ta­tiva do povo da­quele país. São certas pes­soas que têm acesso a certo tipo de bens cul­tu­rais e de­pois há uma grande fas­quia da po­pu­lação que está afas­tada.

O Fes­tival de Al­mada é muito mais ecléc­tico, o pú­blico é muito mais ecléc­tico, porque a as­si­na­tura para ver todos os es­pec­tá­culos custa à volta de 70 euros [três euros por es­pec­tá­culo].

O di­nheiro não é aqui um factor di­fe­ren­ci­ador, e, quando assim é, con­segue criar-se esta mis­ce­lânea de pú­blico. Agrada-nos estar em al­gumas salas de Lisboa, ca­rac­te­ri­zadas como sendo mais «eli­tistas», e ver o nosso pú­blico en­trar por ali dentro e ver como se mis­tura. Essa foi uma das grandes li­ções que tive do meu mestre [Jo­a­quim Be­nite] que foi amar o pú­blico, fazer te­atro para as pes­soas e em cons­tante diá­logo com o pú­blico.

Quando fomos re­ceber o prémio ao Porto foi um au­to­carro cheio de pú­blico do Fes­tival, quatro horas para lá e quatro horas para cá, com pes­soas que se sa­cri­fi­caram porque sen­tiram que aquele prémio também era delas.

Para além do pú­blico, esta foi também uma ho­me­nagem ao di­rector, aos ac­tores, aos téc­nicos e aos tra­ba­lha­dores que, ao longo dos úl­timos 30 anos, têm cons­truído o Fes­tival...

Esta casa sempre tra­ba­lhou nesse sen­tido. O actor é a face vi­sível do es­pec­tá­culo, mas por de­trás dele está o tra­balho dos téc­nicos e de toda a gente que tra­balha neste Te­atro. O Te­atro é, talvez, a mais co­lec­tiva das artes, porque es­tamos todos muito in­ter­de­pen­dentes uns dos ou­tros. O ma­qui­nista tem que fazer subir uma cor­tina, se não o actor não apa­rece. O lu­mi­no­téc­nico tem que se pre­o­cupar que a luz entre na al­tura certa, se não o actor não está vi­sível. A pessoa que faz o som tem que se pre­o­cupar para que os ní­veis se man­te­nham.

Na­quelas duas horas em que a peça dura há ali duas de­zenas de pes­soas a tra­ba­lhar em si­mul­tâneo, já para não falar em todos aqueles que tra­ba­lharam para que o es­pec­tá­culo se cons­truísse no pe­ríodo de pro­dução.

Mas também é uma ho­me­nagem Jo­a­quim Be­nite?

O Jo­a­quim es­tará sempre pre­sente em tudo aquilo que nós fa­çamos, porque esta Com­pa­nhia foi criada por ele, assim como o Fes­tival. Jo­a­quim Be­nite sempre teve a cons­ci­ência de que o seu tra­balho ul­tra­pas­saria o li­mite da sua vida, uma vida breve, daí a sua pre­o­cu­pação na for­mação, quer de ac­tores, quer de téc­nicos. A ver­dade é que hoje há pes­soas que di­rigem com­pa­nhias de te­atro, em Por­tugal e no es­tran­geiro, for­madas por ele, e esta casa, que agora tem o seu nome, é ge­rida por pes­soas que ele formou.

O prémio é, de igual forma, um re­co­nhe­ci­mento à aposta da Câ­mara Mu­ni­cipal de Al­mada na Cul­tura, con­si­de­rada, neste con­celho, um dos pi­lares de de­sen­vol­vi­mento do con­celho...

A Câ­mara de Al­mada é um caso raro no pa­no­rama na­ci­onal. O Fes­tival sempre foi uma aposta dos vá­rios exe­cu­tivos, tendo evo­luído ao longo dos anos. Co­meçou como uma mostra bas­tante in­ci­pi­ente, em 1984, mas a partir dos anos 90 per­cebeu-se que o Fes­tival podia ser uma marca da ci­dade, que já o é. Este novo pre­si­dente [Jo­a­quim Judas] rei­terou e au­mentou o in­te­resse, a im­por­tância e o sub­sídio atri­buído à ac­ti­vi­dade do Te­atro e, por­tanto, cum­prindo aquilo que era uma pro­messa elei­toral, mas so­bre­tudo per­ce­bendo o que é que a pre­sença desta Com­pa­nhia e o tra­balho que aqui fa­zemos e a exis­tência de um Te­atro deste tipo sig­ni­fica para o de­sen­vol­vi­mento da ci­dade e para o seu pres­tígio.

Em Al­mada o que é pres­ti­giado é a Cul­tura, não são aquelas coisas que fazem fogo de vista. São bens ima­te­riais que não são men­su­rá­veis do ponto de vista quan­ti­ta­tivo, mas que servem para formar aquilo que é o fu­turo.

