A balada em surdina do poder, da fé e do dinheiro

Jorge Messias

«Ninguém sabe ao certo quanto gasta e quanto tem a Igreja Católica. Há uma completa opacidade nas suas contas… A investigação do Banco do Vaticano acerca de lavagens de dinheiro, as indemnizações a pagar na sequência de escândalos sexuais de eclesiásticos ou responsáveis laicos e o número decrescente de fiéis ou de doações piedosas, são alguns do grandes problemas do novo Pontífice… Por exemplo: nos EUA, as dioceses e ordens religiosas já pagaram mais de 2 biliões de dólares de indemnizações por escândalos sexuais; em muitos casos – como nas arquidioceses de Los Angeles, Chicago e Boston – o rombo sofrido pelos seus fundos de pensões foi superior a 90 milhões de dólares…» (Jason Berry, “As finanças secretas e caóticas da Igreja Católica”, Setembro de 2013).

«Muitos criticaram a nomeação para a presidência do Banco do Vaticano de alguém ligado às indústrias bélicas, o que parece entrar em contradição com a Doutrina da Igreja... No entanto, para além do IOR ou Banco do Vaticano, o novo responsável continuará a dirigir os interesses dos Estaleiros Blohm & Voss que, actualmente, constroem quatro grandes fragatas para o governo alemão» (Midia Global, Setembro de 2013).

«Antes de resignar, Ratzinger deixou o IOR entregue ao advogado alemão Ernst Von Freyberg, agora presidente do Conselho de Supervisão, que sucedeu a Gotti Tedeschi. O antigo responsável foi despedido em Maio de 2012, por alegada oposição às normas de transparência que o Vaticano estaria disposto a adoptar... 1,2 milhões de fiéis, 21 mil clientes e uma carteira de imóveis de 500 milhões de libras fazem parte da herança herdada pelo actual papa Francisco.» (Rita Dias Baltazar, “Negócios online”, 11 Março 2013).

Longe de romper com as formas anteriores do imperialismo, a Nova Ordem procura reagrupá-las, adaptando-as às tecnologias e às exigências da escalada do lucro, da concentração da riqueza e do reforço das leis da arquitectura financeira dos mercados. Velhos objectivos do capitalismo clássico. Neste aspecto, o Vaticano nada trouxe de novo. Novas, são ou procuram ser as estratégias de que o grande capital e a Igreja se servem para continuarem a dominar comunidades humanas em patética fase de mudança.

A Igreja histórica cresceu à imagem dos impérios do Ocidente e do Oriente, no respeito pelo poder absoluto e na aceitação de uma disciplina vertical apoiada no dogma, no controlo das armas e na concentração crescente e desigual da riqueza. Com o tempo, incorporou conceitos de filosofias esparsas e equipou-se com uma Teologia que é, simultaneamente, um poderoso arsenal político. Se fosse aqui lugar para tanto, poderia demonstrar-se que, nos últimos milénios, textos cristãos sagrados, pastorais e outros documentos doutrinais, sancionaram guerras, ódios entre povos, de raiz religiosa, e técnicas de acumulação do lucro. O negócio esteve sempre na base dessas tomadas de posição.

Assim, o dogma desfigurou o cristianismo com uma faceta odiosa. Foi o caso, por exemplo, das cruzadas e das inquisições. O terror exercido pelo braço secular, aliado ao Papado, sobre as massas populares, tornou-se um traço indesejável mas inapagável de uma imagem sagrada que foi passando de geração em geração. Veio a revelar-se, depois, que muitas instituições cristãs a tal ponto esmagavam os escravos que, por vezes, estes revoltavam-se e sucumbiam torturados até à morte, em nome da fé. Impunha-se que a Igreja desse ao cristianismo um novo rosto, uma linguagem maleável mesclada com uma caridade aparente que induzisse os povos a aceitarem como virtuosas a exploração e a miséria.

A sociedade de classes instalou-se solidamente. A Igreja constitui parte integrante do poder dominante. Vistas bem as coisas, tudo continua assim.

O capitalismo monopolista afivela a máscara democrática. O Vaticano troca os nomes às coisas e as cores às tintas. O lucro é objecto de culto. Se há crise, os pobres que a paguem. Custe o que custar. Porque os pobres, dizem os profetas, «tê-los-eis sempre convosco!..». O Vaticano é um sólido aliado da exploração capitalista.

Parece incrível, mas disse João Paulo II à Juventude: «O Neoliberalismo causou o enriquecimento exagerado de uns poucos à custa do empobrecimento crescente de muitos, de forma que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres...».

Corria o ano de 1985. As práticas financeiras do Vaticano eram já, então, abertamente neoliberais.




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