Corrigir a injustiça
Um grande movimento de solidariedade mundial pode corrigir a injustiça cometida contra os Cinco antiterroristas cubanos, três dos quais permanecem detidos nos EUA e urge libertar o quanto antes, referiu ao Avante! Elizabeth Palmeiro, esposa de Ramón Labañino, que esteve em Portugal entre 10 e 14 de Março.
Milhares de pessoa têm denunciado a injustiça de que são alvo os Cinco
Está em Portugal pela primeira vez e logo com um programa recheado de debates, encontros com forças políticas e sociais (ver caixa). Quais são os objectivos da visita?
É a primeira vez que estou no vosso país, mas não é a primeira vez que um familiar de um dos Cinco visita Portugal. Sei que, como eu, também outros familiares dos Cinco foram muito bem acolhidos pelos amigos e organizações que assumem como uma das prioridades da sua intervenção a solidariedade com Cuba e a causa dos patriotas cubanos injustamente condenados e presos nos EUA, e que a elas dedicam tanto do seu tempo e energia. Nós, familiares e os próprios Cinco, sentimos-nos não apenas gratos mas alentados, mais capazes de prosseguir.
O objectivo da visita é justamente concretizar a batalha pela libertação dos heróis cubanos, com o meu testemunho e, através dele, divulgar a situação em que se encontra o meu esposo, Ramón, bem como a situação de Antonio Guerrero e Gerardo Hernández; denunciar, também, o processo e a injustiça a que foram e estão sujeitos, divulgar e estimular a exigência da sua libertação.
Estou segura de que quem souber do drama familiar que vivemos há já mais de 15 anos não deixará de solidarizar-se com a nossa luta, e, quiçá, contribuir para a sua ampliação.
Neste momento não vemos outra saída que não seja o apoio das pessoas de boa-vontade de todo o mundo e a exigência massiva, a Barack Obama, para que use as faculdades constitucionais de que dispõe enquanto presidente e liberte os três antiterroristas que permanecem encarcerados. Só contamos com a solidariedade para corrigir a injustiça.
Só o presidente Barack Obama pode libertar os três patriotas cubanos antes do cumprimento total das respectivas penas. Quer isso dizer que estão esgotados os recursos legais?
Desde 1998, quando foram detidos, o que pedimos é que libertem os Cinco porque eles nunca deviam ter cumprido qualquer período na prisão. Eles foram e são lutadores antiterroristas que saíram de Cuba para impedir que grupos financiados pelos EUA, sediados na Florida, e em particular em Miami – grupos com uma larga história de agressões contra Cuba e reconhecidos, até pelas autoridades norte-americanas, como violentos e terroristas – voltassem a praticar actos terroristas. Actos, recorde-se, que já provocaram dezenas e dezenas de vítimas. Era esse, e não outro, como aliás se provou, o propósito dos Cinco.
Paradoxalmente, foram presos, acusados e condenados por terrorismo e espionagem. Foram, além do mais, julgados na cidade que piores condições oferecia para um processo objectivo e limpo, Miami. Milhares de pessoa têm denunciado esta injustiça de que foram alvo os Cinco. Inúmeras personalidades, incluindo prémios Nobel, organizações de advogados, estruturas sociais e humanitárias com mais de um milhão de associados; parlamentos inteiros e grupos parlamentares, incluindo no Parlamento Europeu; presidentes e ex-presidentes, como Jimmy Carter, consideram que o processo está manchado por irregularidades e que os Cinco e as respectivas famílias sofreram e sofrem violações sistemáticas dos seus direitos. Por isso têm exigido a Barack Obama que indulte os Cinco, no caso, Ramón, Antonio e Gerardo, que permanecem presos.
As libertações de René González, primeiro, e mais recentemente de Fernando González é um alento para as famílias dos presos que permanecem nos EUA?