Seria pos­sível a atri­buição deste prémio sem o apoio da au­tar­quia CDU, ao mesmo tempo que os su­ces­sivos go­vernos têm re­du­zido as verbas para a Cul­tura? Nos úl­timos dez anos, para se ter uma ideia, quanto é que o poder cen­tral  já re­tirou ao Fes­tival?

O sub­sídio da Se­cre­taria Geral da Cul­tura à Com­pa­nhia de Al­mada é o mesmo de 1997, ou seja re­cuámos 17 anos. Temos 400 mil euros, por ano, para a cri­ação e para a pro­dução. Na te­oria, os apoios às artes de­pendem di­rec­ta­mente do pri­meiro-mi­nistro, uma vez que não há Mi­nis­tério da Cul­tura, e só isto dá uma ideia em que mãos é que nós es­tamos.

Ainda no go­verno do PS, era Ga­briela Ca­na­vi­lhas a mi­nistra, em 2010, o corte foi de 11 por cento. No ano se­guinte, já com o PSD/​CDS, o corte foi de 38 por cento, foi ainda mais grave. Nós con­ti­nuámos, re­sis­timos, não pa­rámos a ac­ti­vi­dade, como acon­teceu com al­gumas com­pa­nhias, porque não ti­nham o apoio das suas câ­maras mu­ni­ci­pais, como nós temos da Câ­mara de Al­mada.

O nosso tra­balho con­tinua a ser re­sistir, rei­vin­dicar me­lhores con­di­ções de tra­balho, porque fa­zemos um ser­viço pú­blico que está pre­visto na Cons­ti­tuição da Re­pú­blica e que sai muito mais ba­rato ao Es­tado do que o ser­viço pú­blico pres­tado pelos te­a­tros na­ci­o­nais. A Se­cre­taria Geral da Cul­tura gasta com este Te­atro 400 mil euros por ano e com o Te­atro Na­ci­onal gasta sete mi­lhões de euros.

Por ano apre­sen­tamos 42 pro­du­ções di­fe­rentes. Isto dá uma ideia do peso que tem o in­ves­ti­mento feito aqui e o in­ves­ti­mento feito nos ins­tru­mentos de cri­ação do pró­prio Es­tado.

Podes le­vantar o «véu» sobre o que vai acon­tecer na 31.ª edição do Fes­tival de Al­mada, que se vai re­a­lizar já em Julho?

Vamos apre­sentar o pro­grama em Junho. Mas posso dizer que o es­pec­tá­culo de honra é de Fran­çois Cha­teau, que se chama «E se nos me­tês­semos ao ba­rulho». Foi o es­pec­tá­culo vo­tado, o ano pas­sado, pelo pú­blico para re­gressar este ano. Esta é uma das tra­di­ções do Fes­tival.

Neste es­pec­tá­culo as per­so­na­gens vêm com uma car­rinha vender a Re­vo­lução – é uma co­lec­tânea de textos desde Dario Fo, Ber­tolt Brecht, pas­sando por Wil­liam Sha­kes­peare, apre­sen­tado por quatro mag­ní­ficos ac­tores no Pátio do Prior do Crato, onde acon­teceu o se­gundo Fes­tival de Al­mada. Esta é uma peça com textos al­ta­mente po­lí­ticos, que co­locam o dedo no que são as con­di­ções de vida das pes­soas hoje em dia.

Re­la­ti­va­mente à Com­pa­nhia de Te­atro de Al­mada, como a vês no fu­turo?

Eu vejo o fu­turo da Com­pa­nhia com op­ti­mismo cép­tico. Tra­balho na Com­pa­nhia desde os 16 anos, e fui as­sis­tente do Jo­a­quim Be­nite desde 2006. A minha for­mação foi pro­fis­si­onal, mas também hu­mana e in­te­lec­tual. Tenho a per­feita noção de que este Te­atro, que agora me cabe di­rigir, é muito di­fe­rente do Te­atro da So­ci­e­dade Fi­lar­mó­nica Aca­demia Al­ma­dense para onde o Jo­a­quim foi quando tinha a minha idade. As con­di­ções que nós hoje temos aqui são in­fi­ni­ta­mente mai­ores. Também tenho a noção de que es­tamos a com­bater contra «ini­migos» que na al­tura não exis­tiam.

No que toca aos há­bitos das pes­soas, para dar um exemplo, logo a se­guir ao pe­ríodo pós-re­vo­lu­ci­o­nário muitos textos e au­tores es­tavam proi­bidos e era uma ac­ti­vi­dade que dizia muito às pes­soas. E, por­tanto, estes «novos» grupos, o Centro Dra­má­tico de Évora (Cen­drev), a Com­pa­nhia de Al­mada, a Cor­nu­cópia, onde quer que se apre­sen­tassem ti­nham lo­ta­ções es­go­tadas.

Hoje em dia a po­pu­lação, es­pe­ci­al­mente os jo­vens, está ali­e­nada do que seria um di­ver­ti­mento cons­ci­ente. E se nessa al­tura se fazia te­atro que des­per­tava a cons­ci­ência das pes­soas, hoje temos uma certa di­fi­cul­dade em ex­plicar que aquilo que fa­zemos não é abor­re­cido, que tem ca­rac­te­rís­ticas que apelam à re­flexão e à pro­ble­ma­ti­zação da nossa vida, mas que também tem um lado lú­dico, porque o Te­atro serve para di­vertir e para educar.

Con­cor­remos com a te­le­visão que tem 200 ca­nais, com a falta de tempo das pes­soas e com a In­ternet. Mas não há nada que subs­titua a pre­sença, hu­mana e fí­sica, de um actor em cena. E é esse também o tra­balho que temos feito com as es­colas, que passa por mos­trar-lhes o que é o Te­atro e des­pertar nos alunos essas sen­sa­ções para a vi­vência poé­tica.

Que­remos criar nos jo­vens o há­bito de fre­quentar o Te­atro como um acto de ci­da­dania, que per­cebam que existe esta casa – um Te­atro que está aberto, todos os dias, a partir das 14.30 horas, ex­cepto à se­gunda-feira, com um Bar, um Res­tau­rante de preços po­pu­lares, uma Ga­leria de Ex­po­si­ções. Ir ao Te­atro não é só para pes­soas muito cultas, muito ricas, nem muito ve­lhas. É também para jo­vens, para pes­soas que não têm o En­sino Su­pe­rior e que não têm muito di­nheiro.

Os nossos preços são quase ir­ri­só­rios. Por uma pro­dução nossa, na Sala Prin­cipal, os preços va­riam entre os seis e os 13 euros, sendo que um jovem paga seis euros para as­sistir a uma peça. Ou seja, é mais ba­rato do que ir ao ci­nema. Mas também que­remos que per­cebam que um es­pec­tá­culo tem um valor, não pode ser gra­tuito, e que para se poder as­sistir àquela peça há uma série de pes­soas que tra­ba­lharam para isso.

Quais as ca­rac­te­rís­ticas prin­ci­pais da Com­pa­nhia e o que a dis­tingue de ou­tros pro­jectos?

Os nossos es­pec­tá­culos não obe­decem a uma ló­gica co­mer­cial. Temos um palco enorme e de­pois uma pla­teia re­du­zida para o ta­manho do palco (entre 380 a 450 lu­gares). Se formos ao Te­atro de Re­vista a re­lação é exac­ta­mente con­trária. Porque o que lhes in­te­ressa é vender bi­lhetes para fi­nan­ciar o es­pec­tá­culo.

O Te­atro que nós fa­zemos é de Arte, de Ser­viço Pú­blico, que pro­cura pôr a po­pu­lação em con­tacto com a li­te­ra­tura. O que está em causa não é a ob­tenção do lucro. Por­tanto, esta ac­ti­vi­dade só é ren­tável se for sub­si­diada, quer pelo Es­tado, quer pela Câ­mara Mu­ni­cipal. É um in­ves­ti­mento para que as pes­soas possam as­sistir a es­pec­tá­culos de Te­atro a um preço re­du­zido. Se não hou­vesse este sub­sídio então o preço dos bi­lhetes teria que ser cinco ou seis vezes mais. Havia na mesma pú­blico, mas era só para quem podia pagar aquele preço.

Há al­guns opi­nion ma­kers, como o Mi­guel Sousa Ta­vares, que põem em causa os cri­a­dores que são sub­si­di­ados. Nós não somos sub­sídio-de­pen­dente, não somos ne­nhuns vam­piros que es­tamos a sugar o di­nheiro do pú­blico. O que se passa é que muitos desses opi­nion ma­kers querem ver um es­pec­tá­culo, metem-se no avião e vão vê-lo. As pes­soas de Al­mada não tem di­nheiro para poder fazer isso, mas eu acho que estas pes­soas, en­quanto ci­da­dãos, têm di­reito a ver esses es­pec­tá­culos. Não pode haver uma alta e uma baixa Cul­tura. As pes­soas que têm uma origem de classe mais baixa têm o mesmo di­reito a ver grandes es­pec­tá­culos do que as pes­soas de uma classe so­cial mais abas­tada.

Que me­didas terão de ser to­madas para con­ti­nuar o tra­balho de­sen­vol­vido desde 1978?

Este é um tra­balho de con­ti­nui­dade. Apre­sen­tamos pro­gra­ma­ções anuais para que as pes­soas possam, ao longo do ano, prever e pla­near aquilo que querem ver, para que possam com­prar o cartão do Clube de Amigos e as­sistir gra­tui­ta­mente a todos os es­pec­tá­culos da Com­pa­nhia, e de­pois também temos um re­por­tório di­ver­si­fi­cado, não só para quem se in­te­ressa por Te­atro con­tem­po­râneo e clás­sico, mas também pro­du­ções para a in­fância, para além da mú­sica e da dança.

Que men­sagem di­riges aos amigos e es­pec­ta­dores do Fes­tival de Al­mada e do Te­atro Mu­ni­cipal de Al­mada?

Que nunca nos aban­donem…

 



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