É uma mescla de alegria e dor. Alegria porque é mais um dos patriotas que regressa para junto da sua família e do seu povo, que termina o calvário a que foi submetido. Simultaneamente é doloroso porque sabemos que Fernando teve de cumprir a sentença até ao último minuto do último dia. Foi libertado porque, como René González, cumpriu o total do tempo que lhe restava após a revisão das condenações, não porque se tenha feito justiça.
Quando pensamos que, a não serem amnistiados por Barack Obama, Antonio permanecerá na prisão até 2017, ao que acresce mais cinco anos de probatória; e que, nesse contexto, o meu esposo, Ramón, ficará até Outubro de 2024, mais dez anos, longe das suas filhas, sentimos uma tremenda dor e injustiça.
O caso de Gerardo é ainda mais duro, pois está condenado a morrer na prisão, sentenciado por crimes que não cometeu. Às suas penas acresce uma outra, que não está escrita, que não é formal, mas que é real. As autoridades dos EUA impedem que receba a visita da sua esposa, negando-lhe sucessivamente o visto de entrada e permanência no país.
É uma tragédia humana que não atinge apenas aos Cinco, mas a todos os seus familiares e amigos.
Como é que está o ânimo dos três patriotas que permanecem detidos?
No caso do meu esposo, é ele a minha grande inspiração. É incrível, mas cada vez que o visito volto fortalecida. Fortalecida pelo exemplo de dignidade e resistência.
Estive com ele em Janeiro e não lhe ouvi uma palavra de lamento. Nem de ódio para com os seus captores. Pelo contrário, estava optimista, confiante de que esta seria a última visita que lhe faria na prisão. Quis, como tem sempre feito na medida do possível, acompanhar a nossa vida familiar, a vida das filhas que não lhe permitiram ver crescer.
Que iniciativas estão previstas ao nível mundial para exigir sua libertação?
Acabo de chegar de Londres onde se realizou uma comissão de investigação sobre o caso dos Cinco. Participaram comités de solidariedade de 27 países e três juízes, da África do Sul, Índia e França. Apesar das autoridades britânicas lhe terem negado o visto, René González também deu o seu testemunho na sessão, via Skype. Houve outros testemunhos: de especialistas em terrorismo dos EUA contra Cuba, de vítimas desse mesmo terrorismo e de familiares.
As conclusões pretendemos entregá-las na Casa Branca, ao procurador-geral e a congressistas dos EUA durante a terceira jornada de solidariedade com os Cinco, que realizaremos de 4 a 11 de Junho, em Washington. Levaremos, igualmente, a carta da Amnistia Internacional que também denuncia a injustiça, as violações processuais e exige a imediata libertação dos patriotas ainda detidos.
Era bom que de Portugal fosse não apenas uma delegação solidária mas pelo menos um deputado à jornada «Cinco Dias pelos Cinco», uma vez que seria, como outros parlamentares de outros países que sabemos que estarão presentes, mais um interlocutor junto dos eleitos norte-americanos.
Acreditamos que os debates, os encontros, as acções de denúncia e mobilização da opinião pública que prevemos fazer nos EUA terão eco em Portugal. Só um grande movimento mundial, e em particular nos EUA e junto do povo norte-americano, será capaz de impor a Barack Obama ou a outro presidente dos EUA a correcção da injustiça, garantindo a libertação dos patriotas que ainda cumprem pena.
Iniciativas em Portugal
Durante a sua estadia no nosso País, a esposa de Ramón Labañino participou em várias iniciativas, de debates a encontros com organizações, instituições e eleitos. Elizabeth Palmeiro, acompanhada pela Associação de Amizade Portugal-Cuba (AAPC), reuniu, entre outras, com as direcções do Concelho Português para a Paz e a Cooperação, da AAPC e da CGTP-IN. Na Assembleia da República, encontrou-se com representantes de todas as forças com assento parlamentar e com a Comissão de Negócios Estrangeiros.
Participou em sessões públicas e contactos com a população em Lisboa, Porto, Almada, Vila Real de Santo António, Albufeira, Silves e Faro.